Oriente Médio é destino de 10% dos embarques, mas portos da região são pontos de parada rumo a outros continentes.
A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã pode impactar de 30% a 40% das exportações brasileiras de carne bovina, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
Apesar de o Oriente Médio ser destino final de cerca de 10% do volume, ou cerca de 250 mil toneladas, os portos da região são pontos de parada para navios que seguem para a Ásia e até de desembarque de cargas que partem dali para outros países de outros modais, inclusive a China, maior cliente do setor nacional.
Levantamento feito pelas empresas exportadoras associadas da Abiec revelaram um cenário “gravíssimo”, nas palavras do presidente da associação, Roberto Perosa.
“O impacto pode ser de 30% a 40% da nossa exportação. Estamos muito preocupados”, afirmou ao Valor. Ele salientou que o dano potencial vai depender do tempo de duração do conflito e de eventuais soluções que sejam encontradas para resguardar o fluxo logístico na região.
As exportações brasileiras de carne bovina estão estimadas em cerca de 3 milhões de toneladas em 2026. No limite, o conflito poderia afetar o comércio e transporte de 1 milhão de toneladas, disse Perosa. O volume inclui as exportações para a China, principal importador, e todo o sudeste asiático.
A logística de envio da carne para o outro lado do mundo inclui paradas em portos da região, como Bahrein, Catar, Omã e Emirados Árabes Unidos. Parte é redistribuída por terra para locais mais próximos. “Tudo isso teria que ser interrompido”, apontou.
Navios aguardam em alto-mar
Alguns efeitos já são sentidos. Navios que transportavam carne brasileira aguardam em alto-mar sem poder atracar nos portos do Oriente Médio. Empresas de transporte marítimo já têm rejeitado contratos para envio de qualquer tipo de carga para a região.
Outras, que ainda se arriscam, têm cobrado uma taxa extra, chamada de “taxa de guerra”, de US$ 4 mil por contêiner. “Isso inviabiliza a exportação”, alertou o dirigente.
Segundo Perosa, não há alternativas imediatas para solucionar o problema, pois não existe demanda para suprir o volume de 1 milhão de toneladas que pode ser afetado ao longo do ano. Também não há pedidos específicos para o governo federal, pois a solução está distante de Brasília, argumentou.
“A guerra torna ainda mais desafiador o ano de 2026, já impactado pela cota de exportação para a China. É algo que pode gerar um impacto grande na pecuária brasileira por não ter demanda”, apontou o dirigente.
Redução de abates no radar
Na visão de alguns analistas de mercado e de executivos de frigoríficos, a solução pode ser diminuir o ritmo de abate de bovinos no Brasil, já que a demanda externa tem sido pressionada. Há ressalvas sobre o impacto que esse movimento poderia causar, como queda no faturamento do setor e no preço do boi.
Perosa não quis comentar essa questão, mas disse que a situação representar novo freio nos negócios. “Estamos muito preocupados com a desaceleração do setor no Brasil neste ano, diante desse fato novo que impacta os negócios”, completou Perosa.
Ele disse que o custo logístico de alguns negócios já aumentou. “Tem uma série de cargas no mar que estão aguardando, pois os navios não podem atracar. E isso custa, continua gastando combustível, tem a alimentação de todos os tripulantes”, citou. Além disso, comentou sobre a elevação do preço do petróleo, que também respinga nesses contratos marítimos.
A situação levantou um “alarde” entre as associadas da Abiec na reunião do conselho da entidade nesta terça-feira (3/3) em São Paulo. “É uma preocupação gritante. Começa a se tornar um cenário muito desafiador”, resumiu.
“O ano de 2026 tem sido de fortes emoções, vemos muita diminuição de mercado para carne bovina, não por problema sanitário, pois vivemos o melhor momento nesse quesito. Mas por questões geopolíticas que influenciam o destino da carne brasileira e que não estão no controle do Brasil.” (Globo Rural)
Conflito no Oriente Médio pode afetar exportação de carnes do Brasil
Por Lygia Pimentel
Conflito afeta exportações de frango e carne bovina, além de aumentar custos com fretes marítimos e combustíveis, gerando preocupações para o agronegócio nacional.
O conflito no Oriente Médio já começa a impactar o setor de carnes brasileiro, especialmente nos segmentos de frango e bovino. Os efeitos são sentidos tanto na logística quanto nos custos de produção, criando desafios para os exportadores nacionais que dependem da região como destino para seus produtos.
Os impactos variam conforme o tipo de carne. O setor suíno é o menos afetado, uma vez que a região não é tradicionalmente consumidora desse produto por questões religiosas e culturais. Por outro lado, o setor de frango enfrenta consequências mais severas, já que aproximadamente 27% das exportações brasileiras desse produto são destinadas aos países do Oriente Médio.
Aumento de custos logísticos
Um dos principais problemas enfrentados pelo setor é o aumento dos custos logísticos. Os fretes marítimos estão mais caros devido à elevação dos valores de seguros para embarcações que precisam passar por áreas de conflito. Além disso, há atrasos nas entregas e algumas cargas que já estavam em trânsito podem ficar indefinidamente adiadas. A valorização do dólar e a alta do preço do petróleo também contribuem para o aumento dos custos produtivos, tanto de forma direta quanto indireta.
Para a carne bovina, a região representa cerca de 5% das exportações brasileiras. Embora esse percentual pareça pequeno quando comparado ao total exportado, o impacto ganha relevância quando considerado junto a outros desafios que o setor já enfrentava. As recentes medidas de salvaguarda impostas pela China, que limitaram a cota de importação para 1,1 milhão de toneladas em 2026 (contra 1,7 milhão exportadas pelo Brasil em 2023), já representavam uma dificuldade para o setor que agora se vê diante de mais um obstáculo.
Incertezas no mercado
A duração do conflito é uma incógnita que preocupa o setor, pois quanto mais tempo durar, maiores serão os impactos na cadeia produtiva brasileira. Uma das possíveis soluções mencionadas para o problema da carne bovina seria a realização de operações de arbitragem, onde o Brasil exportaria para outros países que, por sua vez, manteriam suas exportações para a China. Essas operações trianguladas poderiam ajudar a contornar as limitações impostas pelas cotas chinesas, sem ferir acordos comerciais.
As dificuldades logísticas de passagem pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio marítimo internacional, somam-se aos desafios já existentes. O cenário atual exige que o setor busque alternativas para minimizar os impactos e manter sua competitividade no mercado global, enquanto o conflito no Oriente Médio segue sem previsão de término (CNN Brasil)





