Agro pode se tornar moeda de troca no encontro de Xi Jinping e Donald Trump

Presidente do maior parceiro comercial do Brasil chega hoje aos EUA; possível acordo entre os dois líderes pode alterar rotas de exportação e impactar preços da soja brasileira

O presidente chines Xi Jinping desembarca nesta quarta-feira (23/9) nos Estados Unidos, quase dez anos depois de sua última visita. Entre temas como terras raras, inteligência artificial, minerais críticos… o encontro com Donald Trump coloca também o agronegócio, e principalmente a soja, entre temas na mesa de negociações.

O que for decidido essa semana terá o poder de redesenhar rotas de exportação, mexer com os preços nas bolsas internacionais e redefinir a participação da produção brasileira no comércio da oleaginosa.

A nova cúpula acontece quatro meses depois dos dois líderes se encontrarem em Pequim, que terminou sem grandes avanços comerciais na pauta agro.

O maior parceiro comercial do Brasil chega mais forte a esse novo encontro em solo norte-americano. Aumentar as compras de grãos pode ser a moeda de troca para a China que quer previsibilidade na relação econômica e um compromisso político mais sólido de Trump.

Ao criar barreiras comerciais para a China, Trump desagradou os agricultores norte-americanos que dependem do país asiático como cliente. Os produtos agrícolas representam uma fatia expressiva das exportações para o mercado chinês, antes da guerra comercial se acirrar, com faturamento de US$ 29 bilhões em 2024.

Brasil saiu ganhando na guerra comercial de EUA X China

Há exatos dez anos, a China comprava a soja brasileira e norte-americana em proporções praticamente iguais, 50% de cada. A relação começou a mudar durante o primeiro governo de Donald Trump. Com as retaliações comerciais os chineses passaram a olhar e adquirir mais soja brasileira.

Das quase 180 milhões de toneladas de soja produzidas pelo Brasil em 2025, cerca de 80 milhões de toneladas foram para a China, segundo dados da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais).

Dados divulgados pela Administração Geral de Alfândegas Chinesa mostram que, no acumulado de janeiro a agosto desse ano, as importações de soja dos EUA despencaram 34%. Enquanto as vendas de soja do Brasil cresceram 5% no mesmo período, alcançando 55,14 milhões de toneladas.

Existe um compromisso da China de importar 25 milhões de toneladas soja norte-americana por ano, até 2028. Entre janeiro e agosto os chineses compraram cerca de 12 milhões de toneladas e, com o avanço da colheita norte-americana, os embarques tendem a ganhar força na reta final do ano.

Raphael Bulascoschi, analista de inteligência de mercado da Stonex, explica que apesar da soja norte-americana ser mais cara a China continua comprando através da estatal SinoGrain, o que é lido pelo mercado como um sinal de que irá concluir o compromisso de compra de 25 milhões de toneladas.

“Por que a China segue comprando mesmo pagando mais caro pelo grão? Porque a China vê isso como uma porta de acesso fácil, um gesto de boa-fé, para discutir outras questões políticas, bem como para barganhar posições no xadrez geopolítico global”, reforça Bulascoschi.

Para a especialista em inteligência em mercado da Biond Agro, Yedda Monteiro, “se tiver alguma mudança tarifária que torne a soja norte-americana mais competitiva… isso sim seria o maior bônus para os Estados Unidos e mudaria completamente as regras”.

Ainda segundo Yedda “uma eventual negociação entre Washington e Pequim não deve representar uma substituição imediata da soja brasileira, mas pode sim alterar a distribuição das compras e afetar os nossos preços”.

Brasil precisa diversificar destinos e usos para a soja

André Nassar, presidente executivo da Abiove, deixa claro que um eventual entendimento entre EUA e China, que levaria ao aumento das compras, não é bom para o Brasil. E, independentemente dos rumos do encontro, o próprio governo chines já deixou claro que está investindo na sua produção interna de soja para reduzir a dependência internacional.

“Quando os EUA perderam espaço no comércio internacional, sem a China, passaram a estimular o consumo interno e a indústria de biocombustíveis, para absorver a oferta excedente. Precisamos aqui no Brasil gerar esse consumo, criar novos usos para a nossa produção de soja que segue crescendo”, completa Nassar.

Outros produtos do agro

Em maio, após a viagem á Pequim, Trump anunciou que o governo chinês teria se comprometido a ampliar em US$ 17 bilhões as compras de produtos do agro norte-americano. A informação nunca foi oficializada pelo governo chines.

Para que esse acordo avance, analistas avaliam que será imprescindível derrubar a sobretaxa de 10% imposta pela China e herdada na antiga guerra comercial, de 2025.

