Embrapa conclui missão técnica na Etiópia para fortalecer o desenvolvimento florestal


A cooperação internacional entre o Brasil e a Etiópia conclui uma nova etapa com o início da segunda fase do projeto Forests Ethiopia, aprovado para execução ao longo dos próximos quatro anos. Intitulado “Increasing Potential for Sustainable Management of Natural Forests, Restoration of Degraded Land, and Transfer of Knowledge and Technology in Agroforestry Systems in Ethiopia”, o projeto visa expandir as parcerias e temas de atuação técnica entre a Embrapa e o Ethiopian Forestry Development (EFD), órgão governamental responsável pelo setor florestal na Etiópia. Para dar início às atividades práticas em campo, uma comitiva técnica brasileira viajou ao país africano entre 17 e 24 de outubro, em missão de diagnóstico e planejamento logístico.
A equipe contou com a participação dos pesquisadores da Embrapa Florestas, Marcelo Francia Arco-Verde e Evaldo Muñoz, especialistas em sistemas agroflorestais e manejo florestal. Contou também com Marcus Vinicio Neves Oliveira (Embrapa Acre), José Ednilson Miranda (Coordenador do Escritório de Cooperação Técnica da Embrapa em Adis Abeba), representantes da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e especialistas do EFD.
Diagnóstico in loco e eixos de atuação
Durante a semana de trabalhos em campo, realizada em Welkite City, a cerca de quatro horas da capital Adis Abeba, a equipe percorreu diferentes áreas para selecionar os locais estratégicos onde serão implantados estudos de caso. O escopo da parceria abrange o manejo sustentável de florestas nativas de altitude; introdução de sistemas agroflorestais (SAFs) para fortalecer a agricultura familiar e a segurança alimentar; ações de silvicultura de coníferas com orientações sobre mensuração, ponto ideal de corte, podas e desbastes.
O pesquisador Evaldo Muñoz fala sobre as ações voltadas à área de manejo florestal. “Selecionamos a área onde será instalado o projeto piloto de florestas naturais e analisamos as necessidades complementares para o experimento. A metodologia de manejo considerará o manejo espécie a espécie, iniciando pelas espécies arbóreas Juniperus e Podocarpus. Essa escolha se deve a serem abundantes nas florestas etíopes e de alto valor econômico”, conta. Em complemento às perspectivas deste trabalho de campo, o pesquisador Marcus Vinicio Neves Oliveira ressalta os avanços proporcionados pelos contatos com os especialistas locais. “Identificamos alguns pontos de cooperação, como os estudos em parcelas permanentes de dinâmica de crescimento de floresta e monitoramento por sensoriamento remoto. No topo disso, também tivemos a oportunidade de visitar alguns locais, conhecer um pouco do país e da cultura local”.
O projeto também prevê assistência em fitossanidade e a estruturação de um viveiro moderno de mudas próximo à capital etíope. Ao comentar as prioridades de campo, Arco-Verde apontou os desafios sociais e ambientais observados. “Visitamos a área de sistemas agroflorestais, também uma área muito interessante para a agricultura familiar. O país é muito pobre, por isso precisamos focar na produção de alimentos e na recuperação de áreas degradadas por graves processos de erosão e voçorocas”, relata o pesquisador.
Adaptação metodológica e desafios locais
Um dos aspectos centrais observados pelos pesquisadores é a necessidade de adaptar as metodologias brasileiras à realidade fundiária e social da Etiópia. No país, as terras pertencem ao Estado, e os agricultores recebem licenças de uso para pequenas propriedades, que têm tamanho entre 0,5 e 1,5 hectare, geralmente.
A livre circulação do gado entre as propriedades cria trilhas que acentuam a degradação de solos frágeis, quadro que se agrava durante o período de chuvas, com duração aproximada de cinco meses. Diante dessa dinâmica, a equipe identificou a necessidade de incorporar o manejo animal ao projeto, associando o uso de cercas vivas ou convencionais à proteção das áreas de manejo florestal, que superam 100 hectares, e de novos plantios.
Refletindo sobre a complexidade da missão, Arco-Verde enfatizou a necessidade de adaptação à situação local. “Nós temos que adaptar as tecnologias para atender a essas condições que são bem adversas e que geralmente nós não encontramos no Brasil”.
Além do mapeamento das áreas de estudo, o relatório final da missão identificou gargalos estruturais no setor florestal etíope, ressaltando a urgência de apoiar a transição de um modelo focado na proteção estrita para uma abordagem de manejo sustentável e produtivo. Os dados preliminares apontam uma estimativa de 54 milhões de hectares de terras degradadas no país, demanda que exige técnicas intensivas de conservação de solo e água para controlar erosões e recuperar voçorocas. Outro ponto crucial levantado pelo EFD é a existência de uma diretriz governamental de desincentivo ao plantio de eucalipto, o que demanda o estudo conjunto de espécies alternativas de rápido crescimento para suprir as necessidades locais de madeira e biomassa.
Capacitação e intercâmbio técnico
A parceria prevê ainda um programa de capacitação contínua. Em 2027, técnicos etíopes de referência receberão treinamentos práticos na Etiópia e, posteriormente, viajarão ao Brasil para acompanhar experiências de manejo e recuperação na região Amazônica (Acre e Pará) e no Sul do país (Paraná). O objetivo é assegurar o progresso dos estudos de caso e garantir a sustentabilidade das ações ao longo do projeto.
“Encontramos técnicos locais, de uma geração mais nova, que serão os pilares de cada uma dessas áreas que nós vamos trabalhar e que iniciarão esse processo de mudança na Etiópia. Eles provavelmente irão ao Brasil para observar o que nós fazemos e depois voltam aqui para a Etiópia para realmente pôr em prática e transferir a tecnologia”, explica Marcelo Francia Arco-Verde.
A agenda incluiu ainda uma reunião estratégica em Adis Abeba com o centro internacional CIFOR-ICRAF (World Agroforestry), para articular parcerias multilaterais e atrair o setor privado. No encontro, ficou ajustado que o EFD elaborará uma solicitação de financiamento ao Banco do BRICS (Novo Banco de Desenvolvimento) para projetos agrícolas e florestais na Etiópia, com gestão técnica da ABC e da Embrapa.

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