‘Estresse’ no crédito rural deve continuar até metade de 2026

Medidas para solucionar a escalada no endividamento do campo não surtiram efeito, diz Farsul.

A piora na saúde financeira do setor agropecuário brasileiro em 2025, com a escalada da inadimplência, e a manutenção dos juros em patamar elevado podem tornar o cenário ainda mais complicado para o financiamento da produção rural, com mais endividamento e restrições no crédito, pelo menos até a metade deste ano, de acordo com análise técnica feita pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

“O cenário para o curto prazo não é animador. A previsão é que a situação do crédito rural continue a piorar no primeiro semestre de 2026, com uma possível estabilização apenas após o mês de maio, dependendo da normalização fiscal e da ausência de novos choques econômicos”, afirma nota técnica da Farsul, elaborada pelo economista-chefe Antônio da Luz e divulgada nesta terça-feira (6/1).

“A predominância de renegociações com recursos livres, combinada com carência e parcelamento, em um ambiente de juros elevados e com expectativa de normalização apenas adiante (hipótese de Selic alcançando 12% somente ao final de 2026), eleva o risco de crescimento acelerado do saldo devedor e reforça a preocupação com a trajetória de estresse da carteira”, aponta a nota.

Como a Globo Rural mostrou no fim de dezembro, a carteira “estressada” de crédito rural, que soma operações em atraso, prorrogadas, renegociadas e inadimplentes, saltou de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025, segundo dados mais recentes fornecidos pelo Banco Central. Cerca de 15% de todo crédito ativo para o agronegócio no Brasil está com algum “estresse financeiro”.

A Farsul destaca que o crescimento de 71% nesse perfil de financiamentos no período, com expansão de mais de R$ 34 bilhões na carteira estressada, revela uma “deterioração acelerada” e concentrada nos últimos meses, causada por problemas econômicos e não climáticos. Para a entidade, o estoque elevado de operações em atraso sugere pressão adicional de migração para inadimplência no curto prazo.

O nível elevado da taxa de juros, a 15% ao ano, é o principal “ofensor” nesse cenário, diz a Farsul. “A raiz está no desequilíbrio fiscal, que pressiona a inflação e obriga a manutenção de juros altos”, afirma o documento.

Na avaliação da entidade, as medidas adotadas até agora para solucionar a escalada no endividamento do campo não surtiram efeito e podem criar um efeito “bola de neve” no crédito rural. A principal crítica é quanto às dificuldades de acesso à renegociação de dívidas na linha com recursos públicos e à opção pelo refinanciamento a juros livres, que pode estrangular a situação financeira dos produtores mais à frente.

“Renegociar dívidas a juros de mercado em um cenário de Selic elevada pode transformar a solução em um problema maior. Com carência e parcelamento, o saldo devedor tende a crescer, criando uma acumulação exponencial do passivo que pode levar a novos episódios de estresse no futuro”, diz a Farsul.

Como mostrado pela reportagem, a renegociação de dívidas rurais pelas regras da Medida Provisória nº 1.314/2025 havia alcançado R$ 28,2 bilhões até 19 de dezembro de 2025, mas apenas R$ 5,4 bilhões eram com recursos públicos na linha operacionalizada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A Farsul ressalta que aos grandes produtores, que detêm o maior volume de endividamento em condições mais caras, restou apenas a opção de refinanciamento juros de mercado.

Como saída, a Farsul reforçou a defesa pela aprovação do projeto de lei 5.122/2023, em tramitação no Senado, que autoriza a aplicação de até R$ 30 bilhões do Fundo Social do Pré-Sal para a renegociação de dívidas rurais com juros mais baixos. A medida, ressalta a entidade, não tem impacto fiscal, apesar de influenciar no aumento da dívida pública.

A Farsul também cobra uma “solução efetiva e estrutural para o estresse do crédito rural, com desenho que ataque o núcleo do problema (principalmente onde há endividamento em juros de mercado)” (Globo Rural)

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