- Entra governo e sai governo, os problemas estruturais do setor persistem
- Internamente, juros e dívidas pesam; externamente, conflitos elevam custos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai enfrentar sérios problemas referentes ao agronegócio no seu próximo mandato. Eles virão tanto de situações econômicas adversas no campo e na economia em geral quanto da oposição cega que será adotada ao seu governo pela parte mais politizada do setor.
O petista já havia enfrentado situação semelhante. Em 2006, o então ministro da Agricultura do governo Lula, Roberto Rodrigues, disse a esta coluna que o setor vivia “uma das suas piores crises das últimas décadas”. À época, Rodrigues afirmou que câmbio, custos elevados, investimentos feitos em tempos favoráveis, queda de preços das commodities, desafios logísticos e efeitos climáticos, como as secas na região Sul, resultavam em forte perda de renda dos produtores.
Seguro rural, criação de um fundo contra catástrofes, novos papéis de financiamento, melhora no relacionamento externo e a busca de uma visão sistêmica de planejamento estratégico estiveram no foco do governo à época. Além disso, novos programas de desenvolvimento à agricultura, como o biodiesel, energia renovável e um robusto suporte de recuperação da Embrapa, foram adotados.
Os governos mudam, mas os problemas persistem. Eles se repetem ano a ano. Enquanto não for desenvolvido um programa de renda para o campo, com participação não só de custos do governo (leia-se a sociedade como um todo) mas também do setor, essa atividade vai ficar cada vez mais exposta às novas incertezas de mercados, vindas tanto de problemas climáticos quanto de desafios externos.
Os problemas se repetem. O quarto mandato de Lula começa com uma série de entraves de origens interna e externa. Internamente, os juros elevados dificultam financiamentos, elevam as dívidas e provocam perda de renda, um problema que não é específico apenas do setor rural. Uma política de seguro rural, não apenas custeada pelos cofres públicos, diminuiria esses gargalos cíclicos da agropecuária.
A situação atual é agravada porque os preços das commodities estão em patamares menores, devido a uma recomposição de estoques mundiais nos anos recentes. A safra 2026-27, a que está sendo semeada, no entanto, ainda é uma incógnita. Embora o governo acredite em um novo recorde de 367 milhões de toneladas na produção de grãos, o fenômeno El Niño pode frustrar essa expectativa.
Se isso ocorrer, a situação financeira do campo ficará ainda mais degradada, uma vez que os custos de produção deste ano foram elevados. Para o governo, seria um complicador porque o custo da alimentação aumentaria ainda mais, pesando sobre toda a sociedade.
Externamente, os conflitos geopolíticos continuam, trazendo custos elevados para os insumos utilizados na agricultura. As guerras na Ucrânia e no Irã, previstas para um período curto pelos responsáveis pelos conflitos, se alongam, encarecendo fertilizantes, diesel e outros insumos essenciais no processo da produção agropecuária.
Do lado externo, a vitória de Lula deixa o cenário exportador mais tranquilo para o agronegócio. Flávio Bolsonaro, com certeza, seria forçado por Donald Trump a tomar alguma medida contra a China, principal parceira do Brasil nesse setor. Mesmo não sendo drástica, ela poderia trazer ruído nas negociações com o país asiático. O governo Lula também terá de enfrentar barreiras e novos entraves no mercado externo no próximo ano, principalmente os vindos da União Europeia (Folha)





