Por Roberto Waack
Fugir de generalizações, reconhecer a heterogeneidade e estar disponível para diálogo é o único caminho para avanços nesses temas.
Em fevereiro deste ano, Chandrakant Singh e Ulf Martin Persson, cientistas da Chalmers University of Technology na Suécia, conhecidos globalmente por desenvolverem o modelo DeDuCE (Deforestation Driver and Carbon Emission), publicaram o artigo Global patterns of commodity-driven deforestation and associated carbon emissions (Padrões globais de desmatamento associados a commodities e à emissão de carbono) na revista Nature Food, em que abordam a relação entre o desmatamento e o agronegócio.
A partir de dados espaciais estatisticamente tratados, a pesquisa apresenta uma quantificação detalhada do desmatamento global associado a diferentes commodities dependentes do uso da terra. Entre várias conclusões, os autores apontam que, no período de 2001 a 2022, o desmatamento associado a pastagens representou 42% do total, sendo que o Brasil é responsável por cerca de 63% de todo o desmatamento mundial atribuído à carne bovina.
Em agosto, o site Our World in Data deu ampla visibilidade ao assunto com a publicação Beef production in Brazil has been the largest driver of global deforestation in recent decades (A produção de carne no Brasil foi o maior responsável por desmatamento global nas últimas décadas).
A sutil transformação de uma abordagem científica em tom ativista chama atenção, transformando um modelo complexo em atribuição de responsabilidade setorial genérica. O estudo de Singh e Persson faz considerações importantes sobre complexidades associadas à definição de florestas e a base cartográfica utilizada.
Faz análises relacionando desmatamento a commodities, combinando imagens de satélite, mapas de uso do solo e dados agrícolas, mas, quando não consegue identificar diretamente qual commodity sucedeu o desmatamento, o modelo faz uma atribuição estatística, com base na expansão das diferentes atividades.
As evidências de que a conversão de florestas em pastagens teve papel central no desmatamento amazônico são robustas. No entanto, a atribuição direta do desmatamento a uma atividade econômica colabora para uma persistente demonização genérica do setor, desconsiderando o processo de ocupação e transformação do território que exige contemplar as dinâmicas fundiárias e sociais e a finalidade e legalidade inicial da abertura da área.
Estudos conduzidos por organizações como Imazon e Ipam apresentam evidências consistentes de forte associação entre desmatamento e insegurança fundiária. É sabido que, em determinados territórios, a presença do gado está associada a estratégias de ocupação da terra muitas vezes relacionadas à fragilidade fundiária e à vulnerabilidade socioeconômica. Portanto, a simples atribuição do desmatamento à produção de carne bovina precisa ser relativizada.
Compreender como esses animais se inserem nos diferentes circuitos de comercialização da carne é fundamental para identificar os atores econômicos envolvidos e suas responsabilidades. O estudo realizado por Singh e Persson indica que a maior parte da pressão histórica atribuída à carne brasileira vem do mercado doméstico (85%), não das exportações (15%). A publicação da Our World Data reconhece essa situação, mas não aborda como esses diferentes mercados se estruturam.
É inegável que o consumo interno é derivado de uma grande diversidade de indústrias distribuídas pelo País, e essa heterogeneidade precisa ser considerada. Segundo dados do IBGE, em 2025, estavam registrados 1.123 frigoríficos e abatedouros de bovinos. Todos estão submetidos a algum tipo de inspeção sanitária oficial: 17% com inspeção federal (SIF), 36% com verificação estadual (SIE) e 47%, municipal (SIM).
Embora com representação menor, os frigoríficos submetidos à inspeção federal representam aproximadamente 75% do peso total de carne produzida. Cerca de 20% das indústrias processadoras de carne bovina registradas são exportadoras.
Apenas três grupos têm ações negociadas em bolsas de valores e respondem pela quase totalidade do mercado externo que, como já mencionado, correspondem a somente 15% da carne produzida no país. Essas são apenas algumas das características do setor que precisam ser consideradas.
A publicação da Our World Data também não distingue desmatamento legal de ilegal, condição relevante para um debate profundo sobre as correlações apontadas. A persistente estratégia de “blame and shame” (culpar e envergonhar) as grandes marcas não endereçam a realidade do mercado e, portanto, não apontam soluções para o complexo desafio tratado.
Nenhuma das duas publicações tangencia o que talvez seja o ponto mais importante: a participação dos próprios pecuaristas na compreensão da relação entre produção bovina e uso da terra. As diferentes histórias e estratégias de desenvolvimento dos territórios explicam por que a pecuária brasileira assume formas tão distintas.
Nessa frente, merece destaque a iniciativa Vozes da Pecuária. Criada em 2025, ela visa “fortalecer a representatividade, a articulação e o protagonismo dos pecuaristas na construção de uma pecuária cada vez mais sustentável, produtiva e valorizada”.
A iniciativa mobilizou centenas de pecuaristas em oito estados e traduziu a voz dessas pessoas em documentos que endereçam a identidade de dez territórios produtores da maior parte da carne bovina do Brasil.
Tratar identidade é reconhecer, como ponto de partida, a heterogeneidade desses grupos. Essa abordagem traz abrange elementos como a origem da pecuária nessas regiões, suas tradições, condições fundiárias, custo da terra, ciclos produtivos predominantes (cria, recria, engorda), genética de referência, integração agrícola, intensidade da produção e conexão com a indústria.
Sob esse prisma, não é preciso muito esforço para perceber que regiões como Alta Noroeste Paulista, Alto Médio Araguaia, Amazônia Oriental Paraense, Corredor do Boi, Matopiba, Oeste Baiano, Pantanal, Rondônia e Cáceres e Trindade do Mato Grosso são geográfica, econômica e socialmente distintas. Dados quantitativos sobre rebanho, dimensões e estimativas de valor econômico agregado da produção são apresentados.
A maior contribuição vai além: trazem, em matrizes territoriais, os principais desafios das regiões, como necessidade de capital para intensificação da produção, assistência técnica, questões sanitárias, vulnerabilidades climáticas, infraestrutura logística, conectividade, questões tributárias, relação com conservação ambiental, conflitos sociais, concentração de mercado, condições de agregação de valor, capacidade de coordenação de cadeias e impacto em rastreabilidade e o interessante componente geracional.
As matrizes também apresentam compromissos dos pecuaristas e pactos com governos e mercado, além do engajamento com o desenvolvimento econômico e social de suas regiões, associado à conservação ambiental e à agenda climática. Esses documentos, construídos com os produtores, têm a força da legitimidade e da representatividade dos diferentes grupos envolvidos na produção bovina. O site traz, ainda, links para mídias complementares, com depoimentos e documentos produzidos pelos pecuaristas envolvidos.
O Brasil tem muitos exemplos de práticas que estão na fronteira do que há de melhor na relação entre produção, regeneração e conservação. Fugir de generalizações, reconhecer a heterogeneidade e estar disponível para diálogo é o único caminho para avanços no tema tratado por Singh e Persson.
Um esforço conjunto, que envolva contribuições acadêmicas, o ativismo ambientalista e o amplo envolvimento de pecuaristas, é a única alternativa possível para que um setor altamente relevante para a segurança alimentar global deixe de ser tratado, por parte de algumas organizações e da mídia, como um bloco indiferenciado e problemático. A escuta ativa de produtores é o caminho para a alavancagem da agenda climática e da natureza (Estadão)






