A bancada ruralista declarou apoio, ainda antes do primeiro turno, ao candidato à Presidência da República derrotado Flávio Bolsonaro (PL).
A Frente Parlamentar Agropecuária da (FPA) deverá ter uma posição de proatividade na relação com o próximo governo combinada com uma postura crítica e reativa em pautas que atrapalham diretamente o produtor rural. Esse foi o tom adotado pelo presidente, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), na primeira reunião do grupo após as eleições. A bancada ruralista declarou apoio, ainda antes do primeiro turno, ao candidato à Presidência da República derrotado Flávio Bolsonaro (PL).
O ruralista enfatizou que a “eleição passou” e que a FPA já retomou o trabalho de articulação e negociação em Brasília para atender aos interesses dos produtores rurais na ponta. Questionado se há disposição do agronegócio para uma “conciliação” com a gestão do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, o parlamentar sinalizou positivamente, mas indicou que há dificuldades na área ambiental e que manterá oposição em temas sensíveis.
“Vitoriosos e vencidos precisam virar a página. Isso faz parte de uma democracia. Graças a Deus ainda estamos em uma. Precisamos reconhecer isso”, afirmou à imprensa após a reunião.
“Precisamos ter condições de manter o produtor em pé e manter a participação na economia que o nosso setor tem. Tudo isso vai depender de nós conseguirmos aparar arestas e estar convergente quando as pautas são possíveis e estiverem convergentes. Tudo aquilo que for ideológico, que for perseguição para o nosso setor e que for criar problema para o nosso dia a dia, nós vamos enfrentar como sempre fizemos”, completou.
Lupion deixará a presidência da FPA em 2027, após dois mandatos consecutivos. O deputado Zé Vitor (PL-MG), mais cotado para assumir o posto, disse na reunião que “nosso partido é o agro”.
Na avaliação de Lupion, a bancada ruralista saiu fortalecida das urnas, com projeção de chegar a 330 deputados e 50 senadores a partir de 2027, ou seja, cerca de 380 integrantes dos 594 possíveis na Câmara (513) e Senado (81). Com essa representatividade, será necessário dialogar com o governo e “abrir portas” com a equipe que for escolhida por Lula para comandar os ministérios, pois haverá “enfrentamentos” nos próximos quatro anos.
O deputado paranaense pontuou que o governo Lula 4 precisará ter transparência nas relações com o setor e com a FPA. “É um momento difícil e desafiador. A eleição passou, temos que tocar a vida, pois o produtor está na ponta esperando resultado e vamos continuar nesse trabalho de defesa intransigente do setor”, completou. Ele ainda disse que, como foi e é oposição, não cabe à FPA indicar ministros, mas espera manter boa relação com os novos escolhidos.
Uma das preocupações é com a área ambiental e o possível retorno de Marina Silva, candidata derrotada ao Senado por São Paulo, ao comando do Ministério do Meio Ambiente. “Para nós é péssimo, vamos ter que ter uma articulação política diferente, pois hoje não há o mínimo de diálogo”, observou. Lupion ponderou que houve interlocução com os ministérios da Fazenda e da Agricultura, apesar das divergências.
“Vamos ter que ir buscando esse entendimento político. O governo tem um entendimento claro de que precisa conversar mais com a sociedade, precisa ampliar o diálogo com o Brasil, que está completamente rachado, dividido. Precisamos buscar essas convergências”, avaliou.
Durante a reunião com parlamentares e representantes de entidades do setor agropecuário, Lupion afirmou que questões ideológicas não podem suplantar as questões práticas para soluções para o dia a dia do campo. Nos últimos quatro anos, a FPA criticou medidas infralegais adotadas pelo governo Lula , como a publicação de normas e resoluções de órgão e agências federais, como do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que afetaram o agronegócio.
Ele prometeu a “imparcialidade necessária” para sentar à mesa e fazer as negociações com o governo petista. “Esse trabalho já começou”, disse. O deputado disse que essa já foi postura nesta gestão e pontuou que atuação da FPA para a aprovação da PEC da transição ainda em 2022 e do novo arcabouço fiscal, além da reforma tributária.
Entre os pontos urgentes nessa retomada dos trabalhos pós-eleições está a tentativa de votação da Medida Provisória 1.376/2026, da renegociação das dívidas rurais, que perderá a validade em 11 de novembro. A FPA preparou um voto em separado com alterações que ampliam o alcance da proposta. Até o momento, apenas R$ 14 bilhões foram refinanciados de uma estimativa de R$ 100 bilhões.
A tramitação, no entanto, enfrenta dificuldades. A FPA ainda tenta uma agenda com o presidente da comissão mista, senador Renan Calheiros (MDB-AL) para marcar a votação. Se aprovada, a MP terá que ser votada nos plenários da Câmara e Senado em três semanas, o que demandará articulações intensas com os presidentes Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB).
