Por Arnaldo Luiz Corrêa
NY encerrou a sexta-feira com o vencimento março/26 cotado a 14.85 centavos de dólar por libra peso, uma queda de 25 pontos em relação ao fechamento da semana anterior. Apesar da posição vendida pesada dos fundos, que pelo último número publicado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities, com base no dia de 9 dezembro, era de 192,449 lotes vendidos, o mercado parece carecer de um gatilho que possa reverter essa trajetória de preços exageradamente baixista. Nas últimas cinco semanas os fundos recompraram apenas 3,668 lotes e o mercado subiu 30 pontos.
Nesse interim tivemos duas semanas com sinais trocados. Na semana do dia 25/11 o mercado subiu apesar de os fundos terem adicionado mais vendas. O que pode denotar isso? Fixação de compradores industriais? Novas compras aproveitando o preço baixo. Na semana de 9 de dezembro, outro sinal trocado: os fundos recompraram 4,008 lotes e o mercado caiu 31 pontos. Será que vendas atrasadas (de usinas?) entraram no circuito meio que jogando a toalha?
Alguns fatores têm pesado contra uma recuperação de preços. O real mais fraco, que pode ter sido afetado pela remessa de dividendos das multinacionais estabelecidas no Brasil ou a preocupação do mercado quanto às eleições presidenciais do ano que vem. Se na cédula de candidatos tiver alguém com o sobrenome do ex-presidente preso, cuja rejeição chega a 63%, teremos mais quatro anos de Lula algo impensável até mesmo para o Reino de Hades.
Retrospectiva 2025
O mercado futuro de açúcar caminha para o encerramento de 2025 reafirmando uma de suas características mais persistentes: a incrível capacidade de se apegar a narrativas convenientes por tempo demais e, quando finalmente confrontado com os fatos, agir como se tudo sempre tivesse sido óbvio. Foi um ano em que previsões envelheceram rápido, convicções se mostraram frágeis e a realidade física do mercado, paciente como sempre, aguardou o momento certo para cobrar seu espaço.
O ano começou sob um misto de cautela e falsa tranquilidade. O real volátil incentivava fixações agressivas, os fundos ampliavam posições vendidas com impressionante convicção e o mercado parecia confortável em aceitar que uma grande safra brasileira resolveria qualquer desconforto estrutural. Ao mesmo tempo, a Índia inaugurava mais uma temporada de projeções otimistas, anunciando números com a antecedência e a precisão típicas de quem acredita que estatística é uma forma de fé.
Nos primeiros meses, o açúcar até tentou ensaiar movimentos de recuperação. Eventos internacionais, como o encontro de Dubai, produziram seu habitual entusiasmo performático: discursos confiantes, estimativas redondas e uma atmosfera de otimismo que durou exatamente até o retorno à rotina. Bastaram alguns relatórios menos animadores, sinais de atraso no início da moagem e dados inconsistentes de desenvolvimento da cana para que o mercado voltasse a tropeçar nas próprias certezas.
À medida que o primeiro semestre avançava, os sinais de estresse no campo começaram a se acumular. ATR abaixo do esperado, desenvolvimento irregular, clima errático e uma safra que parecia cada vez menos uniforme do que os modelos sugeriam. Ainda assim, o mercado insistiu em tratar esses indícios como ruído estatístico, preferindo acreditar em números confortáveis a encarar a complexidade do que estava acontecendo no campo. Não foi a primeira vez — e certamente não será a última.
Enquanto isso, os fundos especulativos cumpriam seu papel clássico: amplificar movimentos. Vendiam quando o mercado caía, vendiam quando subia e, sobretudo, vendiam porque o consenso assim indicava. O resultado foi um mercado cada vez mais vendido, cada vez mais convicto e cada vez mais desconectado dos fundamentos. A volatilidade cresceu, mas o preço parecia incapaz de refletir qualquer leitura estrutural consistente.
No segundo semestre, o pessimismo deixou de ser circunstancial e passou a ser estrutural. Julho e agosto marcaram o período em que o mercado entrou no que poderíamos chamar de “pântano narrativo”: preços deprimidos, convicções rígidas e pouca disposição para revisar premissas. Setembro, mais do que um fundo técnico, representou o fundo psicológico do ano. Era o momento em que ninguém mais queria ouvir dados novos — apenas confirmações das próprias crenças.
Curiosamente, foi justamente nesse ambiente que os fundamentos começaram, silenciosamente, a se impor. Spreads passaram a sinalizar desconforto, a curva começou a contar uma história diferente daquela sugerida pelos preços à vista e a posição dos fundos atingiu níveis extremos, difíceis de sustentar sem consequências. O mercado, ainda relutante, começou a perceber que talvez tivesse exagerado no pessimismo.
Outubro marcou o início dessa reavaliação, ainda tímida, quase constrangida. Não houve eventos espetaculares, não surgiram grandes manchetes nem rupturas dramáticas. Apenas a realidade, pouco a pouco, voltou a ocupar espaço. Novembro e dezembro trouxeram algum alívio técnico, ajustes graduais e a sensação de que, depois de um longo período de negação, o mercado começava a reencontrar algum equilíbrio.
Se 2025 deixou lições, elas não foram novas — apenas reforçadas. O mercado pode ignorar fundamentos por meses, mas não indefinidamente. Pode se apoiar em narrativas sedutoras, mas cedo ou tarde a matemática cobra coerência. Pode exagerar no otimismo e no pessimismo, mas a realidade física da oferta e da demanda sempre encontra um caminho de volta aos preços.
Análise Técnica
Março-26 novamente tentou superar sem sucesso a barreira dos 15.00 centavos de dólar por libra-peso, mas encerrou praticamente “em cima” das médias móveis dos 9/14/50 dias. Caso rompa para cima as próximas resistências estão a 15.77 centavos de dólar por libra-peso e 16.88 centavos de dólar por libra-peso. Rompendo para baixo próximo suporte importante continua sendo a mínima do contrato negociado no dia 6 de novembro a 14.04 centavos de dólar por libra-peso.
Encerramento
Este é o último Comentário Semanal da Archer Consulting em 2025. Retornaremos com nossas análises no primeiro final de semana de fevereiro de 2026. Vamos recarregar as baterias para um ano que se mostra particularmente desafiador.
Aproveitamos para agradecer sinceramente a confiança, o diálogo e a parceria ao longo de mais um ano intenso, inquietante e extremamente instrutivo. Desejamos a todos um ótimo Natal, um feliz Ano Novo e a renovação dessa parceria em 2026, com boas decisões, boa gestão de risco e — se possível — menos ilusões coletivas (Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consuting)





