Por Camilo Calandreli
Eu escrevo este artigo como alguém que vive o agro não apenas nos livros, mas no dia a dia do campo e da política. Carrego comigo as lições de meu avô português – um humilde viticultor – de meu pai, que construiu represas no cerrado e plantou tomate, soja, milho sob o sol inclemente e da vivência e experiência da minha maior liderança no setor, o produtor rural Paulo Maximiano Junqueira Neto. Aprendi desde cedo que sem o campo não há pão, sem pão não há liberdade, e sem liberdade não há Nação.
Hoje, porém, vejo com preocupação os rumos das políticas públicas para a agricultura no Brasil. Novas diretrizes federais, influenciadas por ideologias nefastas, ameaçam minar a soberania produtiva e demonizar nossos produtores. Precisamos encarar de frente esses desafios e convocar uma reação à altura – uma mobilização consciente dos homens e mulheres do campo em defesa do agro brasileiro.
O legado recente: conquistas e lições do agro brasileiro
Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro consolidou-se como pilar da nossa economia e orgulho nacional. Durante o governo Bolsonaro (2019–2022), tivemos colheitas recordes e expansão dos mercados, fruto de políticas que priorizaram quem produz. Em 2022, o setor agropecuário alcançou exportações históricas de US$ 159,1 bilhões, um crescimento de 32% sobre 2021, gerando o maior superávit comercial da história (US$ 141,8 bilhões).
Não à toa, o agro passou a representar cerca de 29% do PIB brasileiro e mais de 40% das exportações, alimentando mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e gerando quase 20 milhões de empregos. Esses números impressionantes evidenciam a força de quem produz com excelência e tecnologia em solo brasileiro.
Mas os méritos vão além dos números econômicos – passam também pela segurança no campo e garantia do direito de propriedade. Pela primeira vez desde que se registra, as invasões de terras despencaram a níveis ínfimos durante 2019–2022.
Houve apenas 28 casos em quatro anos, média inferior a 10 por ano – o menor patamar desde 1995. Compare-se: nos oito anos de Lula foram quase 2 mil invasões, e mesmo governos anteriores jamais baixaram tanto esse índice. Essa queda não foi por acaso, mas sim resultado de ações firmes: proprietários rurais puderam se armar para proteger suas terras, cortaram-se verbas públicas que antes alimentavam organizações incentivadoras de invasões e deixou-se claro que governo nenhum premiaria ação ilegal.
Em paralelo, optou-se por reformular a política agrária, focando naquilo que realmente emancipa o pequeno produtor: título de propriedade na mão. Enquanto governos passados alardearam assentamentos sem lhes dar autonomia, o governo anterior entregou mais de 420 mil títulos de terra a famílias que esperavam havia anos pela regularização.
Para se ter ideia, em 14 anos de administrações petistas foram concedidos 275 mil títulos, ao passo que em apenas 4 anos o governo Bolsonaro concedeu 420 mil, uma média anual cinco vezes superior. Com a escritura em mãos, esses brasileiros antes assentados puderam enfim acessar crédito bancário, investir e até negociar suas terras livremente, ao invés de ficarem reféns de loteamentos estatais.
Essa titulação em massa não apenas realizou sonhos antigos, como neutralizou as invasões de terra – afinal, ninguém invade propriedade alheia quando sabe que o dono está empoderado e protegido pela lei.
Esse legado de defesa do produtor e da propriedade também teve impacto direto na tranquilidade no campo e na produtividade. Sem o fantasma constante das invasões e com segurança jurídica reforçada, o homem do campo pôde focar no que sabe fazer: produzir. A redução das ocupações ilegais gerou, segundo estimativas, economia de R$ 100 milhões aos cofres públicos, que antes financiavam acampamentos e ONGs alinhadas a invasores. Em vez de gastar dinheiro público com conflito fundiário, investiu-se em apoio técnico e infraestrutura para o agro.
