Eles se mudaram para Cambé, então Nova Dantzig, em 1939. E, na região, praticamente todo agricultor só tinha olhos para a cafeicultura
Em 1936, quando comprou um lote de terras no então patrimônio de Nova Dantzig, hoje a cidade de Cambé, a família Dezoti, de origem italiana, começou a projetar seu futuro no norte do Paraná. Morando em Bernardino de Campos (SP), os imigrantes Antônio Raminelli e seu irmão Basílio Raminelli não tiveram dúvidas quando ouviram falar das terras férteis que podiam ser compradas com facilidade para cultivar o ouro verde da época, o café.
CARA E CORAGEM – Eles adquiriram uma propriedade com 30 alqueires de café plantado e 20 casas de colonos e, em 1939, se mudaram para o Paraná. Foi assim, com a cara e a coragem que, naquele ano, três gerações dos Dezoti seguiram rumo ao sertão paranaense. Entre eles, Eugênio, genro de Antônio, e sua esposa Maria. O casal trouxe os seus quatro filhos, ainda crianças.
EXPANSÃO – O tempo correu depressa: Nova Dantzig, que havia surgido em 1931 e recebido a estrada de ferro no final de 1935, passou a ser denominada Cambé durante a Segunda Guerra; os cafezais expandiram-se a perder de vista e a família de Eugênio e Maria cresceu com a chegada de outros cinco filhos.
REFORMA AGRÁRIA – Detentora de uma vastidão de terras, a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), de capital britânico, promoveu uma verdadeira reforma agrária e foi a responsável pelo impulso inicial do desenvolvimento da região. Quem fala sobre isso é Acelino Dezoti, um dos filhos de Eugênio e Maria. “Foi tudo muito bem-organizado. Em sua maioria, os lotes eram servidos por uma estrada na cabeceira e córrego nos fundos”, comenta. E, para incentivar os compradores, a Companhia entregava as terras com uma pequena parte desmatada.
AINDA PEQUENO – Acelino tinha dois anos em 1939 quando foi trazido para o Paraná e até onde sua memória alcança, ia para a roça ainda muito pequeno em companhia dos pais e irmãos. Anos depois, quando retornava da escola, ia direto para o cafezal, porque serviço tinha de sobra.
CASAMENTO – No início de 1963, Acelino se casou com Maria Nair Campanholi, também de origem paulista, cuja família mudou-se para o Paraná em 1950, vinda de Jaú. Dessa união, nasceram três filhos: Vlademir, hoje produtor de grãos; Wagner, médico-veterinário, e Vânia, enfermeira. Eles encheram a família de netos. Acelino e Nair residem na Estância Santa Maria, um belo recanto repleto de memórias e praticamente dentro da cidade, com destaque para o casarão construído há 85 anos por Eugênio, onde reminiscências daqueles tempos estão por toda parte.
Vários povos em Cambé
Acelino conta que imigrantes de várias nacionalidades participaram do desbravamento de Cambé, entre os quais poloneses provenientes de Dantzig, japoneses e outras levas de procedência europeia. Todos só tinham olhos para o café.
TEMPO DIFÍCIL – Igualmente oriundos da Itália, os avós paternos e maternos de Nair (pela ordem Fortunato Campanholi e Lúcia Rigi, e Gustavo Crespi e Albina Trento) também se fixaram em terras paranaenses. “Foi um tempo difícil, de muito trabalho, mas os sitiantes não passavam necessidades, havia fartura, pois produziam de tudo nas entrelinhas do café”, observa Nair, esposa de Acelino.
APROVEITAMENTO – Segundo ela, muita coisa se aproveitava, também, em forma de conservas, compotas e doces. E não há como esquecer da carne de porco guardada na lata, “uma delícia”. As roupas eram lavadas na mina e Nair explica: “Pra tirar o encardido e a sujeira, só fervendo”.
DESCANSO – Mas, o povo se divertia e não via a hora de chegar o sábado, dia de baile, o domingo, para ir à missa, à venda, jogar ou assistir futebol, passear na praça da igreja ou ir ao cinema.
Oportunidades para todos
Antônio, o avô de Acelino, plantou um cafezal e repassou 3 mil pés para que o genro Eugênio começasse a vida. Era assim: cada filho, que equivalia a uma enxada, tinha direito a 3 mil cafeeiros. Pelo costume da época, mulheres e filhas, embora trabalhassem iguais aos homens, não eram consideradas enxadas.
PÉ DE MEIA – Como o café dava dinheiro, em alguns anos Eugênio teria a oportunidade de fazer um pé de meia e adquirir o próprio pedaço de chão, como aconteceu.
MUITO TRABALHO – Segundo Acelino, quem não conseguia comprar terra, se mudava para o Paraná assim mesmo e, persistindo no trabalho, logo alcançava seu objetivo. Muitos, primeiramente, se tornavam formadores de café: faziam um acordo com o proprietário da terra e a recebiam ainda sob o mato. Então, derrubavam, plantavam café e exploravam a cultura por quatro anos, sendo deles inclusive o que cultivassem nas entrelinhas.
BOM NEGÓCIO – “Por muito tempo o café foi um bom negócio, a terra era barata e podia ser paga ao longo de anos com a própria produção”, explica. Também havia, na época, as figuras do meeiro e do porcenteiro. Eles entravam em acordo com os donos de sítios para trabalharem por quatro anos. Enquanto o primeiro dividia os custos e a colheita, o segundo ficava com 40% da safra.
EMPREGADOS – Já os empregados moravam com suas famílias nas casas de colônia, onde tinham direito a um quintal e, nele, colocar uma cabeça de gado, um cavalo, criar galinhas, ter um chiqueiro de porcos, manter horta e plantas frutíferas. “Quando os colonos recebiam o salário, subiam num caminhão, iam para a cidade fazer as compras do mês e cada qual voltava carregando um saco”, relembra. Alguns, também, aproveitavam para levar arroz em casca e beneficiar na cidade.
BENZEDEIRA – “Havia médico, mas as famílias daquela época preferiam curar as doenças com benzedeiras e ter os filhos com parteiras”, cita Acelino. A comunicação com parentes distantes ficava sujeita a um longo atraso. Telefone, nem pensar. E as cartas, geralmente, podiam demorar semanas para chegar ao destino.
GEADAS – Quanto às temíveis geadas, ele diz que os produtores de verdade não se abatiam tanto, após uma frustração, ao contrário dos aventureiros. Se estes só falavam em se desfazer das terras e ir embora, aqueles logo conseguiam dar a volta por cima e, por uns tempos, sobreviver do que tinham plantado no meio do café.
SUPERAÇÃO – Os Dezoti enfrentaram várias geadas, incêndios devastadores e até mesmo o ataque de nuvens de gafanhotos. Mas, permaneceram firmes. Eles só desistiram do café, a exemplo da grande maioria dos produtores, em 1975, quando sobreveio a geada negra. A partir de então, a soja, antes mantida como uma cultura de pouca importância no meio do café, avançou rapidamente, passou a imperar nos campos e a agricultura se modernizou. Mas aí começa uma outra história. (Jornal Cocamar)



