Cenário é desafiador e vai exigir ainda mais planejamento para alcançar boa produtividade e rentabilidade.
Desde 2020, Tupanciretã, no noroeste do Rio Grande do Sul, é um dos municípios gaúchos que mais enfrentou prejuízos devido a problemas climáticos. Nesse período, a prefeitura emitiu seis decretos de emergência, sendo cinco ligados às secas e um devido às chuvas intensas. As perdas causadas nas lavouras provocaram uma “bola de neve financeira” nas contas do produtor Michel Rodrigues.
Em 2021, após uma primeira perda de safra em sua propriedade de 1.500 hectares, onde planta soja e cria gado de corte, a estratégia inicial foi utilizar a reserva própria de caixa e buscar financiamentos em diferentes instituições bancárias.
Conforme os nomes dos titulares ficavam negativados pelo não pagamento dos empréstimos, as novas operações de crédito eram abertas no CPF de outros integrantes da família.
Assim, três gerações – Michel, seu pai e sua filha – acabaram com restrições para buscar financiamentos. “Tudo isso porque não teve nenhum ano bom no meio para começarmos a equilibrar as contas”, lembra o produtor.
Sem crédito nos bancos e com as medidas de socorro travadas por conta de entraves burocráticos, os planos para a próxima safra de verão focam a sobrevivência do negócio. O planejamento inclui a compra de insumos direto com cooperativas via operações de barter ou parcelamento, a redução da área de soja e o corte de custos com adubação.
O relato do produtor gaúcho é um exemplo de como a combinação dos impactos gerados por fatores climáticos, mercadológicos e financeiros pressionou o fluxo de caixa dos agricultores brasileiros nos últimos anos, mesmo com volumes inéditos de produção, e deve gerar reflexos também no ciclo 2026/27.
A nova safra será cultivada em um ambiente de elevado endividamento, inadimplência recorde, custos elevados, preços de commodities acomodados, piora na relação de troca de grãos por insumos, restrição de crédito e escassez de recursos para o seguro rural. O cenário é desafiador e vai exigir ainda mais planejamento para alcançar boa produtividade e rentabilidade.
Dívidas acumuladas travam financiamento da próxima safra
Em sua propriedade de 840 hectares em Caçapava do Sul (RS) — dos quais 710 são arrendados —, o produtor Diego Mariani também enfrenta os impactos de cinco anos de adversidades climáticas. O caixa esgotou, e a crise financeira afetou sua capacidade de pagamento.
Sem conseguir renegociar os passivos antigos, o crédito bancário para o ciclo 2026/27 travou. “Buscamos financiamentos em bancos e na cooperativa, mas conseguimos saldar apenas 30%. Quanto às instituições financeiras, não vamos conseguir acessar praticamente nada”, afirma.
Para viabilizar os insumos nas últimas safras, a saída foi recorrer ao sistema de barter com a Coocal, a Cotrisul, trocando sementes e fertilizantes por grãos futuros.
Agora, a meta é enxugar o orçamento. “A estratégia é buscar o famoso ‘feijão com arroz’. Fazer a lavoura mais enxuta possível, gastando o mínimo para tentar tirar uma produção média, sem empregar altas tecnologias”, detalha.
Com 2.500 associados e um faturamento de R$ 2 bilhões em 2025, a Cotrisul absorve os impactos de cinco anos de secas e enchentes no Rio Grande do Sul.
No pátio de sua maior unidade, em Cachoeira do Sul, a reportagem encontrou quase 20 máquinas agrícolas entregues por produtores rurais para saldar dívidas com a cooperativa. “Esse é o maior sinal de que as coisas não estão bem. Quando a situação está boa, esse pátio está vazio”, declara o presidente da Cotrisul, Gilberto Dickel da Fontoura.
Como o sistema bancário não supre toda a demanda por financiamento, a cooperativa passou a fornecer crédito e insumos. No entanto, com as perdas na colheita, os associados acumularam dívidas. Segundo Fontoura, para tentar atenuar as dificuldades do momento, a Cotrisul oferece consultoria financeira e orientação técnica focada na redução de custos.
Margens apertadas no campo
As margens de lucro no campo também foram afetadas por um longo período de juros elevados na economia nacional e pelo incremento contínuo dos custos, puxados pela alta dos insumos, como fertilizantes e defensivos químicos importados — situação agravada por duas guerras simultâneas, na Ucrânia e no Oriente Médio. Produtores também relatam efeitos da inflação no arrendamento de terras e na prestação de serviços.