No Estado de São Paulo, vimos um exemplo concreto de como boas políticas públicas podem impulsionar o setor. Sob a gestão estratégica do governador Tarcísio Gomes de Freitas – um líder que trouxe sua visão de eficiência do governo federal para o Estado – e com o trabalho incansável do secretário de Agricultura Guilherme Piai, o agro paulista viveu anos de avanço.
Piai deixou a Secretaria de Agricultura de SP, no fim de 2025, com um legado notável, sendo reconhecido como um dos melhores gestores agrícolas da história paulista. À frente da pasta, ele implementou programas inovadores e destravou gargalos antigos:
· Lançou o programa “Irriga+SP”, oferecendo linhas de crédito a juros baixos (5% ao ano) para que produtores modernizassem a irrigação, investissem em energia solar, agricultura de precisão e infraestrutura hídrica. Essa iniciativa matou dois coelhos: aumentou a produtividade e preparou o campo para os efeitos das mudanças climáticas, promovendo sustentabilidade e uso eficiente da água.
· Conduziu a maior ação de regularização fundiária rural da história do Estado: em dois anos foram entregues mais de 5 mil títulos definitivos a famílias de produtores, formalizando cerca de 300 mil hectares antes informais. Nunca um governo estadual havia titulado tanta terra. Isso garantiu segurança jurídica a milhares de famílias e abriu-lhes acesso a políticas públicas e crédito. É a liberdade pela propriedade – em vez de manter o agricultor eternamente dependente da reforma agrária estatal, dá-se a ele dignidade e autonomia, um modelo que deveria inspirar o país.
· Modernizou o Cadastro Ambiental Rural (CAR) em São Paulo, com uso de análise dinamizada e inteligência artificial para validar cadastros. O Estado já conta com mais de 200 mil propriedades com CAR ativo e mira 100% de regularização até 2026, tornando-se referência nacional. Enquanto isso, o governo federal patina e não consegue implementar eficazmente o CAR, deixando produtores na insegurança. Novamente, eficiência versus inércia.
· Impulsionou a mecanização: através do Programa Pró-Trator (FEAP), o Estado atingiu a marca de 1.000 tratores adquiridos por produtores com financiamentos de juros reduzidos e prazos longos. Metade da taxa Selic era subsidiada, facilitando a compra de máquinas e implementos por pequenos e médios agricultores, que assim puderam modernizar sua produção. Além disso, o governo paulista entregou diretamente mais de 300 máquinas agrícolas a prefeituras do interior, para apoiar a infraestrutura rural e auxiliar os produtores locais.
· Criou linhas de crédito específicas, como a “FEAP Mulher Agro SP”, com juros de apenas 2% ao ano e até 7 anos de prazo, voltadas para mulheres agricultoras investirem em seus negócios, compra de equipamentos e modernização das propriedades. Uma forma concreta de fortalecer o protagonismo feminino no campo e reduzir desigualdades de acesso ao crédito.
· Implementou programas de alcance social, como o “Cozinhalimento”, que instala cozinhas comunitárias profissionais e oferece cursos gratuitos de capacitação em mais de 300 municípios. Embora não distribua alimento diretamente, ensina a população a agregar valor à produção local e melhora a segurança alimentar e nutricional nas comunidades rurais.
Esses resultados em São Paulo superaram todas as expectativas dos produtores. Não sou eu apenas quem diz – Paulo Junqueira, presidente do Sindicato Rural de Ribeirão Preto, resumiu bem: “As entregas do governador Tarcísio de Freitas e do secretário Guilherme Piai ao agronegócio paulista superaram todas as expectativas e, além de colocar o setor como protagonista do agro brasileiro, deram uma lição de eficiência e austeridade que deveria ser seguida pelo governo federal – que além de não apoiar o setor, tenta transferir aos produtores sua própria ineficiência e incompetência”.
De fato, Tarcísio e Piai mostraram como se faz: planejamento, respeito ao produtor e responsabilidade com recursos públicos. Essa dupla ajustou a máquina administrativa, cortou desperdícios e focou em entregas concretas, enquanto em Brasília vemos o oposto – oneram o agro e culpam quem produz pelos problemas causados pela má gestão alheia.