Enquanto o andamento da MP está incerto, a bancada cogita retomar a análise do projeto de lei 5.122/2023, que promove uma renegociação ainda mais ampla das dívidas rurais. “Estamos trabalhando bastante para conseguir mudar o relatório da MP e aprovar um texto condizente com a necessidade do setor ou até mesmo forçar no Plenário a volta do 5122. Precisamos encontrar uma solução, o que não dá para deixar é o produtor a pé do jeito que está”, concluiu (Globo Rural)
Divergências entre o governo federal e a bancada ruralista devem persistir
No Congresso Nacional, a bancada ruralista fala em fiscalizar as ações do Planalto e em pressionar o Executivo por melhorias que os eleitores do campo e da direita querem.
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a prolongar as divergências políticas entre o governo federal e parte relevante do agronegócio, que apoiou em peso o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, segundo analistas. No Congresso Nacional, a bancada ruralista fala em fiscalizar as ações do Planalto e em pressionar o Executivo por melhorias que os eleitores do campo e da direita querem.
No dia seguinte das eleições, lideranças começaram a mexer peças do tabuleiro político em Brasília para projetar a composição da nova Esplanada dos Ministérios em 2027 e como será a atuação do setor. A avaliação é que, apesar das diferenças, o agronegócio precisa sair da defensiva e ser mais propositivo na próxima gestão.
Para Leandro Gabiati, cientista político e diretor da Dominium Consultoria, a relação de interdependência do agronegócio e do Executivo pode forçar uma aproximação mais pragmática após quatro anos marcados por embates, rompimentos de laços e implosão de pontes desde 2022. “O governo precisa de um setor estratégico para as exportações e a economia, enquanto o agro depende de políticas públicas, financiamento e decisões regulatórias”, avaliou.
Ainda assim, ele ainda vê campo aberto para discordâncias nas agendas ambiental, fundiária e regulatória. A força da bancada ruralista e a capacidade de influenciar em votações e impor custos políticos ao governo vão obrigar Lula a conversar e negociar mais com o Congresso, onde os interesses do agro continuam bem representados. Maior grupo temático do Legislativo, com 349 membros na Câmara e no Senado, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) deverá crescer em 2027.
“A reeleição de Lula, combinada com a força da bancada ruralista, pode incentivar o governo a buscar maior previsibilidade e interlocução prévia com o setor, evitando desgastes políticos desnecessários. Muito dependerá da composição ministerial e das prioridades estabelecidas para o novo mandato presidencial”, ressaltou Gabiatti.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), vice-presidente da FPA, disse que é preciso manter a mobilização para cobrar ações do próximo governo. Em postagem nas redes sociais, ela não questionou o resultado das urnas e prometeu fiscalizar a atuação do Executivo.
“Nós precisamos continuar mobilizados para cobrar tudo que desejamos. A voz de vocês não será calada (…) Nós estaremos lá para fiscalizar esse governo e lutar pelo país que queremos, com prosperidade e segurança”, disse. A FPA não se posicionou oficialmente sobre o resultado das eleições.
A avaliação de Gabiatti é que a bancada ruralista manterá a referência política do setor, mas não necessariamente atuará como “oposição sistemática”. A tendência, segundo ele, é combinar enfrentamento em temas sensíveis, como ambientais e regulatórios, com negociações necessárias para avançar em crédito rural, seguro agrícola, infraestrutura, fertilizantes e orçamento. “O desafio das lideranças será separar a disputa eleitoral da representação dos interesses do setor”, concluiu.
Carlos Ernesto Augustin, que foi assessor especial do Ministério da Agricultura de Lula de 2023 a 2026 e mantém interlocução com a FPA e entidades do campo, disse que o setor precisa ser mais propositivo e o Executivo, mais moderado, para que haja governabilidade com avanços para o agro. “O momento é de conciliação e de ser proativo”, afirmou à reportagem.
A movimentação é urgente, disse ele, para buscar soluções para o endividamento e a falta de acesso ao crédito, que tem prejudicado negócios no interior do país. Uma das pautas imediatas é a criação de um fundo garantidor, com recursos federais e dos governos estaduais, para equilibrar o risco associados pelas instituições financeiras ao setor atualmente e fazer fluir novamente os financiamentos.
Empresário do ramo de sementes em Mato Grosso, Teti, como é conhecido, foi candidato a suplente de senador nas eleições deste ano após romper com o ex-ministro Carlos Fávaro (PSD), mas não se elegeu. Ele saiu do PT e se filiou ao PSB, partido do vice-presidente, Geraldo Alckmin, e quer espaço no próximo governo. “Precisamos de nomes que convirjam, que se dão bem dos dois lados”, refletiu (Globo Rural)






