Por Vera Ondei
O Fórum Econômico Mundial de 2026 , o World Economic Forum, começa nesta segunda-feira (19/1), em Davos, na Suíça, com a agricultura integrada ao centro do debate sobre crescimento, estabilidade e risco econômico. Água, solo, natureza e sistema alimentar aparecem no programa oficial não como pauta ambiental setorial, mas como infraestrutura crítica para produtividade, segurança e alocação de capital em um cenário de choques climáticos e instabilidade geopolítica.
“O diálogo não é um luxo em tempos de incerteza. É uma necessidade urgente. Em um momento crítico para a cooperação internacional, o Encontro Anual deste ano será um dos mais consequentes”, Børge Brende, presidente e CEO do WEF desde 2027, em comunicado oficial na terça-feira (13).
“Com níveis históricos de participação, ele oferecerá um espaço para uma combinação sem precedentes de líderes globais e inovadores trabalharem apesar das divisões”, disse ele. Brende é o responsável pela condução do Fórum, definição da agenda anual e articulação com governos, empresas e organismos multilaterais. A organização do Fórum informou que são esperados cerca de 400 líderes políticos, incluindo 65 chefes de estado e governo e seis dos sete líderes do G7.
O tema oficial do encontro deste ano, “A Spirit of Dialogue”, orienta uma agenda que o World Economic Forum descreve como voltada à reconstrução da prosperidade dentro de limites planetários. No recorte de agro e meio ambiente, o programa público aponta quatro eixos.
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O primeiro é o tecnológico. Na sessão “Food @ the Edge”, o texto oficial afirma que “inteligência artificial, biociências e tecnologias digitais estão transformando a forma como os alimentos são produzidos, distribuídos e consumidos”. O sistema alimentar é apresentado como plataforma de dados, automação, novos ingredientes e rastreabilidade. A agricultura aparece conectada a eficiência, escala e integração tecnológica, sem retórica ambiental.
O segundo eixo é a água. Em “Water in the Balance”, o Fórum define a gestão hídrica como “fundação da estabilidade econômica e social”. A descrição do painel associa eventos climáticos extremos, falhas de infraestrutura e risco sistêmico. Para o agro, a água surge ligada a produtividade, irrigação, seguros, infraestrutura e conflitos por uso, tratada como variável macroeconômica.
O terceiro bloco trata de finanças da natureza. Ao apresentar o “Business Case for Nature”, o WEF afirma que soluções baseadas na natureza e restauração de terras degradadas são necessárias “para reduzir riscos econômicos associados à perda de biodiversidade e às mudanças climáticas”. A natureza entra no debate como ativo econômico, com linguagem de retorno, métricas e necessidade de capital privado.
O quarto eixo aparece no Open Forum, com a sessão “Agricultural Evolution”. O texto do programa afirma que o sistema alimentar opera “sob estresse crescente de clima, escassez de recursos e desigualdade nutricional”. A agricultura é enquadrada como atividade em adaptação, com inovação produtiva e transição de práticas associadas à segurança alimentar e à nutrição.
O Preço da Incerteza
O Relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que a fragilidade das infraestruturas e o nacionalismo de recursos redesenham o mapa de riscos para a próxima década.
O sistema econômico global opera em uma zona de risco sem precedentes. Após 2024 registrar o marco histórico de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, o Global Risks Report 2026 indica que a crise ambiental deixou de ser uma projeção futura para se tornar o eixo central de rupturas operacionais imediatas. A convergência entre eventos climáticos extremos e a erosão da cooperação multilateral coloca a segurança alimentar e a estabilidade das cadeias de suprimentos em um estado de vulnerabilidade sistêmica.
Outro desafio, a logística global, enfrenta o que o documento descreve como o declínio de ativos fundamentais. A degradação da infraestrutura, pressionada por desastres naturais, gera prejuízos diretos ao comércio de commodities. Entre 2023 e 2024, a seca severa no Canal do Panamá resultou na redução de um terço do tráfego marítimo, elevando custos de frete e provocando desabastecimento de produtos frescos em mercados como o Reino Unido.
O relatório enfatiza que o problema não é isolado: níveis críticos de água nos rios Reno e Danúbio, observados em anos recentes e projetados para 2025, comprometem a entrega de matérias-primas essenciais na Europa Ocidental. Conforme aponta o texto do Fórum Econômico Mundial, “infraestruturas críticas — de redes elétricas a sistemas de transporte — estão falhando ou se tornando inadequadas para o ritmo acelerado das mudanças ambientais”.