O sucesso paulista também evidencia algo fundamental: o produtor rural, quando apoiado, torna-se guardião da nossa soberania alimentar e exemplo de sustentabilidade. Vale lembrar que o Brasil é um dos poucos países capazes de produzir em larga escala preservando a maior parte de sua vegetação nativa. Mantemos 65,6% do território nacional coberto por vegetação original, ou cerca de 560 milhões de hectares, e quase 29% dessa área preservada está dentro de imóveis rurais privados, mantida às custas das próprias famílias produtoras.
Nenhum outro povo do mundo concilia produção e conservação em tal escala. A legislação ambiental brasileira – o Código Florestal – é a mais rigorosa do planeta, exigindo que cada agricultor reserve entre 20% e 80% de sua propriedade como Reserva Legal (dependendo do bioma), além de proteger nascentes, matas ciliares e encostas. Somando tudo, cerca de um terço do território nacional está protegido dentro de propriedades rurais, sem que o produtor receba um centavo por esses serviços ambientais.
É ou não é o produtor brasileiro um herói ambiental pouco reconhecido? Enquanto lá fora ecoam narrativas distorcidas – de ONGs e governos que nunca pisaram em nosso chão – aqui o agricultor sustenta uma das maiores contribuições ambientais do mundo, ao mesmo tempo em que garante alimento farto e de qualidade na mesa de milhões.
Em resumo, produzimos com responsabilidade e tecnologia, mas recebemos em troca burocracia excessiva, preconceito ideológico e insegurança jurídica. Isso precisa mudar, e as lições dos últimos anos nos mostram o caminho: menos interferência estatal indevida, mais liberdade para quem trabalha; menos retórica acusatória, mais parceria e respeito com quem sustenta o país.
A ameaça das políticas ideológicas e o risco à soberania produtiva
Se os anos recentes nos ensinaram algo, foi que ideologia semeada no gabinete pode virar praga na lavoura. Infelizmente, o atual governo federal – de viés claramente alinhado à esquerda – parece empenhado em reverter os avanços e aplicar agendas ultrapassadas que ameaçam nossa soberania produtiva. Vivemos uma conjuntura preocupante: discursos oficiais demonizando o agronegócio, medidas que asfixiam a liberdade econômica no campo sob pretexto “ambiental” ou “social”, e até uma indulgência chocante com movimentos invasores de terra.
Vejamos as ações dos últimos três anos em Brasília. Logo no primeiro ano da nova gestão, o que se viu? A volta em grande escala das invasões de propriedades rurais, capitaneadas pelo MST e afins. Em dez meses de governo Lula, houve mais invasões do que em quatro anos de Bolsonaro inteiro. Foram 61 invasões registradas apenas entre janeiro e julho de 2023, praticamente empatando com as 62 ocorridas de 2019 a 2022 – e isso sem contar o segundo semestre de 2023, quando novos casos pipocaram Brasil afora.
Ou seja, a velha desordem no campo voltou com força, estimulada pela percepção de leniência das autoridades. De fato, o atual presidente não apenas não condenou as invasões, como afagou os invasores: recebeu lideranças do MST em palácio, atendeu pautas deles e até elaborou um tal “Caderno de Respostas ao MST”. Esse documento, pasmem, mapeia fazendas com supostos “crimes ambientais” ou “trabalho escravo” e lista terras públicas disponíveis – informações que servem como inteligência para planejar invasões futuras.
Em vez de usar os órgãos de governo para proteger os produtores e punir os ilegais, usam-se para municiar quem age à margem da lei. Tudo para agradar um movimento que declara abertamente querer 65 mil novas famílias assentadas à força. E enquanto isso, as demandas legítimas do setor produtivo ficam em segundo plano: não se vê o agronegócio receber tratamento parecido nas suas pautas. Ao contrário – o que recebemos são reveses, especialmente ataques ao direito de propriedade e sinais de insegurança jurídica. Em resumo, o recado parece ser: para o produtor, a lei; para o invasor, o agrado.
