- Excesso durante o dia força cortes na geração; à noite, cenário se inverte e país aciona térmicas
- Especialistas defendem mais armazenamento, além de tarifas diferentes por horário para mudar hábitos
O Brasil deixou de usar cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido produzida por suas usinas em 2025. A perda é motivada principalmente pelos cortes para conter o excesso de oferta no país e equivale à geração da hidrelétrica de Belo Monte, segunda maior do país, ao longo de dez meses.
As interrupções, chamadas de curtailment, têm sido aplicadas de forma crescente nos últimos anos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para evitar sobretudo que a geração exceda o tamanho da demanda. A medida é necessária porque o descompasso pode causar apagões.
O desequilíbrio durante o dia tem aproximado o país de um colapso, mostram dados compilados pela Volt Robotics. De acordo com os técnicos da consultoria, em pelo menos 16 dias de 2025 o sistema elétrico operou próximo ao limite de segurança devido ao excesso de oferta –um risco bem acima do observado um ano antes, quando houve apenas um dia crítico.
Os dados mostram que os momentos mais perigosos para o sistema têm sido os fins de semana, quando o fechamento da indústria e do comércio diminuem o consumo e a geração solar segue em plena produção. Nas segundas-feiras, o corte por excesso de energia equivale a 1.040 MW médios; aos domingos, salta para 5.135 MW médios.
A pedido da Folha, a Volt calculou o quanto a geração interrompida significa na prática. A eletricidade cortada seria o suficiente para abastecer, por um ano, toda a frota de carros elétricos no Brasil (cerca de 600 mil veículos) ou 40 data centers de grande porte.
O corte tem sido cada vez mais necessário em meio à expansão da chamada geração distribuída, representada sobretudo por painéis solares instalados próximos ao consumo e fora do controle do ONS (em residências, por exemplo). Como essa energia entra no sistema sem possibilidade de limitação, os cortes recaem sobre as usinas do sistema centralizado.
Segundo o ONS, a geração distribuída já ultrapassa 42 GW (gigawatts) de capacidade instalada, devendo chegar a 50 GW até 2028. O órgão estima ainda que, até 2029, quase um terço da matriz elétrica brasileira virá desse tipo de fonte, fazendo a sobreoferta de energia responder por 96% dos cortes.
“O que anteriormente se manifestava de forma pontual passou a assumir contornos estruturais”, afirmou o Ministério de Minas e Energia durante consulta pública sobre o tema. A pasta afirma que há debates técnicos, regulatórios e jurídicos sobre os riscos e aponta necessidade de mudanças para garantir a “continuidade do desenvolvimento sustentável da indústria de energias renováveis no país”.
Apesar da abundância de energia no período diurno, o país ainda precisa contar com termelétricas para dar conta do rápido crescimento da demanda assim que o sol se põe. Ou seja, sobra energia renovável de dia –mas falta no início da noite.
Donato da Silva Filho, diretor-geral da Volt Robotics, afirma que resolver o problema significa dar mais flexibilidade na geração e também no consumo, deslocando parte do uso de energia do fim do dia para a manhã. De forma específica, ele e outros especialistas apontam algumas alternativas para mitigar o problema.
Uma das mais comentadas é a ampliação do armazenamento, usando grandes baterias para guardar a energia de dia e usá-la quando necessário. Atualmente, o Ministério de Minas e Energia está planejando um leilão de baterias no país.
A lógica do armazenamento também pode ser aplicada às hidrelétricas, usando a eletricidade abundante no período diurno para bombear água de volta aos reservatórios. Isso ampliaria a possibilidade de tornar as usinas grandes baterias do sistema.
Outra medida seria a ampliação das tarifas diferenciadas por horário (hoje aplicadas de forma restrita no país), barateando o consumo durante o dia e encarecendo-o no horário de pico. A discussão está em consulta pública conduzida pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), embora haja dúvidas entre especialistas sobre sua eficiência neste momento.