A Ascensão do Nacionalismo de Recursos
A escassez de recursos naturais, classificada como o sexto risco mais grave para a próxima década, impulsiona uma mudança de comportamento nos Estados nacionais. Governos abandonam gradualmente a dependência de mercados globais integrados em favor da soberania econômica. Este movimento se traduz na estocagem estratégica de alimentos, minerais e metais básicos, o que retira liquidez das prateleiras globais e inflaciona preços.
A disputa pela água emerge como um vetor de conflito geoeconômico. O relatório destaca tensões em bacias hidrográficas vitais, onde o controle de nascentes é utilizado como ferramenta de pressão política. Exemplos incluem a construção do Canal de Qosh Tepa, no Afeganistão, que ameaça o fluxo hídrico para o Uzbequistão e Turcomenistão, e as disputas persistentes na Bacia do Rio Indo.
No setor agrícola e pecuário, a tecnologia quântica surge como uma fronteira de mitigação. O uso de sensoriamento quântico em agritechs promete aumentar a precisão da produção sob condições climáticas adversas. No entanto, o relatório alerta para o paradoxo do progresso: “a rápida adoção de tecnologias de automação e inteligência artificial pode exacerbar o desemprego estrutural”, mesmo enquanto resolve gargalos de produtividade.
De acordo com o relatório, nos próximos dez anos o cenário tende à “turbulência”. Cerca de 75% dos especialistas consultados preveem um horizonte de instabilidade contínua. A perda de biodiversidade e o colapso de ecossistemas, ocupando o segundo lugar no ranking de severidade de longo prazo, indicam que a resiliência do setor de alimentos dependerá menos de ajustes de mercado e mais de uma reconstrução profunda das bases de cooperação global.
Com tecnologia alimentar, água e finanças da natureza no centro do programa em 2026, o WEF tenta reposicionar a agricultura dentro da agenda econômica global. Esses temas aparecem no encontro há mais de uma década, com intensidades e enquadramentos diferentes, mas nas edições de 2024 e 2025 passaram a ocupar um patamar mais alto de hierarquia, associados a risco sistêmico, estabilidade produtiva e alocação de capital. Em 2026, esse enquadramento deixa de ser implícito e passa a estruturar o debate.
O que amadureceu antes: Davos 2025
Em 2025, o Fórum tratou alimentos, clima e custos como fatores de instabilidade econômica. Em “The Changing Landscape of Food”, o WEF listou fome, inflação, conflitos e eventos climáticos como forças que elevam risco no sistema alimentar global, conectando preço da comida a pressão social e política.
A água ganhou protagonismo explícito na sessão “Water at a Tipping Point”, com a afirmação de que sistemas hídricos se aproximam de pontos críticos, com impactos diretos sobre produção agrícola, crescimento econômico e resiliência das cadeias globais.
Outro avanço foi a discussão sobre arquitetura de mercados ambientais. Em “Aligning the Three Nature Markets”, o WEF tratou do alinhamento entre mercados de carbono, biodiversidade e água, com foco em regras, integridade e escala. Em paralelo, “Nature and Climate: A Stocktake” apresentou um balanço de compromissos e resultados, reforçando a cobrança por métricas e entrega.
A pauta florestal também ganhou espaço próprio na sessão “Defending Earth’s Largest Lung”. O debate conectou florestas tropicais à estabilidade climática global, com reflexos diretos sobre uso do solo e cadeias agropecuárias.
As bases de 2024
Em 2024, o movimento foi de organização conceitual nos debates ocorridos. A sessão “Treating Soil as a Precious Resource” colocou o solo como infraestrutura do sistema alimentar, associando acesso a alimentos, nutrição, clima e natureza como um único problema. O texto do WEF definiu o debate como voltado a financiamento e governança para restaurar e proteger solos, com participação de organismos multilaterais, governos e empresas.
No mesmo ano, a agricultura entrou de forma mais nítida na agenda climática pelo lado da demanda. O Fórum ativou a First Movers Coalition for Food, descrita pelo WEF como uma iniciativa para “usar o poder de compra das empresas para acelerar cadeias alimentares de baixa emissão”. O foco esteve em mercado e investimento.
Também em 2024, a natureza passou a ser tratada como variável econômica integrada à transição para uma economia de baixo carbono e positiva para a natureza, conectando finanças, indústria e energia (Forbes)





