Por José Roberto Mendonça de Barros
O Brasil cresce pouco há um bom tempo e está preso na armadilha da renda média. Nossa taxa de juros oscila entre alta e muito alta. Em consequência, os investimentos são baixos, a produtividade total e da mão de obra avançam muito pouco e o teto de crescimento que não causa inflação parece ser da ordem de apenas 2%.
Existe um amplo consenso, por mim partilhado, que a persistente elevação dos gastos do governo pressiona a inflação e a taxa de juros, resultando num crescimento persistente da dívida pública em relação ao PIB.
Quero argumentar que, embora a conexão macroeconômica seja a mais relevante, vêm ganhando importância no País diversas áreas que sistematicamente distorcem a alocação de recursos e que destroem valor, limitando, ainda mais, as possibilidades de crescimento do Brasil.
Falo aqui do crime organizado, do jogo, da corrupção associada à obtenção de vantagens (via regulação, concessão de privilégios e venda de bens e serviços ao estado e suas empresas), no chamado capitalismo de amigos. Falo também de empresas cujo modelo de negócios é predatório e/ou temerário desde sua concepção.
Boa parte da massa de resultados obtidos nessas atividades vira consumo de ostentação (especialmente de bens importados) e/ou vaza para o exterior com grande facilidade e baixo custo, especialmente desde a difusão das criptomoedas.
Fomos surpreendidos pela dimensão do jogo, que já fatura algo entre R$ 250 bilhões e 400 bilhões, e pela penetração do crime organizado em muitas empresas e setores, inclusive o financeiro. Uma referência aqui são os trabalhos de Maria Cristina Pinotti.
O capitalismo de amigos é velho conhecido da literatura e tem no livro de Sérgio Lazzarini (O Capitalismo de Laços) sua melhor análise entre nós.
Devemos também considerar o caso dos modelos de negócios predatórios e/ou temerários. O mais antigo é fazer da sonegação de impostos a principal fonte de ganhos, especialmente em setores como combustíveis, bebidas e cigarros.
Essas empresas investem extensivamente na aquisição de proteção política. Basta ver a enorme dificuldade para aprovar a Lei dos Devedores Contumazes.
Estamos vendo também um caso de temeridade nos negócios, o do Banco Master. Este captava recursos pagando juros bem caros enquanto mantinha uma extravagante estrutura de custos. Por exemplo, pagava por imóveis vazios nos pontos mais caros de Londres e Miami. Para completar, expressiva proporção dos ativos era de baixa ou baixíssima qualidade.
Não podia dar certo.
E assim seguimos crescendo pouco (José Roberto Mendonça de Barros é economista e sócio da MB Associados; Estadão)





