Dez desafios que o próximo governo terá no agronegócio

Setor é responsável por um quarto do PIB, mas enfrenta uma série de gargalos dentro e fora das propriedades.

Os números não deixam dúvidas sobre a importância do setor agropecuário na economia do país. Segundo o Cepea/CNA, o PIB do campo alcançou R$ 3,2 trilhões em 2025, sendo aproximadamente R$ 2,06 trilhões no ramo agrícola e R$ 1,14 trilhão no ramo pecuário. Isso significa que a participação do agronegócio na economia brasileira foi de 25,1% no ano passado.

O Brasil está entre os principais produtores mundiais dos produtos agropecuários mais consumidos no mundo, como soja, café, suco de laranja, açúcar, carne bovina e de frango. O peso do agro brasileiro é testemunhado não apenas dentro do país, mas também nos diversos destinos que importam esses itens.

Apesar da escala e da relevância internacional, o setor enfrenta uma série de desafios que exigem respostas do próximo governo, do endividamento rural aos gargalos de infraestrutura, passando pelo acesso ao crédito, pelo seguro rural e pela dependência de fertilizantes importados. Confira a seguir dez desafios que o próximo governo terá.

1 – Endividamento

A inadimplência na carteira de agronegócios do Banco do Brasil alcançou 6,27% ao final do primeiro semestre de 2026. O cenário leva à necessidade de uma solução efetiva para reduzir o grau de endividamento, acentuado por problemas climáticos, aumento de custos, encarecimento do crédito e pela perda de rentabilidade em algumas commodities.

“O verdadeiro avanço não está apenas em oferecer soluções para dívidas vencidas, mas em criar condições para que as perdas de uma safra não se transformem em crises financeiras nas safras seguintes”, observa David Télio, especialista em crédito rural e diretor de Novas Estruturas Financeiras da Terra Magna.

2 – Crédito

O desafio é reduzir juros para diminuir o peso do crédito nas contas do agro, já que o setor é muito dependente de financiamentos para girar a safra anualmente. Taxas de dois dígitos, mais custos cartorários, tornam o dinheiro caro. A saída passa pela redução das dívidas e dos riscos associados ao setor e pelo equilíbrio entre Plano Safra e modalidades de financiamentos privados.

“As margens achataram, só que os custos aumentaram muito. Os juros ‘matam’ o produtor. Ele está olhando o que pode ou não fazer. Não vai fazer compras, não vai fazer os investimentos necessários para passar pela crise e vai desativar ativos, vender fazendas, deixar de trabalhar em algumas coisas, vai deixar de operar com um maquinário novo”, afirma Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

3 – Seguro rural

Em tempos de mudanças climáticas, regulamentar o novo marco legal do seguro é uma das prioridades, além de garantir orçamento para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e implementar o Fundo Catástrofe para ampliar a área segurada com subvenção do governo, atualmente em torno de 3%.

“Quando ocorre uma quebra de safra, o problema rapidamente deixa de ser apenas produtivo e passa a ser financeiro. Quanto maior a parcela do risco organizada antes do evento, menor a possibilidade de toda a perda terminar em inadimplência, renegociação e necessidade de socorro posterior”, aponta Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e do Seguro Rural do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).

4 – Comércio internacional

Dar alternativas ao setor diante da turbulência no mercado exterior, marcado por imposição de tarifas, cotas e embargos, está entre as prioridades. A China já mostrou que vai reduzir a compra de soja futuramente. Como o Brasil vai se preparar para isso? A União Europeia exige o fim dos antimicrobianos nos produtos que vão para lá. O Brasil vai conseguir se ajustar a essa determinação?

“A política externa não pode ser contrária aos interesses do Brasil e de continuarmos competitivos no mercado internacional. Para que isso aconteça, é importante saber navegar nesse ambiente em que a geopolítica é cada vez mais desafiadora”, resume a diretora executiva da Vallya Agro, Larissa Wachholz.

5 – Política ambiental

Manter o ativo ambiental das áreas rurais e buscar formas de valorizá-lo e monetizá-lo é um desafio ante a pressão por novos desmatamentos e expansões de área. Aqui, o receio é com alterações mais profundas no Código Florestal que, além de permitir derrubada de vegetação nativa, impactarão na imagem o país e do setor como um todo.

“O Código Florestal já existe como política, mas ainda não como prática consolidada nos biomas. Há informação, há instrumentos, mas falta transformar esse acúmulo em decisões concretas que orientem o uso da terra e a proteção da vegetação nativa”, afirma Marcelo Elvira, secretário executivo do Observatório do Código Florestal.

