Chuvas e obras na via que leva a produção do Centro-Oeste para o terminal de Miritituba provocam filas de caminhões que se estendem por 25 quilômetros.
O escoamento de grãos pelos portos do Arco Norte, que já movimentam mais de 50% do volume exportado pelo Brasil, enfrenta gargalos maiores a cada ano e o cenário tende a piorar nesta temporada, segundo entidades do setor. O motivo são problemas de infraestrutura na via que leva até o terminal de Miritituba, no município de Itaituba (PA), rota para os portos exportadores, como Barcarena e Santarém.
No momento em que a colheita da soja avança em Mato Grosso, filas de até 25 quilômetros de caminhões já são registradas até a BR-163, a caminho do porto de Miritituba. O motivo são a ausência de obras de manutenção e asfaltamento na via Transportuária. As melhorias, que incluem a construção de um novo acesso, são orçadas em cerca de R$ 105 milhões, e a previsão é que sejam entregues entre maio e novembro deste ano.
Chuvas, falta de agendamento de caminhões na chegada ao terminal e o redirecionamento de cargas que iriam para o terminal da Cargill em Santarém — que foi alvo de protestos de indígenas — também agravaram o problema do Km 30 (onde a BR-163 se une à BR-230, a Transamazônica) até os terminais graneleiros em Miritituba, apurou o Valor.
Cerca de 20 presidentes de sindicatos rurais, junto à Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), percorreram o corredor logístico que liga Mato Grosso ao Arco Norte nos últimos dias para verificar as condições de escoamento da safra.
Segundo o presidente da Famato, Vilmondes Tomain, há cerca de 8 quilômetros de pista de terra nos acessos, ponto crítico que, com chuva, tende a agravar a instabilidade do tráfego e reduzir a previsibilidade do fluxo. “Enquanto a pavimentação definitiva e outras melhorias estruturais não forem concluídas, o setor deve continuar enfrentando limitações logísticas que impactam diretamente o escoamento da produção”, disse.
A Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport) informou ao Valor que serão asfaltados, pela entidade, 3,8 quilômetros da via Transportuária. “A ladeira Santo Antônio, com seus 406 metros, será revestida em concreto armado”. O valor investido é de R$ 21,6 milhões em obras e R$ 3,5 milhões em manutenção.
Procurada, a concessionária Via Brasil BR-163 informou que a Transportuária, que liga a BR-230 aos terminais portuários, ainda sem pavimentação, não faz parte de sua administração. A empresa, no entanto, iniciou obras de um novo acesso aos terminais de Miritituba, que serão finalizadas até novembro deste ano.
“Consiste numa pista de 5,7 quilômetros, inteiramente nova, pavimentada e sinalizada, que desviará o trânsito que hoje passa pela área urbana do distrito. Estão sendo investidos R$ 80 milhões”, informou a Via Brasil BR-163 em nota.
Obras
Segundo a companhia, as obras vão melhorar o acesso aos terminais, reduzir a emissão de ruídos, de fumaça, assim como a possibilidade de acidentes.
“Atualmente, a obra se encontra em fase final de execução de drenagem profunda e substituição de solos moles. (…) Mesmo com a ocorrência do período chuvoso, o que dificulta a execução dos trabalhos, a concessionária está avançando nessa etapa nos dias de estiagem”, acrescentou.
Colheita e logística
Tomain, da Famato, afirmou que o congestionamento ocorre no pico da colheita, que vai de fevereiro a abril, período que eleva as cargas e pressiona a logística.
“O cenário se agrava diante da previsão de nova safra recorde em Mato Grosso, estimada em mais de 50 milhões de toneladas, ampliando gargalos já existentes na infraestrutura de acesso ao porto, que é considerado estratégico para o transporte de grãos”, disse.
Segundo Vanderlei Ataídes, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado do Pará (Aprosoja-PA), a chuva faz com que muitos caminhões não consigam subir pela estrada ou atolem, aumentando as filas. “A cada ano que passa, aumenta a demanda de cargas. Ano passado houve esse problema, mas não desse tamanho”, disse, sobre o último período de escoamento da safra.
O eventual redirecionamento de cargas de Santarém para Miritituba, em função de protestos de indígenas na Cargill, também pode ter agravado o cenário. Mas o diretor executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (Adecon), Edeon Vaz Ferreira, observou que a quantidade de caminhões que vai do Centro-Oeste a Santarém é pequena e a maior parte das cargas vai pelos rios.
“Mas o único terminal grande que recebe grãos em Santarém é o da Cargill, e se ela não está recebendo, há represamento. E esse represamento, obviamente, vai para Miritituba para que possa colocar nas barcaças e levar para Santarém. O problema é que Santarém também não está recebendo barcaças. Então o problema é muito maior que a paralisação ou desvio de caminhões”, disse.
Uma preocupação adicional dos agricultores, segundo Ataídes, presidente da Aprosoja-PA, é que daqui a cerca de 15 dias começa a colheita da soja em Santarém, que também utiliza a logística de exportação pelo Arco Norte.
No ano passado, os portos do Arco Norte escoaram 37% de toda a soja exportada pelo Brasil. Foram 39,76 milhões de toneladas, alta de 14% em relação a 2024, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Dados do governo federal mostram que das 40,9 milhões de toneladas de milho exportadas pelo país em 2025, 34,4 milhões saíram pelos portos do Arco Norte (Globo Rural)