A “ressaca” gerada pela redução da rentabilidade se transformou em aumento de inadimplência no crédito rural, que bateu recorde de 8,8% em julho de 2026 entre pessoas físicas, e em pedidos de recuperação judicial, que chegaram a quase 2.000 solicitações em 2025 entre produtores e empresas do agronegócio.
Com dívidas crescentes dentro e fora dos bancos, o crédito ficou ainda mais caro e restrito em 2026. O cenário é agravado pela perspectiva de ocorrência de um El Niño de intensidade muito forte, com a possibilidade de causar veranicos na fase de enchimento de grãos da safra do Centro-Oeste e chuvas acima da média na Região Sul.
A redução no uso de insumos é uma das poucas saídas encontradas para diminuir custos em um contexto de pressão financeira. A Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) indica que a estratégia, que já foi usada na segunda safra de milho 2025/26, deve ser replicada em 2026/27.
O custo de produção da soja aumentou cerca de cinco sacas por hectare, puxado justamente pela alta dos fertilizantes e do óleo diesel. Em algumas regiões, o gasto chegará a até 75 sacas por hectare, a depender da tecnologia aplicada, acima da média de produtividade do estado, que foi de 65 sacas por hectare em 2025/26.
Em busca de preços melhores, a Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo) antecipou as compras de insumos para a safra de verão e precisou alugar depósitos temporários para os produtos, que chegaram a tempo. Mais de 60% dos fertilizantes foram comercializados com os cooperados em abril.
Mesmo assim, a próxima safra vai exigir um planejamento fino e ainda mais eficiência do agricultor do sudoeste goiano.
“O produtor tem que estar com o custo na mão porque qualquer desvio inviabiliza a atividade”, considera o presidente-executivo da cooperativa, Dourivan Cruvinel.
Nova safra exige cortes de custos diante do arrendamento elevado
A conta é ainda mais apertada para quem é arrendatário e paga até 20 sacas de soja por hectare, situação de 40% dos quase 13.000 cooperados, que plantam 1 milhão de hectares de soja em 20 municípios da região.
O arrendamento mais caro já causou a migração de pequenos produtores para novas fronteiras agrícolas, como o noroeste de Goiás, o sul de Tocantins e o Piauí, movimento que tem aumentado a concentração de terras nas mãos de grandes agricultores.
A dificuldade agora é encontrar espaço para cortar os custos. Cruvinel acredita na redução do uso de fertilizantes, sem prejuízos na produção em áreas consolidadas e menos expostas ao estresse climático do El Niño no sudoeste goiano.
“A tendência é o produtor adubar menos nessa safra, economizar o que puder em mão de obra, para ter rendimento, conseguir cobrir os custos e sobreviver da atividade. O que economizar agora vai ser a sobrevivência do produtor lá depois da colheita”, destaca.
“O produtor não é aventureiro, é um profissional. Os números da safra estão bonitos, mas o produtor está arrebentado” Jonny Chaparini, produtor em Goiás
O problema é que justamente o mecanismo que poderia reduzir parte dos riscos no campo também perdeu força. Metade do orçamento do seguro rural foi bloqueada sem perspectiva de liberação. O mercado prevê recuo para apenas 2,7% da área agrícola brasileira com proteção subsidiada, ou seja, cerca de 3 milhões de hectares.
Em seu auge, em 2021, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) atendeu 14 milhões de hectares, o equivalente a 16,3% da área plantada naquele ano.
“Se houver problema na produção por conta da falta de vontade do governo de assumir o risco, o cenário será de inflação de alimentos. A conta pode ser mais cara por esse desestímulo de plantar e a possível queda de produção com o El Niño”, admite Guilherme Campos, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura.
Alta dos juros transforma dívida em peso
Parte do endividamento atual no campo é oriunda do alto nível de alavancagem dos produtores e do descasamento entre a receita e as despesas contratadas no auge da bonança, como a compra de máquinas, que disparou entre 2020 e 2023, a aquisição de bens e imóveis, inclusive alheios à atividade produtiva, e a expansão de áreas arrendadas a valores altos.
O tamanho do “buraco” na safra 2026/27 é explicado pelas apostas em um mercado de commodities que ficou volátil e instável nos últimos anos.