6 – Rastreabilidade

Mercados têm exigido cada vez mais rastreabilidade dos produtos, principalmente a União Europeia. Em dezembro de 2026, entrará em vigor a Lei Antidesmatamento do bloco, que exigirá a comprovação, por parte do Brasil, de que soja, café, cacau, borracha natural, madeira, carne bovina e óleo de palma exportados para lá não saíram de áreas desmatadas após 2021.

No caso da carne bovina, será preciso implementar o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) plenamente até 2032 e avançar em monitoramento ambiental.

“Precisamos entender a rastreabilidade como uma infraestrutura de informação que pode servir para várias finalidades, desde controle sanitário, protocolos de mercado, garantias socioambientais, etc. Se você tem essa infraestrutura de informação, você consegue atrelar várias coisas em cima disso”, resume Fernando Sampaio, colíder da Força-Tarefa de Rastreabilidade e Transparência da Coalizão Brasil.

7 – Fertilizantes

A dependência de importação de fertilizantes segue como uma das principais carências do Brasil, que fica mais exposto a oscilações de preços e desabastecimento em situações como a atual, de guerras e conflitos em regiões produtoras. Implementar o Profert e dar tração ao Plano Nacional de Fertilizantes para reduzir o déficit interno podem ser alternativas pontuais do próximo governo.

“O setor de fertilizantes e o produto em si sempre foram tratados numa ótica de commodity, mas estamos vendo o mundo considerá-lo um insumo estratégico de soberania que toca não apenas no agro, mas também na transição energética”, afirma o diretor executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), Bernardo Silva.

8 – Logística

A falta de infraestrutura para armazenar a produção e os gargalos no transporte estão entre os desafios logísticos do agronegócio brasileiro. Com capacidade insuficiente para estocar a safra, muitos produtores precisam vender os grãos logo após a colheita, quando a oferta é maior, o que reduz a margem para escolher o melhor momento de comercialização.

“Precisamos que o próximo presidente olhe a logística e monte um plano, senão o agro brasileiro vai travar, não por falta de mercado lá fora, mas por falta de capacidade de escoar”, defende o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antonio da Luz.

9 – Bioinsumos

O mercado de bioinsumos alcançou R$ 6,2 bilhões em valor de mercado em 2025, crescimento de 15% em relação ao ano anterior. Porém, a demora na regulamentação da Lei de Bioinsumos (15.070/2024) tem gerado insegurança jurídica no setor. Empresas cogitam reduzir investimentos na área, e a Associação Brasileira de Bioinsumos (Abbins) anunciou em outubro o encerramento das atividades.

“Mais do que regulamentar um mercado em expansão, o Brasil tem agora a oportunidade de construir as bases para consolidar sua liderança global em bioinsumos, combinando ciência, inovação, segurança jurídica e a realidade da agricultura tropical”, informou a CropLife Brasil, entidade que representa a indústria do setor, em posicionamento encaminhado ao governo federal.

10 – Agregação de valor

O acordo entre Mercosul e União Europeia também coloca em pauta o desafio de diversificar as exportações do agronegócio brasileiro e reduzir a concentração em produtos vendidos como commodities. A aproximação entre os dois blocos pode favorecer esse movimento.

“O acordo pode abrir oportunidades para o Brasil desenvolver produtos agropecuários de maior valor agregado, com mais diversificação, processamento e denominações de origem. A experiência europeia nesse segmento também pode favorecer parcerias de investimento e joint ventures”, afirma o professor Marcos Jank, do Insper Global (Globo Rural)


Dívidas, crédito e seguro rural: As demandas do agro ao próximo presidente

Por Isadora Camargo

Agenda para 2027 reúne desafios com El Niño, recuperação financeira dos produtores, proteção contra perdas climáticas e investimentos em ciência, insumos e sustentabilidade.

Recuperar a capacidade de investimento dos produtores e ampliar a proteção contra perdas no campo estarão entre os desafios do próximo presidente da república a partir de 2027. A agenda do agronegócio combina questões financeiras, como endividamento e acesso ao crédito, com demandas estruturais por mão de obra, inovação e integração entre produção e conservação ambiental.

As demandas foram citadas por investidores, produtores e representantes do setor ao longo dos últimos dez meses de CNN Agro. Fontes ouvidas pelo blog durante o período de campanha também sinalizam que as recuperações judiciais, os altos valores de apólices de seguro fizeram com que produtores reduzissem investimentos e tornassem o seguro rural demanda latente para o próximo ano.

A dimensão do aperto financeiro também aparece nos indicadores de crédito rural. Segundo levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, com dados do Banco Central, a carteira problemática somava R$ 205 bilhões em agosto de 2026, equivalente a 23,8% do crédito rural este ano.

