Por Marcos Jank
Alimentos, energia e minerais dão ao País poder de barganha com as duas potências, se não houver alinhamento automático.
Política externa raramente pesa em eleições, no Brasil ou no mundo. Desta vez é diferente: e nesta eleição presidencial a relação com EUA e China entrou no centro da polarização. Donald Trump é admirado pela direita e rejeitado pela esquerda; a China desperta sentimentos inversos. Um lado acena com alinhamento a Washington, inclusive com a adesão ao “Escudo das Américas”; o outro privilegia Pequim e os Brics. Ambos partem do mesmo equívoco: supor que o Brasil precisa escolher um lado.
O Brasil não é um ator qualquer nessa disputa. É uma potência média de base regional e alcance global, um dos cinco países no top 10 mundial em território, população e PIB por paridade de poder de compra. Tem o maior saldo agroalimentar do planeta, a matriz energética mais limpa entre as grandes economias, está entre os dez maiores produtores de petróleo e detém reservas estratégicas de nióbio, lítio e terras raras.
Oferece segurança alimentar, energética, mineral e climática para o mundo – justamente o que as duas grandes potências buscam. Essa “essencialidade” das commodities brasileiras é um trunfo negociador que não deve ser desperdiçado por conta de afinidades ideológicas.
Os números mostram por que a escolha binária não faz sentido. Em 2025, a China comprou US$ 100 bilhões do Brasil, quase 30% das nossas exportações totais, com destaque para soja, petróleo, minério de ferro, carnes e celulose.
Os EUA compraram US$ 38 bilhões (11%), mas são o principal destino da nossa indústria de transformação, e o capital de controladores americanos no País soma US$ 233 bilhões, quase seis vezes o chinês. Um mercado não substitui o outro: as duas relações atendem a setores distintos.
A coexistência é possível. No governo Bolsonaro, de retórica por vezes hostil a Pequim, o comércio com a China bateu recordes, e a Huawei não foi excluída do 5G apesar da pressão americana. A Austrália, aliada militar dos EUA desde 1951, tem na China seu maior parceiro comercial. Mas o caso australiano é também um alerta: a partir de 2020, após atritos políticos, Pequim restringiu cerca de US$ 14 bilhões em compras de carvão, carnes, cevada, vinho e algodão. A retaliação foi seletiva e acabou revertida, mas teve custo.
O que conta não é a simpatia entre presidentes, mas o conteúdo dos compromissos. Facilitar comércio, atrair investimentos e cooperar em ciência sem excluir terceiros dificilmente provoca reação. Restringir fornecedores em setores sensíveis, com critérios técnicos, gera atritos localizados.
Já conceder exclusividade sobre minerais críticos, discriminar empresas pela nacionalidade ou aderir à contenção da China muda o cálculo de risco. Financiar com empresas americanas a extração e o processamento de minerais no Brasil é uma coisa; proibir contratualmente compradores ou sócios chineses é outra.
A régua vale nos dois sentidos: depender demais da China como compradora, fornecedora, financiadora e fonte de tecnologia também reduz nossa autonomia.
O debate ignora ainda que os interesses americanos nem sempre coincidem com os nossos. Brasil e EUA disputam os mesmos mercados compradores de soja, milho, algodão e carnes, e um acordão EUA-China com compromissos de compras agrícolas deslocaria exportadores brasileiros. Uma trégua entre as potências pode nos prejudicar tanto quanto a guerra comercial nos favorece temporariamente. Apostar na permanência da disputa é construir sobre areia.
O critério para julgar qualquer acordo deve ser o interesse brasileiro: mercados, investimento, produtividade, tecnologia e liberdade de escolha. Uma boa negociação com Washington pode render redução de tarifas, facilitação aduaneira e investimentos cruzados, mas anúncio político não é acesso efetivo.
Diante de cada proposta, cabe perguntar o que o Brasil oferece, o que recebe, em que prazo e como se verifica o cumprimento. Diversificar só vale se gerar acesso real e concorrência entre parceiros – trocar uma dependência por outra não é estratégia.
Seja qual for o resultado das urnas, o comércio com China e EUA deve continuar, com as duas potências acompanhando de perto as decisões estratégicas do Brasil, desde que se preservem os canais diplomáticos e se evitem medidas hostis. Nem ruptura, nem benefício automático. A melhor postura é uma equidistância prudente entre Washington e Pequim (Estadão)