“No boom da soja, os produtores aumentaram os investimentos, compraram máquinas e fizeram novos arrendamentos com valores elevados atrelados à soja, que estava cotada perto de R$ 200 a saca. Quando a soja voltou para a realidade, a dívida e as obrigações já contratadas estavam comprometidas”, descreve Cláudio Malinski, diretor técnico da Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF).
Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), ressalta que o setor agropecuário é ciclicamente sujeito a oscilações de preços e necessidade de caixa. No entanto, a escalada de juros comprimiu as margens de lucro dos produtores de forma inédita.
“O produtor, neste ano, não tem problema de lavoura nem de preço, ele tem problema de juros. Não é que o preço do grão esteja baixo, mas ele precisa de um valor estratosférico para essa conta fechar”, pontua. Com a taxa Selic em dois dígitos por longos períodos, o custo financeiro superou a margem líquida média das propriedades — que costuma girar entre 6% e 7% —, inviabilizando o pagamento das dívidas.
Essa pressão afeta o país como um todo, mas atinge o Rio Grande do Sul com maior gravidade. Em consequência de sucessivas secas e enchentes, o estado tem a maior carteira de crédito estressada do Brasil: de um total de R$ 111 bilhões, os financiamentos em atraso atingem 38%, ou R$ 42 bilhões.
No entanto, ao mesmo tempo, ostenta a menor inadimplência do agro nacional. “O produtor gaúcho vem prorrogando, renegociando para se manter adimplente. Ao invés de deixar estourar, ele prorroga na expectativa de que ali na frente vai acontecer alguma coisa”, declara o economista.
El Niño ameaça produtividade
Além dos fatores financeiros, outro elemento que faz desta nova safra uma das mais desafiadoras dos últimos anos é o clima. Em Mato Grosso, estado que lidera a produção nacional de grãos, o El Niño está no topo das preocupações.
“Pelas notícias que estou acompanhando, esse pode ser um fenômeno ainda mais forte do que aquele que atingiu nossa região em 2015. Se as projeções se concretizarem, teremos uma perda de produtividade muito grande”, diz Marcos Feldhaus, que cultiva 30.000 hectares em Sinop, Cláudia, União do Sul, Tabaporã e Marcelândia.
Para 2026/27, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima uma área praticamente estável para a soja em relação ao ciclo anterior, podendo alcançar 13,04 milhões de hectares.
Por outro lado, as previsões iniciais do instituto apontam para uma queda de 5% na produção, estimada em 48,88 milhões de toneladas. Previsão essa que pode mudar a depender da intensidade do fenômeno e ainda do comportamento e irregularidade das chuvas ao longo do desenvolvimento das lavouras.
Nesse ambiente de uma possível safra menor, os produtores mato-grossenses ainda precisam lidar com o endividamento. Segundo levantamento do Imea, de janeiro a abril deste ano, o crédito problemático (que reúne operações inadimplentes, renegociadas e prorrogadas) chegou a R$ 21,79 bilhões em Mato Grosso. O montante representa 18,22% de toda a carteira de crédito rural do estado, o maior percentual da série histórica. Em 2022, esse índice era de 2,08%.
Agro bate recordes, mas produtor está endividado
O receio relatado pela maior parte dos produtores ouvidos pela reportagem contrasta com os bons resultados obtidos pelo setor no último ano. Em 2025, o Valor Adicionado da Agropecuária ao Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 11,7%, para R$ 775,3 bilhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil ainda alcançou feitos históricos nas exportações do agro.
Parte desse desempenho teve relação com a safra de soja. Nas últimas cinco temporadas, o país bateu recorde de produção em quatro delas. O último foi em 2025/26, quando colheu 180,46 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O faturamento com as vendas do setor chegou a um recorde de US$ 169,2 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura. O valor é 3% acima do alcançado no ano anterior e representou 48,5% do total exportado pelo Brasil.
A oleaginosa ainda deve contribuir para um volume de grãos inédito no país em 2025/26, de 360,8 milhões de toneladas. Para a lavoura que será plantada em setembro, a expectativa é de um novo recorde para a soja, de 186 milhões de toneladas, conforme projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
E a despeito do cenário em que muitos produtores estão no vermelho, Marcos Feldhaus revela que foi possível até ampliar os investimentos nos últimos anos. Segundo ele, graças à estratégia adotada a partir do bom momento de preços das commodities nos anos seguintes à pandemia.
