Por José Maria Tomazela
Soja com sementes de plantas como o amendoim-bravo viaja de volta mesmo com diesel mais caro.
Em meio aos problemas causados pela guerra no Irã, como o aumento nos preços do diesel e de fertilizantes, os produtores de soja estão perdendo o sono com um novo percalço. A China impôs barreiras sanitárias para o grão que entra no país com sementes de algumas plantas consideradas pragas, como o amendoim-bravo.
Apenas na primeira quinzena de março, 2,5 mil caminhões carregados com o grão foram devolvidos pelo Porto de Paranaguá, o maior do Paraná e o segundo do Brasil em movimento de cargas.
Por não atenderem às exigências chinesas, as carretas com soja tiveram de retornar aos locais de origem da carga. Nas duas primeiras semanas de março, ao menos dez carretas que tinham carregado em Prudentópolis, a 302 km de Paranaguá, tiveram de voltar para trás com o grão na carroceria por estarem fora dos padrões exigidos pelos chineses.
No último dia 20, após negociações com o governo chinês, o governo brasileiro flexibilizou as novas regras, permitindo que a inspeção seja feita por empresas especializadas contratadas pelas tradings, e não apenas pelos fiscais do Ministério. As exigências quanto às pragas quarentenárias continuam, mas o controle maior agora é feito na classificação do grão que chega do campo nas cooperativas e tradings.
A China é de longe a maior compradora da soja brasileira. Em 2025, do total de 108,6 milhões de toneladas que o Brasil exportou, 80% — 87 milhões de toneladas — abasteceram os chineses. O município de Prudentópolis, na região centro-sul do Paraná, tem a economia baseada na agropecuária, e a soja é um dos seus principais produtos.
Prudentópolis produz cerca de 150 mil toneladas de soja por safra e quase todo o grão vai para exportação. Desde o início da guerra no Irã, a cidade sofre com a alta no preço do diesel e até com a falta de combustível para a colheita e o transporte da soja, que escoa para o Porto de Paranaguá.
Em menos de duas semanas, o litro do diesel passou de uma média de R$ 5,40 para R$ 7,90 nos postos e nas empresas que abastecem diretamente cooperativas de produtores. Na semana passada, faltava diesel comum nos postos.
O presidente do Sindicato Rural de Prudentópolis, Edimilson Rickli, diz que a volta da carga representa um novo ônus para o produtor. “Além do custo do frete, que aumentou devido ao preço do diesel, essa soja precisa passar por um processo de limpeza e ser reclassificada. Com o frete caro devido às altas no óleo diesel, isso acaba sendo um grande problema para o produtor.”
Dickli, que é engenheiro agrônomo, diz que, entre as plantas consideradas pragas quarentenárias, estão o caruru-palmeri, o amendoim-bravo e um tipo de sorgo. São plantas daninhas agressivas que infestam as lavouras de soja e têm alta resistência aos herbicidas e desfolhantes usados na colheita, causando problemas como o embuchamento das colheitadeiras.
Embora o processo de classificação nos portos permita até 1% de impurezas, as cargas acabam sendo recusadas quando chegam nos portos chineses e são encontradas amostras com sementes dessas plantas daninhas. Entre fevereiro e março, 19 navios com soja precisaram retornar ao Brasil, após terem a descarga barrada nos portos do país asiático.
Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o endurecimento das regras foi motivado por notificações feitas por autoridades chinesas ao País após a identificação de plantas daninhas e pragas quarentenárias em cargas de soja exportadas. Para atender às exigências do principal cliente da soja brasileira, o governo estabeleceu critérios mais rigorosos nas inspeções realizadas nos portos.
O novo protocolo aumentou em até sete vezes o número de cargas retidas ou reprovadas na análise, provocando atrasos na emissão dos certificados fitossanitários e afetando a logística de embarques no pico da safra.
Qualidade no campo
De acordo com o chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal da Superintendência Federal de Agricultura no Paraná, Fernando Augusto Pereira Mendes, cabe ao produtor cumprir as exigências internacionais se quiser colocar o grão no exterior. “O grande volume de recusa mostra a necessidade de um plano de ação envolvendo toda a cadeia produtiva. A qualidade começa no campo e o produtor tem papel central nesse processo”, disse.
Funcionários que fazem a classificação da soja foram treinados para identificar as sementes das pragas.
Segundo Mendes, as negociações iniciadas pelo governo brasileiro resultaram na suspensão temporária do embargo chinês. Diante das explicações das autoridades brasileiras sobre as características da produção do grão no país, a China decidiu não aplicar a tolerância zero para sementes de plantas daninhas, até que se defina um padrão aceitável de pureza da soja.
No entanto, os portos brasileiros vão continuar exigindo que a soja esteja livre de sementes de plantas quarentenárias para ser carregada nos navios.
Na Cooperativa Agrícola Mista de Prudentópolis, os funcionários que fazem a classificação da soja foram treinados para identificar as sementes das pragas. As cargas com impurezas sofrem descontos adicionais e, havendo excesso de sementes proibidas, não seguem para o porto e são destinadas a consumo local.
Até 180 caminhões barrados por dia
De acordo com a Portos do Paraná, que administra o Porto de Paranaguá, em condições normais o pátio de triagem recebe de 1.500 a 1.800 caminhões por dia, carregados com grãos e farelos. Normalmente, desse total, entre 20 e 30 veículos são reprovados diariamente, o que representa de 1,3% a 1,6%, dentro dos padrões técnicos de classificação e fiscalização.
Em fevereiro, o Ministério adotou critérios mais rigorosos de classificação, em atendimento a exigências das autoridades chinesas. Durante este período pontual, que durou cerca de 20 dias, o índice de reprovação chegou a 10% dos caminhões recebidos, segundo a Portos do Paraná. Ou seja, de 150 a 180 caminhões tiveram de retornar ao destino de origem sem descarregar a soja.
A Portos destaca que a reprovação não significa descarte da carga. Na maioria dos casos, são necessárias adequações e, uma vez atendidas as especificações, o produto pode retornar normalmente para exportação. Desde 20 de março, quando o Ministério reviu a normativa, o Porto de Paranaguá e outros do País seguem as novas regras (Estadão)