Essa postura ideológica não se limita à questão fundiária. Vem também sob a máscara “verde” ou “social”. Ninguém aqui é contra sustentabilidade – o produtor é o primeiro a defender a terra, pois dela depende. Mas o que não aceitamos é a sustentabilidade de palanque, usada como desculpa para sufocar quem produz.
Há uma clara tentativa de nos pintar como vilões do clima e do meio ambiente, ignorando todos os dados que citei sobre nossas preservações. Propostas extremas, como proibir determinados defensivos e tecnologias sem base científica, ou criar áreas proibidas para produção sob alegação ambiental questionável, pairam no ar. Ventila-se impor restrições draconianas à pecuária e à agricultura sob pressão de ONGs internacionais, sem oferecer alternativas viáveis aos produtores.
A guinada ideológica no Brasil reflete um fenômeno mais amplo na América Latina. Governos de esquerda na região têm historicamente colocado dogmas acima da racionalidade econômica no campo, e os resultados são catastróficos. Podemos olhar para nossos vizinhos e ver o espelho do que não queremos.
A Argentina oferece hoje o exemplo mais pedagógico de como o problema nunca foi o produtor rural, mas sim o modelo ideológico de Estado. Durante mais de duas décadas, sob os governos kirchneristas — iniciados por Néstor Kirchner e aprofundados por Cristina Kirchner — o agronegócio argentino foi sistematicamente asfixiado por impostos de exportação abusivos, controles artificiais de preços, intervenções cambiais e um discurso político que tratava o produtor como inimigo social.
O resultado foi devastador: perda de competitividade internacional, abandono de áreas produtivas, queda de investimentos, fuga de capitais e um setor agrícola exaurido, incapaz de exercer o protagonismo histórico que sempre teve na economia argentina.
Esse ciclo de decadência começou a ser revertido com a chegada de Javier Milei, que rompeu de forma clara, direta e corajosa com o legado kirchnerista. Milei recolocou o produtor rural no centro da estratégia nacional, não como objeto de controle estatal, mas como motor real da economia.
Seu governo reduziu drasticamente a intervenção do Estado sobre o setor produtivo, iniciou o desmonte de subsídios improdutivos que distorciam preços e criavam dependência, eliminou controles artificiais que inviabilizavam a rentabilidade no campo e passou a tratar o agricultor como aliado do desenvolvimento, e não como bode expiatório ideológico.
Os efeitos foram quase imediatos. A confiança voltou ao campo, áreas antes abandonadas começaram a ser reativadas, o capital privado retornou ao setor agrícola e a Argentina iniciou um processo concreto de reposicionamento no comércio agrícola global. Em poucos meses, Milei conseguiu devolver racionalidade econômica, previsibilidade e dignidade ao produtor argentino — algo que o kirchnerismo destruiu ao longo de décadas.
O recado é cristalino: quando o Estado deixa de atrapalhar, o agro responde. A Argentina está reaprendendo essa lição, e o Brasil precisa observá-la com atenção, para não repetir erros já conhecidos nem desperdiçar o potencial do maior setor produtivo da nossa economia.
Outro exemplo dramático é a Venezuela, onde a mistura de socialismo autoritário e estatização arruinou o campo. Um país que já foi grande produtor e exportador agrícola hoje enfrenta prateleiras vazias. Por quê? Porque o governo lá decidiu controlar tudo e sufocar o produtor privado. Monopolizou a importação de fertilizantes, sementes e insumos; impôs controle de preços irreais (que fizeram lavouras inteiras deixarem de ser viáveis); tomou para si a distribuição de crédito agrícola, entregando financiamento apenas aos alinhados politicamente; expropriou fazendas produtivas para assentamentos de fachada.