“Comprei maquinário novo e aproveitei o preço baixo de algumas terras para fazer aquisições nos últimos três anos. Costumo pensar que os ciclos de alta [no preço da soja] são momento de construir o caixa. E quando esse ciclo se inverte, é hora de fazer aquisições.”
Ele revela que conseguiu reduzir em 8% os custos com a preparação da nova safra, graças, principalmente, a oportunidades de preços melhores que os do ano passado em adubos e sementes. No cálculo do Imea, a despesa dos produtores mato-grossenses será 0,09% maior em 2026/27.
O desafio de uma nova safra
Na região do Matopiba, confluência dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, os anos marcados pela presença do El Niño trazem períodos de maior restrição de chuvas. Na última safra com um fenômeno de forte intensidade na região, em 2015/16, o Matopiba produziu 6,78 milhões de toneladas de soja, um desempenho muito aquém dos 11,48 milhões produzidas na temporada imediatamente anterior.
O produtor Karl Milla, que cultiva soja nos municípios de Baixa Grande do Ribeiro e Uruçuí, no Piauí, sentiu no bolso os efeitos do fenômeno. “Na safra 2015/16, o El Niño pegou as áreas do Nordeste em cheio. Naquela época tivemos a pior safra da história, quando produzimos, na média, 17 sacas por hectare, um resultado muito abaixo do que a gente esperava.”
Atualmente, a produtividade nas fazendas de Milla é de 60 sacas por hectare. O El Niño assusta, ele confessa, porém, a consolidação de suas áreas o deixa mais confiante para enfrentar os desafios que o fenômeno promete trazer.
“Existe uma chance desta safra [2026/27] ter um regime de chuva parecido com o que vimos lá em 2015/16. A grande diferença é que hoje as nossas áreas são muito mais preparadas, com um aporte de palhada e fertilidade maior. Mesmo que aconteça uma safra muito parecida com a de 2015/16 do ponto de vista de chuva, acredito que quase todos os agricultores da região estão muito mais preparados para enfrentar a situação”, frisa.
De olho no clima
Pedro Crispim, que cultiva 500 hectares em Goiatins (TO), relata um aumento de 20% nos custos no ciclo 2026/27, com destaque para as despesas com fertilizantes e combustíveis. Para tentar baixar a conta final, ele já travou 80% dos gastos com a nova safra.
O produtor também aposta em uma postura mais cautelosa quando o assunto é recursos. “Eu mesmo faço o planejamento financeiro e tento não depender de capital externo. Já tentei contratar o crédito para custeio, mas entendi que era risco para mim.
Você coloca muito dinheiro na terra para colher e lá na frente você fica à mercê de uma logística que inflaciona em plena colheita, ou do preço do petróleo que explode. Além disso, quando se contrata o crédito com esse juro lá em cima, o seu lucro vai todo embora. É por isso que eu não utilizo capital externo”, argumenta.
Crispim planta soja em Tocantins desde 2021 e, portanto, não foi afetado pelas últimas safras impactadas pelo El Niño na região. Para tentar se proteger dos possíveis efeitos do fenômeno, ele irá investir em sementes mais tolerantes à seca, ainda que isso implique em queda de rendimento no campo.
“Vamos buscar variedades que nos deem uma segurança maior para o caso de um estresse severo, como, ficar até 30 dias sem chuvas. Por outro lado, dependendo da tecnologia que escolhermos, isso significa produzir 20% a menos.”
O receio com o clima é tamanho que ele avalia a possibilidade de não utilizar talhões que inicialmente seriam cultivados com soja. “Ainda estamos analisando se vamos usar essas áreas para o grão, ou talvez fazer a integração com a pecuária, que é uma atividade mais rústica e menos arriscada.”
“Costumo pensar que os ciclos de alta [no preço da soja] são momento de construir o caixa. E quando esse ciclo se inverte, é hora de fazer aquisições” Marcos Feldhaus, produtor em Mato Grosso
Máquinas que fazem a diferença
A enxada nas mãos de Jonny Chaparini é apenas um símbolo da dificuldade que os agricultores enfrentam quando não têm todas as máquinas necessárias para a atividade. Ele produz soja e milho em quase 1.500 hectares em Montividiu e Montes Claros de Goiás, no sudoeste do estado. Atualmente, tem tratores, plantadeira, colheitadeira e outros implementos.
