Volumes devem puxar receita, mas La Niña preocupa e preços seguem pressionados.
A agropecuária brasileira deverá ter uma receita maior em 2026 em relação a 2025, puxada pela expectativa de aumento na produção, mas com um ritmo mais fraco do que no ano anterior. O cenário é melhor para os produtores da pecuária, enquanto os agricultores devem continuar operando com preços baixos na comparação com anos recentes e custos de produção mais elevados, e, portanto, margens mais apertadas. Essas são as perspectivas traçadas por especialistas ouvidos pelo Valor.
Cláudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do FGV Ibre, diz que, se a safra de grãos em 2025 foi “espetacular”, favorecida pelo clima, a de 2026 deve sofrer influência do La Niña, com pequena queda na produtividade.
Ele leva em conta a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de recuo de 3% na safra de grãos deste ano. “De qualquer maneira, vai ser uma safra muito boa, que puxa o resto da economia. A pecuária também cresce, beneficiando as exportações”, ressalta o especialista.
No entanto, ele avalia que o PIB agropecuário tende a desacelerar por conta da produção menor em relação a 2025 e dos preços das commodities, que não dão sinais de recuperação.
Francisco Pessoa Faria, pesquisador do FGV Ibre, acrescenta que esse cenário pode se prolongar até 2027, porque não há sinal de recuperação nos preços internacionais no próximo ano. Um possível alívio em 2026, segundo Pessoa, pode vir do petróleo.
“Há uma previsão de estabilidade ou talvez queda no preço do petróleo com o fim da guerra da Ucrânia com a Rússia. Se isso acontecer, a Petrobras deve repassar a redução de preços para o mercado interno, o que pode trazer um efeito benigno em custos de transporte e de fertilizantes nitrogenados”, afirma Pessoa.
Por outro lado, uma desvalorização do petróleo pressionaria os preços do diesel e, em consequência, do biodiesel e do óleo de soja, principal matéria-prima do biocombustível.
O economista também acredita em uma desaceleração do PIB da agropecuária. O crescimento do setor, que nos 12 meses até setembro de 2025 foi de 9,6%, deve ser próximo de zero em 2026, projeta.
Para a cadeia de carne bovina, a perspectiva é que comece uma virada no ciclo pecuário, que já deu os primeiros sinais em 2025 com aumento de retenção de matrizes, o que pode elevar os preços em 2026.
“O preço do boi magro já começou a subir”, observou Manoel Queiroz, sócio da consultoria Mapa Capital. Para ele, o único ponto de atenção neste mercado é a nova política da China para controlar as importações de carne.
Para Cesar de Castro Alves, chefe da consultoria agro do Itaú BBA, apesar das salvaguardas da China para a carne bovina, confirmadas em 31 de dezembro, o mundo estará com escassez da proteína. “A gente acha que tende a haver menos oferta, então isso ajuda o preço a se sustentar”, afirma.
Já para o mercado de carne de frango, há previsões de possível queda de preço por aumento da produção no Brasil. “Estimativas não oficiais indicam que a oferta vai crescer 8% no ano que vem”, pressionando os preços, avalia Khalil Lima, analista de ações na Reach Capital.
Ele lembra que os produtores enfrentaram problemas com a genética avícola nos últimos anos que resultaram em taxas maiores de eclosão e de mortalidade de matrizes. Mas, recentemente, os provedores de genética forneceram soluções, diz. “A taxa de eclosão tem melhorado e a mortalidade tem caído”, afirma.
No início da semana, o Santander divulgou relatório apontando que já vê indícios de aumento de oferta de frango no primeiro trimestre deste ano.
Um efeito secundário da queda dos preços da carne de frango é o aumento da troca do consumo da carne vermelha pela da ave, o que pode limitar os preços da proteína bovina, segundo Lima.
Preço da soja sob pressão de baixa
Já para os preços da soja, carro-chefe do agronegócio brasileiro, a tendência é de que as supersafras globais mantenham as cotações sob pressão de baixa. “Não estou vendo nenhum risco para a oferta de soja”, disse Lima.
Os analistas do Itaú BBA observam que as vendas futuras de grãos estão atrasadas em relação a 2025 e que há risco de os produtores terem que vender rapidamente a produção por dificuldade de estocagem. “Aí o câmbio entra como uma variável que eventualmente pode ajudar um pouco. Mas é um ano em que o câmbio pode ser ainda mais volátil por conta de eleição”, diz Alves.
O sócio da Mapa Capital disse que também vê preços “bastante deprimidos” para o algodão, puxados não só pelos fundamentos da pluma, mas também pela correlação com o petróleo, que deve continuar em baixa em 2026. Para a laranja, Queiroz também disse não ver reação das cotações, após o tombo do último ano.
Entre as “soft commodities”, há mais incertezas sobre o café. Alves, do Itaú BBA, diz que os preços do produto tendem a ficar um pouco menores em 2026 com a expectativa de aumento da produção brasileira, por conta da bianualidade da safra. Mas, como os estoques globais estão baixos e o consumo cresce, as margens continuam boas.
Queiroz, da Mapa Capital, avalia que este ambiente de baixos estoques deve sustentar os preços. “É preciso repor os estoques [globais], que estão baixos”, ressalta Queiroz (Globo Rural)