O resultado dessa “reforma agrária” ideológica? Colheitas despencando, terras férteis ociosas e fome. Lá, “o governo decide quem planta e quem não” – palavras do presidente da confederação de agricultores venezuelanos. Só consegue semear algo hoje quem se ajoelha ao partido; quem não, fica sem fertilizante, sem crédito, sem proteção nenhuma. Produtores relatam plantar metade da área porque falta adubo.
A área de arroz cultivada caiu 76% desde 2008. Um crime contra a segurança alimentar do país! Ao amordaçar o agricultor e submetê-lo a caprichos ideológicos, a Venezuela destruiu sua soberania produtiva – hoje depende de importação até para itens básicos e enfrenta escassez crônica. Não podemos permitir nada parecido no Brasil.
Mas alguns sinais são preocupantes. Quando vejo setores do atual governo flertando com ideias retrógradas – como retomar modelos de assentamento coletivo ou dar preferência em programas a quem invadir terra (como sugere decreto federal recente) – acende-se um alerta vermelho. Estaríamos indo na contramão do mundo, rumo a um cenário de caos produtivo? Ao invés de aprender com erros alheios, parece que certos formuladores de políticas preferem repetir fórmulas fracassadas em nome de uma agenda ideológica.
Além disso, a retórica anti-agro contamina outras frentes. Nota-se uma tendência de demonizar o produtor como inimigo do meio ambiente, abrindo caminho para restrições descabidas. Paradoxalmente, países desenvolvidos que já devastaram suas florestas nos cobram “sustentabilidade” enquanto eles mesmos subsidiam seus agricultores e protegem mercados. Precisamos ter cautela com acordos internacionais e pressões externas que visam nos impor barreiras sob pretexto ambiental ou sanitário.
Um exemplo atual é a exigência europeia de rastrear cadeias produtivas “livres de desmatamento”, o que na prática pode virar barreira comercial se implementada de forma burocrática e punitiva. Somos a favor de comprovar nossa sustentabilidade, mas nos nossos termos, com critérios justos. O que não dá é aceitar passivamente ser tratado como poluidor enquanto carregamos a maior fatia de preservação privada do planeta.
Em suma, o maior desafio para as novas políticas públicas de agricultura no Brasil é blindá-las da contaminação ideológica e reconectá-las com a realidade do campo. Precisamos de políticas baseadas em evidências, não em narrativas; que reconheçam o produtor como parte da solução, não como problema. Isso significa manter juros agrícolas razoáveis, algo que hoje está inverso – a taxa Selic foi jogada a patamares abusivos (chegando a 15% a.a. recentemente), encarecendo o crédito rural e esfriando investimentos no campo.
Significa cortar a gastança pública descontrolada que pressiona inflação e juros, pois macroeconomia desequilibrada pune também o agricultor. Significa investir em infraestrutura (estradas, armazéns, logística) e segurança no campo, em vez de torrar verbas em estruturas inchadas e aparelhadas. E acima de tudo significa respeitar a propriedade privada e a livre iniciativa no campo – pilares sem os quais não há prosperidade nem segurança alimentar.
Aqui faço minhas as palavras de Guilherme Piai em sua despedida do governo paulista: “Reconheço que é difícil ser agricultor com a governança imposta pelo PT e pelos partidos de esquerda que aí estão”, disse ele, lamentando a falta de apoio federal aos produtores – “o governo federal não reconhece nem apoia os verdadeiros heróis do Brasil que são os produtores rurais”.
Piai listou os principais equívocos da atual gestão federal: “taxa Selic abusiva e vergonhosa, gastança e alta de juros desenfreados, insegurança, falta de investimentos em infraestrutura”. E arrematou apontando “esse modelo de reforma agrária errado, pois o que eles querem mesmo é manter os assentados na miséria, ao contrário do modelo que implantamos em São Paulo, que prioriza a liberdade, a dignidade e a prosperidade dos produtores”.
Ele está certíssimo. Não podemos aceitar políticas que joguem nossos produtores na dependência e na pobreza em nome de romantismos ideológicos. O exemplo paulista provou que há outro caminho: dar ferramentas para o homem do campo prosperar pelos próprios méritos, com liberdade e orgulho.
