Editorial O Estado de S.Paulo
Um estudo de pesquisadores das universidades MIT, Princeton e Notre Dame, além do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), oferece o retrato mais preciso já feito sobre o papel da pesquisa e desenvolvimento na revolução agrícola brasileira. As cifras impressionam: em cinco décadas, a produtividade agrícola aumentou extraordinariamente.
E o investimento público em pesquisa respondeu por mais da metade desse salto. Para cada R$ 1 investido, o retorno foi de R$ 17. O Brasil é um caso exemplar de como uma política pública pode transformar um país em desenvolvimento. E esse caso tem nome: Embrapa.
Criada em 1973, a estatal rompeu com o padrão de burocracias ineficientes e adotou métodos que ainda hoje soam revolucionários: meritocracia radical, envio maciço de pesquisadores para doutorados no exterior, autonomia científica, cooperação internacional e uma rede descentralizada de 43 unidades espalhadas por zonas ecológicas.
Os pesquisadores demonstraram que, se a Embrapa tivesse seguido o modelo centralizado típico de tantos órgãos brasileiros, teria produzido menos da metade de seus ganhos.
A combinação desses fatores gerou algo inédito: ciência tropical de ponta, capaz de adaptar sementes, corrigir solos, fixar nitrogênio e reinventar o Cerrado, transformando o Brasil de importador crônico em potência agrícola. Em poucas décadas, o País se tornou referência mundial de produtividade em clima tropical – um feito raro, reconhecido até por concorrentes internacionais.
Essa trajetória contrasta com a anemia da indústria nacional após décadas de protecionismo, reservas de mercado e políticas industriais erráticas. Enquanto fábricas se tornavam menos produtivas, o agro – ancorado em ciência, competição e empreendedorismo – abriu mercados, bancou a dívida externa e sustentou o crescimento do País. A lição é cristalina: quando o Estado desenha instituições racionais e se afasta da tentação dirigista, o Brasil prospera.
Mas o estudo chega num momento desconfortável. A Embrapa vive sua década mais difícil. Há dez anos, o custeio anual ultrapassava R$ 800 milhões. Em 2023 e 2024, caiu para a casa de R$ 250 milhões. Não surpreendem os relatos de laboratórios atrasando contas de luz e pesquisadores comprando insumos do próprio bolso.
Iniciativas meritórias de parcerias privadas confundem-se com ofertas de fundos pouco transparentes, que podem distorcer prioridades e submeter uma instituição de vocação pública à lógica de grupos específicos. Para um país cuja vantagem estratégica depende de ciência agrícola, essa negligência é um ato de miopia que beira a irresponsabilidade.
Num mundo pressionado por mudanças climáticas, insegurança alimentar e tensões geopolíticas, o Brasil possui uma vantagem rara: pode expandir a produção agrícola sem expandir o desmatamento. Mas isso exige exatamente o que hoje falta: pesquisa, inovação, biotecnologia, inteligência artificial aplicada ao campo, novos cultivos tolerantes ao estresse climático. A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, alerta que, sem pelo menos R$ 500 milhões anuais de investimentos estáveis, o País sentirá os efeitos em cinco ou dez anos – quando será tarde demais.
Felizmente, Brasília dá sinais de ter compreendido a dimensão do risco. Em 2025, os repasses federais para custeio e pesquisa subiram para R$ 370 milhões, e a previsão para 2026 é de R$ 410 milhões.
A escolha, para o Brasil, é simples. Ou trata a Embrapa como o ativo estratégico que ela é – financiando-a com previsibilidade, blindando sua governança e permitindo que continue a produzir ciência tropical de classe mundial – ou aceita perder a liderança construída ao longo de meio século. “A necessidade faz o sapo pular”, dizia Eliseu Alves, mentor da instituição. Hoje, a necessidade é do Brasil, que depende dessa engrenagem científica para sustentar sua segurança alimentar, suas exportações e sua reputação ambiental.
Se quisermos salvar o futuro, precisamos antes salvar a Embrapa, celebrando seu legado e garantindo os recursos para que ela continue a fazer aquilo que o Brasil, como poucos países – ou nenhum –, conseguiu: combinar produtividade, sustentabilidade e inclusão tecnológica numa das maiores histórias de sucesso do mundo em desenvolvimento (Estadão)






