O que é necessário para bioeconomia se tornar um fenômeno global

Por Roberto Waack, Marcelo Behar e Jukka Kantola

Bioeconomia pode oferecer soluções para desafios que atravessam fronteiras, da descarbonização e da segurança alimentar à restauração da biodiversidade e à resiliência econômica.

Com o encerramento da COP30, a bioeconomia passou a integrar os debates climáticos globais com visibilidade concreta. Nos últimos anos, o conceito deixou de se restringir a estratégias nacionais e diálogos regionais para ocupar fóruns internacionais. Um marco decisivo veio em 2024, com a adoção, pelo G20, dos High-Level Principles on the Bioeconomy, que estabeleceram o primeiro entendimento global sobre o alcance da bioeconomia. Na COP30, o tema ganhou ainda mais destaque, refletindo uma mudança na forma como o desenvolvimento de base biológica passa a ser reconhecido na agenda global.

As mudanças climáticas e a perda de biodiversidade ganharam prioridade global porque o mundo reconhece a urgência desses desafios e aceita a necessidade de ação coletiva. Ao mesmo tempo, a bioeconomia ainda é percebida como um conjunto fragmentado de iniciativas nacionais, e não como uma estrutura global integrada.

Apesar da ausência dessa estrutura global, a bioeconomia já está presente em setores como o florestal (celulose, papel e tissue), a agricultura regenerativa, os biocombustíveis e a indústria farmacêutica. No entanto, a bioeconomia pode ser entendida como uma solução abrangente para desafios que atravessam fronteiras, da descarbonização e da segurança alimentar à restauração da biodiversidade e à resiliência econômica, incluindo os setores já mencionados.

A força da bioeconomia reside em uma estrutura flexível, que permite a cada país se engajar de acordo com seus próprios interesses e vantagens comparativas. Isso explica por que países tão distintos quanto o Brasil, com sua vasta biodiversidade, e a Arábia Saudita, que possui recursos biológicos limitados, mas fortes ambições em biotecnologia, veem valor estratégico na bioeconomia. Suas motivações são diferentes, mas ambos reconhecem que soluções biológicas oferecem caminhos para o crescimento sustentável, a resiliência e a inovação.

O conceito de bioeconomia baseia-se em três visões complementares que, juntas, formam um referencial global compartilhado. A visão dos biorrecursos concentra-se na gestão sustentável e na geração de valor a partir de recursos biológicos, sendo particularmente atraente para países ricos em recursos florestais, agrícolas ou marinhos.

A visão da biotecnologia destaca a inovação científica e industrial, atraindo países com investimentos em biologia sintética, biomanufatura e aplicações biológicas avançadas, ao mesmo tempo em que amplia os insumos produtivos para além das fontes biológicas tradicionais, como o CO₂ capturado.

Já a visão da bioecologia integra o pensamento ecológico ao desenvolvimento econômico, ressoando em países que priorizam a resiliência de longo prazo, a estabilidade climática e modelos econômicos circulares. Essa visão também destaca o nexo entre comunidades tradicionais e inovação contemporânea.

É importante ressaltar que essas visões não competem entre si. Elas se reforçam mutuamente e criam múltiplos caminhos para que os países participem da bioeconomia global, tornando-a um conceito inclusivo e adaptável.

Embora os principais agentes financeiros já atuem de forma significativa nos setores mencionados, o sistema financeiro vem se estruturando para acelerar novas frentes da transformação da bioeconomia. Iniciativas recentes, como o Earth Investment Engine e o Bioeconomy Challenge – ambas lançadas na COP30 – já estão criando caminhos concretos para investimento e ação escaláveis. À medida que os países reavaliam suas rotas rumo à neutralidade climática e ao desenvolvimento nature-positive, a COP30 oferece uma plataforma para ancorar a bioeconomia como pilar central da política global de sustentabilidade.

Essa abordagem articula ação climática, restauração da biodiversidade, transições energéticas, segurança alimentar e inovação industrial em uma narrativa unificada, na qual sistemas biológicos, dos ecossistemas naturais à biomanufatura de alta tecnologia, podem impulsionar a próxima onda de desenvolvimento econômico sustentável.

Nesse contexto mais amplo de desenvolvimento, a bioeconomia social constitui um pilar fundamental do novo conceito de bioeconomia, ao articular inclusão social, equidade, ética e justiça com a valorização de conhecimentos tradicionais e de benefícios para comunidades locais, especialmente indígenas e rurais.

Um resultado relevante da COP30 é a evidência de que o setor empresarial vem assumindo parte das responsabilidades tradicionalmente atribuídas ao multilateralismo diplomático e aos seus negociadores. A bioeconomia é, provavelmente, o exemplo mais claro de como o protagonismo de atores não estatais vem desempenhando um papel cada vez mais importante nas agendas de mudança do clima e de valorização da natureza.

Para que as novas fronteiras da bioeconomia se consolidem como um fenômeno global, será fundamental que o mundo adote e comunique esse entendimento de forma consistente. Organizações internacionais, grandes economias e plataformas globais, do G20 à UNFCCC, desempenham um papel central ao demonstrar como a bioeconomia alinha interesses nacionais diversos a objetivos globais compartilhados. Quanto mais clara for essa mensagem, maiores serão as chances da bioeconomia de conquistar o impulso político e a visibilidade que merece.

(Marcelo Behar é enviado especial da COP30 para bioeconomia; Jukka Kantola é chair da World Bioeconomy Association; Estadão)

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