Em nível internacional, o Brasil precisa se afirmar como líder positivo, não refém, na agenda agroambiental. Somos potência agroambiental – maior exportador de proteína animal e diversas commodities – e ao mesmo tempo guardiões de florestas. Temos tecnologia de ponta (Embrapa, universidades, startups do agro) e um setor produtivo vibrante.
Se o governo atual não atrapalhar, o agro continua a puxar o Brasil para frente. Mas se ceder às pressões de minorias barulhentas anti-agro, poderemos ver nossa soberania alimentar e energética escorrer pelos dedos, entregues a importações e ao capital estrangeiro.
Cabe lembrar: soberania produtiva significa o Brasil produzir o que consome e exportar o excedente, sem depender de humores externos para comer ou se desenvolver. País que abdica disso perde autonomia e poder. Não permitiremos que isso aconteça aqui.
Consciência e mobilização: o campo na linha de frente
Diante de tudo isso, qual deve ser nossa resposta? Conscientização política e união de quem produz. Historicamente, o produtor rural brasileiro sempre foi focado em trabalhar de sol a sol, alheio às intrigas de Brasília ou ao jogo político. Mas os tempos mudaram. Hoje, ou participamos ativamente das discussões que definem nosso futuro, ou seremos atropelados por elas. Não dá mais para terceirizar a defesa dos nossos interesses.
Falo isso como alguém que tem atuado na articulação política pelo agro. Tenho orgulho de assessorar na Assembleia Legislativa de SP um jovem parlamentar combativo, o deputado estadual Lucas Bove, um baluarte na defesa do setor. Lucas – assim como tantos outros da Frente Parlamentar Agropecuária nos Estados e em Brasília – entendeu que a trincheira do agro também passa pela tribuna e pelas comissões legislativas.
Ele não hesita em usar a voz que o povo lhe deu para denunciar absurdos contra o produtor e barrar projetos prejudiciais. É vice-líder do partido que dá sustentação à oposição e diariamente cobra coerência nas políticas estaduais e federais para o campo.
Precisamos de mais “Lucas Boves” por aí – líderes de origem jovem, sem amarras com as velhas oligarquias, que não tenham medo de encarar narrativas falaciosas de frente e que acima de tudo sejam leais ao produtor rural. E esses líderes só surgirão com o apoio e envolvimento de cada um de nós, cidadãos do campo.
Você, pequeno produtor, médio produtor, agronegociador, cooperado, técnico agrícola, estudante de ciências agrárias – todos têm um papel na construção das políticas que desejamos. É hora de transformar a indignação em ação concreta. Como? Participando das nossas entidades de classe, sindicatos, associações e cooperativas ativamente. Não basta pagar a anuidade do sindicato rural – tem que ir às assembleias, às reuniões, cobrar posicionamentos firmes de nossos representantes. Levar nossas pautas para serem debatidas de forma organizada.
Há todo um arcabouço de entidades no agro: sindicatos rurais municipais, federações estaduais (FAEPs, FAMASULs, etc.), a própria CNA nacional, cooperativas, associações de produtores de cada cultura. Elas existem para nos representar – mas nós temos que ocupá-las e fazê-las pulsar com nossa energia. Não podemos deixar essas cadeiras vazias ou em mãos de quem não defende genuinamente o produtor.
Se a liderança de alguma entidade não o representa, mobilize seus pares para renová-la democraticamente. O movimento de renovação “Nova Faesp” aqui em São Paulo, por exemplo, nasceu exatamente da base de produtores inconformados com uma federação agrícola engessada; esse movimento busca devolver a Faesp aos verdadeiros produtores, após quase meio século de feudo de uma mesma família. Essa iniciativa serve de exemplo de que a classe produtora desperta quando se organiza.
Além das entidades do agro, é fundamental dialogarmos com a sociedade em geral. Precisamos ganhar a guerra da informação. Por muito tempo, permitimos que apenas a visão urbana e muitas vezes ideologizada do campo dominasse jornais, escolas e redes sociais.