Um possível cenário de flexibilização ganhou força após declarações do representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, que em setembro abriu margem para novos incentivos comerciais, com sorgo e milho com possíveis isenções (CNN)


Encontro entre Trump e Xi afeta pouco o agronegócio do Brasil

Por Mauro Zafalon

  • Principais produtos disputados por brasileiros e americanos são soja e carnes
  • Produção desses dois itens nos Estados Unidos está bastante limitada

O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping nesta quinta-feira (24/9) não muda muita coisa para o agronegócio brasileiro. Os Estados Unidos vêm perdendo mercado na China nos anos recentes. Embora Trump seja um dos responsáveis por isso, o setor produtivo americano está ficando para trás em relação ao brasileiro.

Os Estados Unidos estacionaram na produção agropecuária na última década, e o Brasil avançou rapidamente. Mesmo que o representante chinês retire as taxas colocadas sobre os produtos agropecuários dos americanos, o Brasil vai continuar sendo o principal fornecedor da China.

Brasileiros e americanos concorrem basicamente com dois produtos no mercado chinês: soja e carnes. Se a China retirar a taxa de 10% sobre a soja dos Estados Unidos, o Brasil poderá perder espaço neste momento em que os americanos estão próximos da colheita, mas o volume importado pela China aumentou muito nos últimos anos, e tem de ser abastecido em grande parte pelo Brasil.

Os americanos continuam estacionados na produção de 120 milhões de toneladas de soja por safra, e o Brasil já chega aos 180 milhões. A China aumenta as compras e as importações deverão atingir 115 milhões de toneladas neste ano. Uma recomposição de compra de soja americana pelos chineses elevaria os preços em Chicago, influenciando também o mercado brasileiro, que perderia, no entanto, a pressão dos prêmios nos portos.

No setor de carnes, a liberação de mais frigoríficos dos Estados Unidos pela China aumenta o potencial de vendas dos americanos. A capacidade de exportação deles, no entanto, é limitada nesse setor. A produção de carne bovina cai, uma vez que os Estados Unidos estão com o menor rebanho desde a década de 1950. Se houver uma expansão das vendas externas dessa proteína pelos americanos, eles vão ter de buscar mais carne bovina no Brasil.

As exportações de carne de frango dos Estados Unidos para a China também sofrem restrições. Só estão liberados os estados sem gripe aviária, uma doença que o país tem muita dificuldade em controlar. Só neste mês já são 16 novos casos em 4 estados, e as exportações só podem ocorrer 90 dias após a desinfecção dos locais afetados. Todo o território americano já foi afetado pela doença e desde a nova chegada dela ao país, em 2022, já foram sacrificadas 209 milhões de aves.

O espaço para a colocação de carne de frango na China diminuiu, uma vez que o país reestruturou sua produção após a ocorrência da influenza aviária de 2017. De grande importador, o país vem elevando as exportações ano a ano.

No setor de suínos, assim como já ocorre com o Brasil, as exportações americanas vão encontrar dificuldades. Os chineses refizeram seu potencial de produção depois da peste suína africana e, agora, estão abatendo matrizes para diminuir o excesso de oferta interna.

Brasil e Estados Unidos disputam também o mercado chinês de algodão, setor que os brasileiros assumiram a liderança mundial de exportação, desbancando os americanos. A retirada da taxa pelos chineses pode tornar o produto americano mais competitivo, mas a regularidade de entrega e os preços da fibra brasileira ainda garantem mercado.

Os chineses abriram mercado para os brasileiros no milho e no sorgo, outros dois produtos também disputados pelos americanos, mas as importações chinesas de cereais, principalmente as de milho, têm diminuído. Além de soja, carnes e algodão, os chineses são dependentes de celulose e açúcar —o Brasil é líder mundial na produção desses produtos, e os americanos têm presença menor no mercado externo.

O governo Trump tem se mostrado altamente desfavorável para os produtores americanos e bastante favorável aos brasileiros. Em 2017, quando assumiu o primeiro mandato, as exportações americanas para os chineses no setor de agronegócio eram de US$ 20 bilhões; caíram para US$ 9,2 bilhões no ano seguinte e voltaram a se recuperar no governo de Joe Biden, atingindo US$ 38 bilhões em 2022. No ano passado, recuaram para US$ 8,3 bilhões.

As exportações chinesas para os americanos neste setor, praticamente voltadas para produtos hortícolas, frutas processadas e chá, estão estáveis em US$ 4,5 bilhões nos últimos anos (Folha)

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