Como o agro está driblando os juros altos para modernizar maquinário

Produtores fogem de financiamentos e recorrem a ‘upgrade’ de máquinas antigas e a consórcios para evitar o pagamento de juros

Giovane Gehrke estava ensaiando para comprar uma plantadeira nova há uns três anos. Mas o produtor de milho e soja em Jataí, sudoeste de Goiás, mudou de ideia rapidinho quando viu que os juros não iam cair como esperado este ano. Desistiu de comprar uma máquina nova que, à vista, tem preço em torno de R$ 1 milhão. Isso porque, no financiamento, o valor dá um salto de 60% (com 12% de juros anuais, em oito anos). São R$ 608 mil só de juros. Foi aí que ele soube de alternativas, como o “upgrade” de máquinas.

Com um investimento equivalente a 25% do preço de uma nova, Gehrke fez a modernização de sua plantadeira mecânica de 20 linhas. “Era uma máquina com uma velocidade muito ruim: fazia no máximo 45 hectares por dia de plantio. Agora chega a 55 hectares, está bom demais da conta”, diz.

O kit instalado na máquina de Gehrke foi produzido pela Agrosystem, empresa brasileira que desenvolveu uma tecnologia, batizada de Bolt, para modernizar plantadeiras já em operação.

“Conseguimos fazer com que as máquinas tenham uma redução de 6% no consumo de combustível, cometam 50% menos falhas e alcancem mais precisão e velocidade”, diz Thiago Carvalho, presidente da empresa, que lançou o serviço em abril, durante a Agrishow 2026, a principal feira de tecnologia agrícola da América Latina, em Ribeirão Preto, que aconteceu entre 27 de abril a 1º de maio.

A Agrosystem é focada em plantadeiras de milho, soja, algodão e amendoim. A plantadeira é o “acessório” que, acoplado a um trator, faz o sulco no solo, deposita as sementes, o adubo e fecha a cova com terra — teoricamente na proporção e posição correta. Teoricamente, porque nem todo aparelho faz o serviço como promete.

Os modelos mecânicos, por exemplo, muitas vezes jogam duas sementes no mesmo sulco, um desperdício para o produtor. Além de gastar mais sementes, a chance da planta vingar é menor já que os dois grãos vão concorrer à mesma quantidade de fertilizantes. E, se brotar, a planta é mais fraca, suscetível a doenças e passível de uma produção menor.

“Quando uma máquina é modernizada, ela consegue, em média, ser 30% mais rápida e também é mais precisa”, diz o executivo. Ou seja, o sulco é melhor cavado, não há desperdício na quantidade de semente para o plantio. Na ponta do lápis, uma plantadeira que passa por esse processo entrega, segundo a companhia, 9% mais produtividade na soja e 6% mais no milho.

Com esse apelo, a empresa brasileira espera modernizar mais de 100 máquinas este ano. “É um mercado muito grande. Calcula-se que entre 1 milhão e 1,5 milhão e meio de linhas plantadeiras são aptas no Brasil para essa modernização”, diz ele. Cada plantadeira tem no mínimo quatro linhas. Mas há modelos com mais de 70. A maioria da frota nacional tem mais de 15 anos, diz Carvalho. Não há, entretanto, estatísticas oficiais.

A marca de tratores John Deere também disputa esse mercado. Lançou os primeiros kits de modernização em 2023 e de lá para cá as vendas já dobraram, segundo a empresa, que prefere não abrir números. “São valores significativos”, diz Jackson Schneider, líder de negócios de upgrades da John Deere.

A empresa americana desenvolveu e produziu no Brasil kits de modernização que podem conectar qualquer tipo de máquina agrícola à internet (para serem controladas à distância), para aumentar a eficiência e produtividade de plantadeiras e um especial que, equipado com câmeras, analisa a presença de ervas daninhas no solo e aplica defensivos na medida certa, conforme a infestação.

“Nesse caso, na média, o uso de defensivos cai 60%. Mas já tivemos casos de clientes que reduziram em 90%”, explica Schneider. Os preços, no caso da marca americana, ficam em torno de 5% a 25% do preço da máquina nova com tecnologia semelhante.

Na Agrosystem, equivalem a 25% do preço da máquina nova compatível. E o produtor pode parcelar o investimento pelo Financiamento de Máquinas e Equipamentos (Finame) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A garantia é de até dois anos.

Juros altos, vendas em baixa

O mercado brasileiro de máquinas agrícolas acumula quatro anos consecutivos de queda nas vendas, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Este ano, a expectativa era de que os juros começassem a cair em março e que esse processo continuasse ao longo de 2026, o que ajudaria o setor a recuperar vendas em volume em pelo menos 3,5%.

Mas não foi o que aconteceu. Em março, as vendas líquidas internas (sem contar exportação) somaram R$ 3,824 bilhões, o que significa uma queda de 21,8% em faturamento em relação ao mesmo mês do ano passado. No acumulado dos três primeiros meses de 2026, a baixa é de 19,9%, conforme a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, a Abimaq.

Os juros altos — e os preços das commodities em queda — espantam quem precisa comprar máquinas. O preço da soja, por exemplo, que chegou a custar US$ 17,22 em 2022 vem caindo desde então e está agora a US$ 11,78 a saca de 27 quilos.

E se os juros baixarem?

A crise, entretanto, abre oportunidade para o mercado de modernização de máquinas e também para o consórcio. Essa modalidade, teoricamente, não cobra juro, mas uma taxa de administração anual.

Por isso, houve crescimento de 149% no número de participantes de consórcios entre 2020 e 2025, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac). No Consórcio Nacional Case IH, administrado pela Primo Rossi, as vendas cresceram cerca de 80% nos primeiros dias da Agrishow.

Ao passo que os juros iam subindo na economia, o consórcio da Case IH cresceu uma média de 18% ao ano desde 2021. A taxa de administração de 1,7% ao ano e grupos de até 120 meses são o grande atrativo da modalidade de financiamento.

Mas e se tudo mudar e os juros caírem? “A modernização de máquinas é uma tendência que veio para ficar”, diz Schneider da John Deere. Carvalho, da Agrosystem, concorda. “Claro que os juros em alta nos criam uma oportunidade. Mas esse é um mercado muito atraente. Mesmo que os juros caiam bastante, ele continua sendo positivo porque valoriza o capital que o produtor já investiu anteriormente na máquina”, diz ele. Ou seja, o “upgrade” acaba valorizando o bem do produtor. “O valor de revenda da máquina cresce bastante”, diz Schneider (Estadão)

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