Chega. O agro precisa se comunicar melhor – explicar à dona de casa da cidade que sem produtor rural não há alimento nem tecido nem energia; explicar ao jovem estudante que agricultura não é sinônimo de destruição, mas sim de vida e inovação (afinal, o agro brasileiro emprega alta tecnologia, drones, satélites, bioinsumos, tudo com foco em produtividade sustentável).
E sobretudo, precisamos mostrar nossa face humana e patriótica: o agricultor brasileiro ama sua terra e seu país, conserva florestas, cuida das nascentes e produz com orgulho para não deixar ninguém passar fome. Essa é a narrativa verdadeira que deve prevalecer, no lugar da caricatura maldosa que alguns tentam pintar.
Portanto, meus amigos do campo, é hora de arregaçarmos as mangas também na esfera cívica. Organizemo-nos em comitês locais de produtores, grupos de WhatsApp, fórums municipais. Acompanhemos de perto os projetos de lei que tramitam (seja em Brasília, seja na Assembleia de seu Estado) – muitos podem afetar diretamente sua propriedade e seu bolso.
E exerçamos pressão legítima: mande e-mail ao deputado quando algo ameaçador surgir, compareça a audiências públicas, cobre posicionamento do prefeito, do vereador, do governador. Não tenhamos receio de sermos ouvidos – nossa causa é justa e vital para o Brasil.
Lembremo-nos das palavras de ordem que movem qualquer democracia: “quem não é visto não é lembrado”. Política é presença, é insistência. Se cruzarmos os braços, outros (que muitas vezes nunca plantaram um pé de alface) decidirão tudo por nós. Como já escrevi anteriormente, política é musculatura – e musculatura se constrói com presença. Temos que estar presentes em todos os espaços de debate e decisão.
É preciso entrar nas cidades, organizar encontros, apresentar nossas ideias, criar uma narrativa comum, formar lideranças locais e fortalecer nossa articulação. Do sindicato rural do seu município às comissões do Congresso Nacional, passando pelos conselhos agropecuários, precisamos ocupar todos os fóruns com vozes do agro autênticas e firmes.
Por fim, fica aqui a minha convocação, quase um brado de quem acredita neste país: produtores rurais de todo o Brasil, uni-vos em torno da defesa do nosso agro! Mais do que nunca, o campo precisa estar politicamente vivo. Não se trata de partidarismo – trata-se de sobrevivência e amor à nossa terra. Cada propriedade rural, do sítio familiar à grande fazenda exportadora, é um bastião da nossa liberdade e prosperidade.
Se as ameaças são grandes, nossa determinação tem de ser maior ainda. Convido a todos a participarem ativamente dos debates em seus sindicatos, cooperativas e associações setoriais, a buscarem informação de qualidade (fujam da propaganda ideológica, apelem aos fatos e estudos), e a estarem prontos para defender pacificamente, mas com firmeza, o direito de produzir.
O Brasil que dá certo passa inevitavelmente pelo campo. Não permitiremos que agendas atrasadas roubem o futuro do nosso agro. Vamos, juntos, transformar nossos desafios em vitórias, como tantas vezes já fizemos. Afinal, somos herdeiros de uma tradição resiliente: do café que sustentou a economia no Império, ao Cerrado convertido em celeiro mundial graças à ciência tropical, à carne que alimenta bilhões. Está em nosso DNA superar adversidades. Agora, a luta é para garantir políticas públicas à altura da grandeza do agro brasileiro.
Participem das reuniões do seu sindicato rural, das assembleias de cooperativa, dos encontros das associações. Procurem os líderes do setor, cobrem posições, tragam ideias. O campo unido jamais será vencido. A hora é agora – mãos à obra e coragem, que o Brasil precisa de nós.
Sobre o Autor:
Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no Brasil, Um Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil e Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.
Graduado pela ECA-USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove)