Mas nem sempre foi assim. A decisão de investir exigiu sacrifício e custos que ainda pesam. Em 2019, cogitou comprar uma colheitadeira, que custava R$ 950.000, mas recuou. Em 2021, não teve escapatória. Financiou a compra da máquina, que havia triplicado de preço, para R$ 2,7 milhões.
A decisão de fazer o investimento veio da necessidade de ter autonomia nos trabalhos de campo, não ser “engolido” por produtores maiores e se manter no mercado.
Com a queda no preço da soja, que saiu de R$ 167 para cerca de R$ 110 a saca desde então, e com gastos adicionais gerados pelo replantio de áreas na safra 2023/24, prejudicada pelo clima, ele precisou renegociar a dívida no banco. Teve fôlego para continuar na atividade, mas viu as colheitas renderem menos que o esperado e os custos aumentarem ainda mais.
Chaparini não cogita tirar o pé do acelerador. Precisa produzir mais para ter volume e pagar as parcelas. “O preço da soja recuou, mas o maquinário e os fertilizantes continuam lá em cima. Temos que aumentar a produtividade para sanar os compromissos.” Para o plantio em outubro, vai reforçar a adubação e confiar no clima.
O olhar dele está fixo no céu, à espera da chuva no tempo certo e na quantidade ideal. Além dos nutrientes que vai colocar no solo, ingredientes como gestão, eficiência e criatividade também estão na lista adicional para a safra 2026/27. “O agricultor é perseverante e vai continuar tentando. Nada como um ano após o outro.”
Ele reclama da falta de previsibilidade do mercado e de políticas de proteção de preços ao setor para ter mais segurança para plantar. “O produtor não é aventureiro, é um profissional. Ele viabiliza seu negócio para ter sucesso, mas esse sucesso é consumido por falta de plano de governo. Os números da safra estão bonitos, mas o produtor está arrebentado”, argumenta.
Fertilizantes orgânicos complementam adubação em fazenda de Goiás
Na Fazenda Santa Cândida, em (GO), os fertilizantes químicos e minerais que vão adubar a terra para o plantio de soja em 2.500 hectares em outubro já chegaram e estão no barracão. Mas o olho da produtora Renata Ferguson brilha mesmo ao mostrar as fileiras de compostos orgânicos produzidos na propriedade e que complementam a fertilização do solo para a safra há cinco anos.
“O produtor está olhando para dentro de casa, vendo o que tem de disponibilidade de recurso no solo e onde pode economizar” Thamires Nitrini, produtora em Rio Verde (GO)
A mistura de cama de frango, esterco bovino, bagaço de cana e dejetos suínos passa por uma fermentação natural enquanto aguarda para ser espalhada pela propriedade. São 300 toneladas por hectare.
A fazenda tem três certificações de produção sustentável. Além dos bioinsumos, Renata usa plantas de cobertura, como braquiária, para aumentar a disponibilidade de palhada. A técnica ajuda a reter umidade e a diminuir a temperatura no solo para suportar o estresse hídrico.
Nos próximos anos, a intenção da agricultora é usar somente os adubos biológicos, mas ela não pretende reduzir investimentos nesta safra. As práticas, tidas como “lições de casa para tratar o maior bem que é o solo”, já deram resultado para a produtora.
Ela recebe créditos de carbono e prêmios financeiros pelos grãos cultivados nessas áreas, que são rastreados. Agora, a expectativa é que as técnicas “passem no teste” do possível estresse climático do El Niño e ajudem ainda mais em uma safra novamente desafiadora.
Ela pondera que, com o desafio climático, todo preparo é pouco. A safra 2025/26 foi marcada por atraso na janela de plantio e colheita por conta das chuvas. O que Renata não esperava era ver chuva em 5 de agosto no Cerrado goiano, o que a fez interromper os trabalhos de campo. “Nunca vi uma coisa dessas. Temos que sempre estar com o pé atrás, saber a hora certa de plantar.”
Acesso ao crédito
O acesso ao crédito mais barato e na hora certa também é determinante nesse cenário de margens mais estreitas, ainda mais para produtores de menor porte.
