Por José Maria Tomazela
Com o negócio já praticamente fechado, o produtor rural Edimilson Roberto Rickli, de Prudentópolis, no centro-sul do Paraná, suspendeu a negociação para a compra de um trator que custaria cerca de R$ 2 milhões. A causa da suspensão do negócio foi o impacto da guerra no Irã nos preços do diesel, fertilizantes e outros insumos agrícolas. Segundo Rickli, a alta nos preços já reduziu a rentabilidade do agronegócio e o cenário de incerteza quanto ao fim do conflito não dá a segurança necessária para novos investimentos.
Desde que o Irã fechou o Estreito de Ormuz, após os ataques ao país pelos Estados Unidos e por Israel, o preço do óleo diesel e dos insumos agrícolas dispararam. Pelo estreito, os navios transportam um quinto do petróleo mundial e o Brasil, apesar de exportar petróleo cru, é importador do diesel. O País também importa fertilizantes daquela região, principalmente a ureia.
Outro fator considerado pelo produtor é a taxa de juros muito elevada, em torno de 13% ao ano. “Fiz os cálculos e só de juros no primeiro ano pagaria R$ 266,5 mil. É uma conta que não fecha.” Em meio às notícias sobre o conflito, ele também desistiu de arrendar uma fazenda de 250 hectares para ampliar suas lavouras. Além de produtor, Rickli é engenheiro agrônomo e presidente do Sindicato Rural de Prudentópolis.
Para o economista e colunista do Estadão José Roberto Mendonça de Barros, essa “pisada no freio” é uma reação natural entre os produtores rurais nesse momento, uma vez que o aumento dos custos foi instantâneo e muito forte. “É decorrência da guerra que ninguém sabe quando vai terminar”, diz.
“Havendo o cessar-fogo, todos os analistas afirmam que será preciso no mínimo 90 dias para restabelecer os fluxos de comércio. Tem instalação que foi danificada, campos de gás e de petróleo que tiveram produção descontinuada e, para retomar a produção, leva um certo tempo; não é só ligar o botão.”
No melhor cenário, Mendonça de Barros avalia que a oferta desses produtos — diesel e fertilizantes — seguirá prejudicada por algum tempo devido à necessidade de repor os estoques. “E isso pega o setor agropecuário com um aperto de caixa que não tem precedentes”, diz. ”Outro efeito ruim é que, com o risco da inflação, o Banco Central já não baixou a taxa de juros como se esperava e avisou que vai trabalhar de acordo com a conjuntura. Ou seja, a taxa Selic, que está alta, vai cair menos que o esperado, e o aperto de crédito também vai continuar.”
No caso de Prudentópolis, desde o início da guerra, o preço do óleo diesel, que movimenta tratores, colheitadeiras e caminhões em plena safra da soja, subiu R$ 2,50 por litro na região – foi de R$ 5,49 para R$ 7,99. Uma colheitadeira de bom porte consome de 300 a 400 litros por dia, ou seja, o custo diário para manter uma dessas máquinas operando passa de R$ 3 mil.
De origem suíça, a família Rickli detém grandes áreas de cultivo em cerca de dez municípios da região. Além das colhedoras, sua frota inclui tratores, veículos de transbordo de grãos, pulverizadores, caminhões e carretas, tudo movido a diesel. Edimilson, mais conhecido como Didi, conta que outros produtores também já estão adiando projetos por conta da guerra.
É o caso do produtor rural Augustinho Andreatto, de 72 anos. Ele suspendeu o investimento de R$ 1 milhão que faria no setor de pecuária leiteira da fazenda Rio Preto, que mantém com a família, e não sabe quando vai retomar o projeto. “Todos os investimentos que projetamos estão paralisados e sem novos prazos. Não dá para levar nada adiante neste clima de insegurança que chegou ao campo”, diz.
A fazenda, que no passado foi grande produtora de erva-mate, agora mantém um plantel de vacas holandesas e criação de suínos e ovelhas, além da produção de soja e milho. “Estamos muito apreensivos, pois temos máquinas e tratores trabalhando o dia todo e, mesmo com a alta no preço do diesel, já chegamos a ficar um dia sem combustível, pois nosso fornecedor não tinha para entregar”, diz. ”Os fertilizantes e os fretes também subiram e, em um curto prazo, não vejo possibilidade de melhora.”
Âncora da economia
Com o quinto maior território do Brasil e 51 mil habitantes, o município de Prudentópolis tem sua economia ancorada no agronegócio. Na cidade, conhecida como “Ucrânia brasileira”, por ter sido colonizada por imigrantes do país do leste europeu que está em guerra com a Rússia, a agropecuária responde diretamente por 40,7% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados da prefeitura e do IBGE. Considerando os serviços indiretos, a participação passa dos 60%. O PIB total do município é de R$ 1,9 bilhão.