“Resolver o curtailment significa ampliar a flexibilidade do sistema elétrico. Essa flexibilidade vem de equipamentos como baterias, de sinais de preço mais eficientes, de tarifas mais dinâmicas, de leilões para consumidores, do estímulo ao carregamento inteligente de veículos elétricos, de tarifas diferenciadas para bombeamento e da valorização da flexibilidade das hidrelétricas e termelétricas”, afirma Donato.
Raquel Rocha, diretora de assuntos regulatórios da ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída), afirma que a estocagem da energia seria benéfica, mas que demanda novas regras. “Para destravar esse potencial, é indispensável um marco regulatório mais claro, atualizado e específico para armazenamento”, diz.
Ela também defende o segmento, dizendo que as placas fora da rede centralizada não são responsáveis pelo curtailment por representarem menos da metade da capacidade da geração solar e eólica no Brasil. “Os episódios de curtailment decorrem, majoritariamente, da falta de expansão adequada da infraestrutura de transmissão e do crescimento desordenado da própria geração centralizada em determinadas regiões”, afirma.
Marisete Pereira, presidente da Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica), afirma que o curtailment exige um conjunto de medidas coordenadas. “A experiência internacional mostra que investimentos em armazenamento de energia, aliados a sinais econômicos mais eficientes, são fundamentais para reduzir desperdícios de geração. Além disso, é essencial que a expansão da matriz elétrica passe a ocorrer de forma alinhada às necessidades reais do sistema”, diz.
Outro problema decorrente do curtailment é o prejuízo que geradoras afirmam ter por causa da interrupção das receitas. Só em 2025 foram R$ 6,5 bilhões de perdas, segundo cálculos da Volt.
Elbia Gannoum, presidente-executiva da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), afirma que os geradores alvo dos cortes são obrigados a parar de produzir mesmo tendo contratos firmados e energia vendida. “Ao não entregar a energia contratada, outro agente precisa suprir essa obrigação, e o gerador que foi impedido de produzir acaba arcando com esse custo. Ou seja, além de não entregar sua mercadoria, ele ainda precisa pagar pela energia entregue por terceiros”, diz.
No ano passado, o presidente Lula (PT) sancionou uma lei que prevê uma compensação às geradoras —mas não nos casos de excesso de oferta. O Ministério de Minas e Energia abriu uma consulta pública para regulamentar o tema e formulou uma primeira proposta de acordo para as empresas serem remuneradas em troca da desistência de ações judiciais. As associações das companhias impactadas têm demonstrado esperança no desfecho das discussões.
Rodrigo Sauaia, presidente executivo da Absolar, afirma que anúncios de novos investimentos no setor estão travados à espera de uma solução viável para os cortes. “Com a previsão dos ressarcimentos, os agentes poderão planejar de forma mais assertiva sua operação”, afirma.
O ONS afirmou que discute com o governo e a Aneel aprimoramentos no marco regulatório, como o avanço na controlabilidade dos geradores distribuídos para que seja possível fazer a gestão também sobre esse tipo de geração.
Além disso, fala que há iniciativas que vão além dos sistemas de armazenamento, como o fortalecimento da infraestrutura de transmissão e a incorporação de novas cargas eletrointensivas, “a exemplo dos data centers, que passam a compor de forma crescente a realidade do SIN [Sistema Interligado Nacional]”.
“Os efeitos dessas medidas não estão associados a um prazo único ou previamente definido, pois dependem de um conjunto de fatores estruturais e comportamentais”, diz o Operador. “Trata-se de um processo evolutivo, com resultados graduais”.
Quanto o Brasil desperdiçou
Os cortes de geração solar e eólica totalizaram 4.021 MW médios em 2025, um desperdício equivalente a:
- Desligar a usina Belo Monte por 10 meses
- Consumo mensal de cerca de 16 milhões de residências
- Consumo médio de 600 mil carros elétricos por ano (frota brasileira)
- Consumo médio de 40 data centers de grande porte por ano (Folha)