Thamires Nitrini planta 133 hectares de soja em Rio Verde (GO) e conseguiu custeio com juros controlados pelo Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). Ela usou parte dos recursos para antecipar a compra de insumos com pagamento à vista e conseguiu descontos, o que ajudará a equilibrar as contas.
A produtora também cultiva plantas de cobertura, como braquiária e crotalária, após a colheita da soja no verão para gerar camada de palhada na lavoura. O método ajuda a manter a umidade e a presença de nutrientes no solo e a diminuir a quantidade de ervas daninhas.
Para o plantio da soja no fim de outubro, vai economizar na aplicação de boro e confiar na reserva acumulada nos últimos anos para alcançar o teto produtivo da área, de 75 sacas por hectare. Ela também já comercializou 30% da produção de forma antecipada com a cooperativa Comigo para travar insumos químicos.
“O produtor está mais cético, olhando para dentro de casa, vendo o que tem de disponibilidade de recurso no solo e onde pode economizar. Não é ano para fazer testes, não dá para arriscar”, salienta.
Como tempos de crise evidenciam oportunidades e mostram onde estão os verdadeiros gargalos, o agropecuarista Pedro de Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), chama atenção para a necessidade de novos investimentos em infraestrutura, transporte e armazenagem no país.
Na avaliação dele, essas lacunas drenam lucros do setor e ficam mais perceptíveis em épocas assim, em que cada real faz diferença no bolso do agricultor. “Aquelas filas de caminhões representam desperdício. O investimento hoje é essencial para aumentar a competitividade. Um real ou mais por saco faz diferença”, ressalta.
Atenção ao solo
A presença do El Niño durante o plantio da safra 2026/27 vai exigir atenção redobrada com o solo
A presença do El Niño durante o plantio da safra 2026/27 vai exigir dos produtores atenção redobrada com os tratos culturais.
Felipe Schwerz, professor e membro do Grupo de Pesquisa em Produção e Melhoramento Genético de Soja da Universidade Federal de Lavras (UFLA), explica que a estratégia ideal para preservar ao máximo a produtividade vai depender da região, considerando os efeitos provocados pelo fenômeno. A Embrapa também lista recomendações que podem auxiliar agricultores de norte a sul do país.
Veja orientações de pesquisadores:
- No Sul, aproveitar os momentos de tempo firme para avançar com a semeadura;
- Escolher sementes com foco em proteção contra doenças fúngicas em áreas com possibilidade de mais chuvas;
- Em regiões com previsão de maior restrição hídrica, evitar uso de sementes que prometem altas produtividades, pois são mais sensíveis ao clima extremo;
- Manter boa palhada para proteger o solo e evitar, em caso de erosão, perda de nutrientes;
- Fazer análise do solo para averiguar se está compactado. Se estiver, fazer escarificação ou uma subsolagem;
- No Centro-Norte, evitar fazer a semeadura no pó para reduzir as chances de um replantio em caso de falhas da chuva;
- Investir em plantio direto e uso de plantas de cobertura com raízes mais alongadas para facilitar o armazenamento de água no solo;
- Após a análise de solo, fazer a adubação apenas dos insumos necessários;
- Realizar a semeadura de maneira escalonada, o que pode amenizar prejuízos em caso de seca ou excesso de chuva.
Integração Estratégica
Produtor precisará prestar ainda mais atenção às contas na safra 2026/27
Com margens mais apertadas, o produtor precisará prestar ainda mais atenção às contas na safra 2026/27. A recomendação principal é reduzir custos, sintetiza Ademiro Vian, consultor em crédito rural e ex-diretor da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). O processo financeiro, frisa, vai exigir mais governança e profissionalismo.
Outra recomendação, para esta e as próximas safras, é atuar de forma integrada em cadeia, com fornecedores e clientes, para mitigar riscos na produção e obter condições especiais na negociação de insumos e na comercialização.
Veja a seguir mais dicas de especialistas:
- Ter metas claras de aumento de produtividade e planejamento de custos;
- Elaborar orçamento e análise da viabilidade das condições de financiamento;
- Não tomar recursos a juros caros demais;
- Postergar investimentos em máquinas e equipamentos;
- Avaliar investimentos que reduzem custos, como energia fotovoltaica;
- Prestar atenção ao dólar e a travas de preços;
- Mirar parcerias com indústrias ou participar de cooperativas;
- Estar integrado a alguma cadeia produtiva;
- Conter gastos fora da atividade (Globo Rural)