A FPA (Frente Parlamentar Agropecuária) calculou que o endividamento do agronegócio já ultrapassava R$ 1 trilhão.

No crédito rural destinado a pessoas físicas, a inadimplência passou de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, conforme o mesmo estudo do Cepea. O diagnóstico associa a deterioração ao encarecimento dos financiamentos, às mudanças nas fontes de recursos e à concentração das dificuldades em determinadas atividades e regiões.

O custo do financiamento ajuda a explicar a pressão sobre o caixa. Entre 2021 e 2025, a taxa média do crédito rural contratado por pessoas físicas subiu de 6,3% para 12,2% ao ano. Segundo o Cepea, a despesa anual estimada com juros passou de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões nesse intervalo.

Para a próxima gestão, o desafio será conciliar soluções para o passivo com condições de financiamento que permitam manter a produção e os investimentos.

Crédito e Plano Safra

O governo que assumir em janeiro encontrará o Plano Safra 2026/27 em execução e terá de preparar o programa do ciclo seguinte, de R$ 610 bilhões, de acordo com o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Desse valor, R$ 525,1 bilhões foram previstos para agricultura empresarial com fim de custeio, comercialização e investimentos na temporada atual.

Além do tamanho do Plano Safra, a discussão envolve juros, garantias exigidas pelos bancos e disponibilidade de dinheiro no calendário de plantio.

Seguro rural e clima

A proteção contra perdas também chega à agenda de 2027 com cobertura reduzida. Segundo o relatório oficial de monitoramento do PSR (Plano Plurianual, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural) beneficiou 42 mil produtores em 2025, versus 86,4 mil em 2024. A área coberta ficou em aproximadamente 3,2 milhões de hectares, com R$ 17,8 bilhões em capitais segurados, de acordo com o governo federal.

Em 2024, as operações apoiadas pelo programa haviam abrangido 7,27 milhões de hectares. O recorte diz respeito às apólices com subvenção federal, e não à totalidade dos seguros rurais contratados no país.

O relatório do governo registra que o orçamento aprovado para o PSR em 2025 era de cerca de R$ 1,06 bilhão, mas sofreu cortes de aproximadamente R$ 428 milhões. Ao final, foram aplicados R$ 565,4 milhões em subvenção.

A adaptação climática, por sua vez, ultrapassa o seguro. Envolve manejo do solo, gestão da água, diversificação produtiva e pesquisa de variedades mais resistentes.

No Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026, o Banco Central informou que instituições financeiras relataram impactos de secas, enchentes e tempestades sobre o crédito rural. O documento ressalva que a inadimplência do agro tem múltiplas causas e que não é possível atribuir uma parcela específica exclusivamente ao clima.

Mão de obra e remuneração

Atrair e qualificar trabalhadores é outra frente da agenda. A discussão passa pela remuneração e pelas condições de trabalho, ao mesmo tempo que a modernização exige profissionais preparados para operar máquinas, interpretar dados e utilizar novas tecnologias.

Como referência de rendimento, levantamento do Cepea e da CNA apontou média mensal real de R$ 2.972 no agronegócio no segundo trimestre de 2026, alta de 3,7% na comparação anual. O recorte considera atividades de insumos, produção primária, agroindústria e serviços. Trata-se de rendimento médio, não de salário mínimo ou piso da categoria.

A dificuldade, entretanto, inclui reter profissionais qualificados no campo em relação aos salários competitivos de setores econômicos mais concentrados nas áreas urbanas, como serviços, comércio e indústria.

Vulnerabilidades geopolíticas 

A dependência de matéria-prima de fora alerta para um ponto de vulnerabilidade no abastecimento de adubos. Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. A dependência expõe a produção às oscilações cambiais e às condições do comércio internacional.

Diversificar fornecedores, fortalecer a produção nacional e melhorar a eficiência no uso de nutrientes compõem a agenda. O avanço dos bioinsumos pode contribuir para sistemas produtivos mais eficientes, mas deve ser tratado conforme a função de cada produto e as necessidades de cada cultura.

Ao mesmo tempo, manter os parceiros comerciais e a balança de exportação com produtos agropecuários no topo do ranking vai exigir um olhar voltado às exigências ambientais e sanitárias de globais.

A integração ambiental reúne regularização das propriedades e adoção de práticas produtivas sustentáveis.

Na regularização, o desafio envolve a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a implementação dos Programas de Regularização Ambiental (PRA) a fim de torná-los documentos de padrão internacional (CNN)

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