Por Teresa Vendramini
No lugar de apenas reagir às crises, é necessário fazer um planejamento e estabelecer uma política de Estado para os próximos 30, 40 ou 50 anos.
Na vida existe uma regra simples: quando os problemas não são resolvidos no tempo certo, eles se acumulam. E o agro brasileiro vive exatamente este momento, com vários sinais de alerta piscando ao mesmo tempo. Apesar de o setor ter caminhado muito em pautas como produtividade e com exportações recordes, existem temas sobre os quais precisamos avançar.
Questões históricas, como entraves regulatórios, crédito, seguro rural e dependência de fertilizantes, estão sem solução. Agora, novos desafios, como o endurecimento do crédito, as relações internacionais e o El Niño confirmado para a próxima safra, chegaram à porteira, formando o que o mercado vem chamando de “tempestade perfeita”.
A dependência dos fertilizantes é um exemplo disso. A escassez do produto e o custo elevado nesta safra são riscos estruturais que começaram lá atrás. Isso foi apontado durante a pandemia, depois na guerra da Ucrânia e, agora, na guerra com o Irã. Essa fragilidade estava ali, todos sabiam, mas não foi resolvida. Hoje, a produção de alimentos paga a conta: enquanto, em 2022, bastavam 60 sacas de milho para comprar 1 tonelada de ureia, em 2026 são necessárias 135 sacas para adquirir o mesmo volume.
Produtores rurais vivem hoje um dos maiores níveis de endividamento da história, sobretudo no Rio Grande do Sul, atingido por uma severa catástrofe climática. Sem mecanismos de proteção e seguro rural, o setor vive uma relação de vulnerabilidade financeira permanente, na qual qualquer desequilíbrio climático ou desajuste geopolítico pode comprometer o investimento de uma vida.
Somado a esse cenário, nos deparamos com um novo mercado externo que se forma. É nítido que estamos passando por uma redistribuição de poder na geopolítica mundial. A relação entre Estados Unidos e China, o comportamento imperialista do presidente Trump ou o protecionismo da União Europeia. Assuntos que refletem aqui dentro da porteira, com barreiras comerciais, salvaguardas, alta nos custos, queda nos preços das commodities, tarifas e por aí vai.
No lugar de apenas reagir às crises, é necessário fazer um planejamento e estabelecer uma política de Estado para os próximos 30, 40 ou 50 anos. Tratar a segurança alimentar como tema de soberania nacional. Reduzir as vulnerabilidades no campo. Investir mais em armazenagem, fertilizantes, bioinsumos e logística. Enfrentar com maturidade, sem ideologias, a regulação tributária, ambiental e fundiária.
Afinal, nenhum setor econômico consegue crescer de forma sustentável em um ambiente de permanente insegurança, com interpretações divergentes, sobreposições normativas e burocracia. Isso gera custos, imprevisibilidade e retração dos investimentos.
O Brasil possui, sim, vocação para liderar a produção mundial de alimentos, fibras e energia. Porém, a casa precisa estar arrumada com políticas públicas consistentes para que possamos aproveitar as oportunidades e atravessar as tempestades. Porque, no fim, toda tempestade revela quem está preparado para resistir (Teresa Vendramini
é produtora rural e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira)