São 6.645 estabelecimentos agropecuários que ocupam 143 mil hectares com lavouras e pastagens. Além de grãos, cereais, suínos e gado, Prudentópolis se destaca na produção de feijão preto e de tabaco. São 11,4 mil toneladas de fumo por ano.
A incerteza sobre o fim dos conflitos no Oriente atrapalhou também os planos do produtor Ezequiel Bobato, que planejava comprar trator e implementos, mas suspendeu as compras. “A gente não sabe o que vai acontecer com este mundão. Fica difícil fazer um planejamento de longo prazo e vamos sofrer safra após safra”, diz. ”Além de uma guerra inesperada, no Brasil estamos em ano eleitoral e a política pode trazer mudanças econômicas que poderão deixar o produtor sem saber que rumo tomar.”
Em Manoel Ribas, cidade da região, o produtor Marcelo Alberton, que também é secretário municipal da Agricultura, planeja “pular” o plantio de trigo devido ao alto custo dos insumos. “No meio da colheita da soja já tive problema com falta de diesel, mesmo pagando mais caro”, diz. ”Agora fiz as contas para plantar o trigo, como sempre faço no inverno, mas o custo está em R$ 2.200 por hectare. O adubo que comprei há 60 dias por R$ 2.500 (a tonelada) agora está em quase R$ 4 mil. Está tudo pronto, mas não vou plantar.”
Há ainda o risco de ocorrer o La Niña, fenômeno que torna as chuvas mais escassas. “A tendência é, no lugar do trigo, fazermos uma cultura de cobertura, mais barata, e segurar o fertilizante para a safra de verão, como muitos estão fazendo”, diz Alberton.
”Também não vamos comprar máquinas e equipamentos novos, apenas pagar o que já foi comprado antes. Os bancos estão oferecendo juros mais baixos, mas a renda caiu e não dá para arriscar. O agricultor nunca desiste, sempre espera que no ano que vem vai dar tudo certo, mas é preciso ter o pé no chão.”
O produtor Rui Barbosa, de Campina da Lagoa, na mesma região do Paraná, conseguiu adubo para a próxima safra fazendo permuta pelo grão e será obrigado a plantar a próxima safra. “Agora, é tirar o pé de outros investimentos, pois não vemos uma luz no fim do túnel”, diz. “Com essa taxa de juro, ficou inviável comprar máquina, porque é viver para pagar juro. Estamos rodando com o que temos, cortando os gastos no que dá, só usando o essencial para tentar atravessar a crise. Acho que no Brasil todo está assim e ninguém sabe quanto tempo vai durar.”
A queda na venda de máquinas já começa a ser sentida na indústria, embora os números mais recentes do setor ainda não estejam disponíveis. Conforme a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), neste cenário de margens reduzidas e alta imprevisibilidade, os agricultores tendem a priorizar a compra de insumos, deixando em segundo plano investimentos na renovação da frota.
O presidente da Federação da Agricultura do Paraná (Sistema Faep), Ágide Meneguette, diz que o cenário mundial gera incertezas entre os produtores rurais e reforça um alerta para o setor agropecuário. “Os produtores rurais estão segurando investimentos e alterando os planos, diante dos impactos já sentidos, como alta do diesel e dos fertilizantes, e desdobramentos que podem acontecer, como mercados fecharem e produtos não chegarem”, diz. “Esse é um momento para planejar os próximos meses e ficar de olho no cenário mundial, que está impactando a macroeconomia e, claro, o setor agropecuário.”
Reflexo nos preços
Para José Roberto Mendonça de Barros, o reflexo no plantio da próxima safra deve começar a ser visto em breve. “O investimento ao longo do ano em expansão ou em melhoria vai ser menor do que se previa, com muitos postergando, outros até desistindo por conta disso”, diz. “Tem muita gente revendo o que vai plantar na safrinha. O trigo, que é muito plantado no Paraná e Rio Grande do Sul, é cultura arriscada e sensível ao clima, então muita gente vai diminuir a área ou plantar outra coisa, e vamos sentir.”
O especialista acredita que, como a safra de verão foi muito boa, não havendo notícia de escassez de produção, não dá para projetar um grande salto nos preços de produtos agrícolas. “As últimas leituras indicam que pode subir o preço de alimentos, o que não é bom, mas não vai ser uma coisa exagerada. Se não vai mais puxar a inflação para baixo, como se previa, também não vai levar lá para cima.”
Para ele, no entanto, o Brasil pode se sair melhor que o resto do mundo nessa crise, por ser o único grande produtor do mundo bom em petróleo e em energia alternativa — biocombustível, solar e eólica. “Os Estados Unidos são enormes em petróleo, mas o Trump desmontou a estrutura de carros elétricos. A China, que é gigante na energia alternativa, não tem petróleo”, diz. “O único que ganha dos dois lados e também pode manter a produção de alimentos é o Brasil, que está fora do conflito. Mas, para o setor agrícola, realmente é um momento de atenção” (Estadão)





