Por Arnaldo Luiz Corrêa
O conturbado cenário geopolítico no Oriente Médio serviu como gatilho para uma reação no mercado futuro de açúcar em NY — ainda que numa velocidade que mais lembra uma tartaruga com preguiça. Dada a magnitude do problema, esperava-se algo mais contundente, mas o mercado, como sempre, escolhe seu próprio ritmo… geralmente mais lento do que gostaríamos.
No fim das contas, os fundamentos continuam mandando no jogo — e não adianta discutir com eles. O contrato maio/26 encerrou a semana a 15.63 centavos de dólar por libra-peso, com alta de 122 pontos (ou US$ 26.90 por tonelada). Somando isso à desvalorização do real, que flertou com R$ 5.3267, o resultado foi uma melhora superior a R$ 150 por tonelada no açúcar VHP de exportação.
Ainda assim, seguimos abaixo do custo de produção estimado pelo nosso modelo, na casa dos 17 centavos por libra-peso FOB Santos. Ou seja, ainda não é hora de soltar fogos — mas já dá, pelo menos, para diminuir o nível de acidez nos humores de alguns acionistas e ajudar na difícil arte de fechar um orçamento que faça sentido.
Uma variação semanal dessa magnitude não é trivial. O último episódio semelhante ocorreu em setembro de 2024, quando o mercado saltou de 19.01 para 22.66 centavos de dólar por libra-peso em apenas uma semana. Naquele momento, ficou evidente que os fundos haviam virado a mão — mas os motivos da alta estavam longe de serem tranquilizadores. Como discutido à época, pairava no ar a suspeita de operações com acumuladores entrando em terreno pantanoso, contaminando a dinâmica de preços.
De volta ao mercado de hoje, ainda faltam alguns ingredientes importantes nessa receita de bolo para fazê-lo crescer. A Petrobras, por razões puramente populistas, ainda não mexeu no preço da gasolina impedida sub-repticiamente (ou será descaradamente mesmo?) por Lula que está de olho na eleição (Deus nos livre dessa erva daninha) de outubro próximo.
Hoje, a defasagem entre o preço praticado nas refinarias e a paridade internacional já alcança 39%. Ainda assim, o mercado não costuma esperar convite: nos postos da cidade de São Paulo, o litro da gasolina já saiu de R$ 6.1700 para R$ 6.5400 desde o início do conflito no Oriente Médio. Ou seja, mesmo sem ajuste oficial, o recado está sendo dado. E, quando — não se — a Petrobras decidir agir, a consequência será direta: reforço na tese de um mix mais voltado ao etanol, como manda a lógica econômica.
O Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão regulador dos mercados de commodities nos Estados Unidos, divulgou hoje o tradicional COT (Commitment of Traders), com base na posição de terça-feira, 17 de março. Como de costume, o relatório chegou com um pequeno “delay estratégico” — e, desta vez, acabou não capturando a recente alta dos preços, o que deixa a fotografia um tanto quanto desfocada.
Ainda assim, os dados trazem sinais interessantes. Entre os dias 10 e 17 de março, os fundos recompraram pouco mais de 2.000 lotes, enquanto o mercado praticamente andou de lado, saindo de 14.38 para 14.45 centavos de dólar por libra-peso — uma variação de apenas 7 pontos. Ou seja, houve algum movimento, mas nada que fizesse o mercado sair da cadeira.
A posição líquida dos fundos permanece expressiva, em torno de 205.800 lotes vendidos, e começa a apresentar traços de vulnerabilidade — especialmente se o cenário geopolítico voltar a se deteriorar. Nessa configuração, não seria exagero considerar uma alta adicional de 150 a 200 pontos.
Afinal, quando os fundos decidem reduzir posição, raramente o fazem com delicadeza. O histórico mostra que esse tipo de ajuste costuma ser mais parecido com uma saída de emergência do que com uma retirada organizada…
Outro ingrediente importante nessa visão mais construtiva é uma leitura mais cuidadosa do que ocorreu na Índia que sugere que a frustração da safra está fortemente ligada a um desempenho agrícola abaixo do esperado. O ciclo foi marcado por uma monção mais longa, com menor incidência de radiação solar, o que acabou limitando o desenvolvimento da cana e favorecendo episódios de floração em regiões relevantes como Maharashtra e Karnataka — fenômeno que, como se sabe, compromete diretamente a produtividade e o teor de açúcar.
Além disso, há indícios de que o ritmo de colheita tenha sido mais intenso nesta safra. Com um número maior de usinas em operação e aumento da capacidade diária de moagem, a cana foi processada em um intervalo mais curto, reduzindo o tempo de permanência no campo e, consequentemente, seu potencial de maturação.
O avanço da mecanização, que já responde por uma parcela relevante da colheita, também contribuiu para acelerar esse processo. O resultado é uma combinação de fatores que ajuda a entender por que uma safra inicialmente projetada em torno de 35 milhões de toneladas perdeu fôlego de forma tão rápida ao longo da temporada. Em resumo: a Índia dificilmente vai exportar açúcar em volume que possa mexer com o mercado internacional.
Outra questão que veio à baila foi o alargamento do spread entre Brent e WTI — que saiu de cerca de US$ 5 para próximo de US$ 15 por barril — reflete uma clara desconexão entre o mercado global e o doméstico norte-americano. O Brent, referência internacional, incorpora o prêmio de risco geopolítico e eventuais disrupções logísticas nas rotas marítimas (que é o caso nesse momento com o fechamento do estreito de Hormuz), enquanto o WTI sofre com fatores locais, como excesso de oferta nos Estados Unidos, limitações de escoamento e menor demanda momentânea das refinarias.
Em outras palavras, o Brent está sendo puxado por um ambiente global mais apertado e incerto.
Da mesma forma que muitas usinas travam na hora de fixar preços de exportação — e deixam passar oportunidades generosas de remunerar melhor seus acionistas — os consumidores industriais de açúcar também parecem apreciar uma certa dose de adrenalina. Gostam de viver perigosamente.
Há apenas cinco semanas, o mercado em NY praticamente implorava por fixações para o ano-safra 2027/2028 (na faixa entre maio/27 e março/28). Os preços médios giravam em torno de 14.66 centavos de dólar por libra-peso — um nível que, à época, oferecia excelente previsibilidade de custo.
Avançamos poucas semanas e o mesmo mercado encerrou esta sexta-feira a 16.51 centavos de dólar por libra-peso. Uma alta equivalente a cerca de US$ 40 por tonelada. Em outras palavras: a oportunidade bateu à porta, tocou a campainha, e foi embora sem ser atendida. A mesma história, sempre.
Nosso colaborador Marcelo Moreira comemora que finalmente o mercado andou! O Maio-26 encerrou a semana a 15.70 centavos de dólar por libra-peso (última vez que negociou nesse nível foi dia 10 outubro 2025). Com esse fechamento o mercado rompeu a média móvel dos 200 dias e retomou a tendência de alta. Próximas resistências a 16.40 e 17.28 centavos de dólar por libra-peso. Próximos suportes a 15.32, 15.04, 14.65 e 14.25 centavos de dólar por libra-peso! Se quebrar 16.40 centavos de dólar por libra peso, a coisa pode fluir…
Devido ao retumbante sucesso do nosso Curso Introdução ao Mercado Sucroalcooleiro, a segunda edição (totalmente on-line) vai ocorrer nos dias 23-24-25 de junho. Lembrando que esse curso veio substituir o Curso Essencial que foi temporariamente descontinuado. Quer saber mais? Mande um e-mail para diego.veiga@gmail.com (Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting)





