Por Edson Kawabata
Um dos setores mais vitais e estratégicos do mundo atravessa uma transformação tecnológica sem precedentes: o agronegócio, responsável por sustentar economias, mover cadeias globais e alimentar o planeta.
Em 2024, o agronegócio brasileiro demonstrou forte relevância global: o setor representou 25% do PIB nacional e gerou cerca de US$ 545 bilhões, embora ocupe apenas 4% da área cultivada mundial (78 milhões de hectares de um total de 1.580 milhões). O país também se destaca pela projeção de crescimento, com um CAGR de 4,2% entre 2025 e 2033, superando em 0,7 ponto percentual a média global, e evidenciando alta produtividade e potencial de expansão no cenário agrícola mundial.
As principais inovações do agronegócio estão redefinindo a produtividade e a sustentabilidade do setor. A agricultura de precisão e o uso de dados lideram o avanço, seguidos pela integração de IA, sensoriamento remoto e IoT (internet das coisas), que ampliam a eficiência e reduzem custos.
A biotecnologia, voltada à produção sustentável, fortalece a resistência das culturas e diminui o uso de químicos, enquanto o gerenciamento inteligente de água e nutrientes otimiza recursos em regiões com restrição hídrica. Já as tecnologias de blockchain e energia renovável impulsionam transparência, rastreabilidade e descarbonização, consolidando o agronegócio como um dos setores mais inovadores do mundo.
O Brasil lidera o cenário, concentrando 83% das AgTechs da América Latina, graças à sua grande área agrícola, à relevância do agronegócio para a economia e à demanda por eficiência e produtividade. Argentina (5%), México (4%) e Colômbia (4%) também têm presença importante, trazendo diversidade ao ecossistema.
Apesar do crescimento no número total de startups ativas, a criação de novas empresas vem caindo nos últimos anos. Entre os motivos estão a queda no volume global de investimentos de Venture Capital desde o fim de 2021, apesar de o Brasil apresentar comportamento contrário. O cenário econômico incerto, a limitação de infraestrutura rural e a dificuldade de transformar projetos piloto em soluções comercialmente viáveis também influenciam essa redução.
Os principais modelos de negócio das AgTechs refletem a digitalização e diversificação do setor agrícola. O modelo SaaS (Software como Serviço) oferece softwares de gestão e monitoramento via assinatura; o pagamento por uso cobra conforme a utilização de serviços, como mapeamento por drone.
O marketplace conecta produtores e compradores, enquanto o modelo transacional gera receita por taxas sobre vendas. Já o de assinatura garante acesso contínuo a serviços, o de hardware envolve a venda de sensores e máquinas conectadas, e o e-commerce viabiliza a comercialização direta de insumos e equipamentos agrícolas.
Apesar dos desafios, o cenário para os próximos anos aponta para uma forte aceleração na adoção de tecnologias digitais. Com a crescente disponibilidade de dados, o aprimoramento dos algoritmos e a redução de custos tecnológicos, a inteligência artificial tende a se tornar uma aliada fundamental na tomada de decisão no campo.
Portanto, para os próximos anos, as tendências tecnológicas do agronegócio apontam para uma era de alta digitalização e sustentabilidade: agentes de IA e IA generativa deverão se tornar essenciais para análises e previsões rápidas no campo; gêmeos digitais irão permitir simulações de lavouras que reduzem riscos antes da implementação; Big Data, Machine Learning e IoT consolidarão a agricultura de precisão com monitoramento em tempo real; e a agricultura regenerativa ganhará força com práticas voltadas à recuperação do solo e equilíbrio ambiental apoiadas por tecnologias de medição e controle.
É evidente que a união entre IA, sustentabilidade e conectividade representa uma virada de chave no futuro do agronegócio. No entanto, para que essa transformação ocorra de forma inclusiva e estratégica, será necessário superar os desafios técnicos e sociais, ao mesmo tempo em que se promovem modelos produtivos mais inteligentes e regenerativos.
O agro do futuro será cada vez mais guiado por dados e algoritmos, mas com o ser humano e o meio ambiente no centro das decisões (Edson Kawabata é sócio-diretor de Novos Negócios da Peers Consulting + Technology)




