Produtores rurais apostam na conservação da natureza para melhorar a produção e se adaptar às mudanças climáticas

Cada vez mais produtores rurais brasileiros apostam em práticas que trabalham com a natureza, integrando árvores às lavouras, protegendo o solo e recuperando fontes de água. O movimento, impulsionado pela necessidade de enfrentar eventos climáticos extremos, já começa a repercutir também no mercado financeiro. Estudo conduzido pela Capital for Climate em parceria com a Deloitte Brasil mostra que iniciativas classificadas como Soluções Baseadas na Natureza (SBN) atraem investidores e apresentam projeção de retorno médio de 21,4% em cerca de dez anos para fundos de private equity e venture capital, além de estimativa de 12% em seis anos em instrumentos de crédito privado.
O avanço desse modelo produtivo ocorre em resposta a um cenário global de pressão ambiental crescente. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), práticas agrícolas insustentáveis estão entre os principais fatores associados à perda de biodiversidade, ao agravamento das mudanças climáticas e ao aumento da poluição no planeta. Diante desse contexto, as SBN surgem como uma alternativa capaz de gerar um “triplo benefício”: proteger o meio ambiente, fortalecer a economia e melhorar a qualidade de vida das populações.
“Na prática, as SBN já fazem parte do cotidiano de parte dos produtores rurais brasileiros. Sistemas agroflorestais — que integram produção agrícola e floresta —, cobertura permanente do solo, recuperação de nascentes e manejo ecológico da lavoura ajudam a reduzir a erosão, conservar recursos hídricos e aumentar a capacidade das propriedades de enfrentar eventos climáticos extremos”, explica o gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Guilherme Karam
Os impactos positivos da natureza nesse processo são mensuráveis. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), uma única árvore com cerca de 10 metros de altura pode liberar até 300 litros de água por dia para a atmosfera, contribuindo para a formação de chuvas e para o equilíbrio climático — um exemplo de como processos naturais podem atuar diretamente na regulação do clima e na segurança hídrica.
Produção sustentávelEntre os produtores que já incorporam as SBN no cotidiano está a agricultora familiar Luciane Zielinski Grupinzaki, que cultiva hortaliças em uma propriedade de seis hectares, em São José dos Pinhais (PR). Metade da área é destinada à produção agrícola, enquanto a outra permanece preservada, com mata nativa, árvores frutíferas e diversas nascentes protegidas por cobertura vegetal.
Na produção, Luciane adotou o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), baseado em três princípios: não revolvimento do solo, cobertura permanente e rotação de culturas. “Quando cubro o solo, estou mantendo os nutrientes e água. Se estivesse descoberto, a chuva levaria tudo embora”, explica. Segundo ela, a medida praticamente eliminou a erosão, reduziu a incidência de pragas e doenças e trouxe ganhos econômicos. “Tivemos cerca de 50% de redução nos custos com mão de obra e insumos”, afirma.
Os benefícios também aparecem na adaptação às mudanças climáticas. Mesmo em períodos de chuvas intensas, a perda de solo diminuiu, enquanto, nas estiagens, o terreno mantém maior umidade, reduzindo a necessidade de irrigação. 
Para Karam, práticas como o plantio direto contribuem para a proteção dos rios da região. “A turbidez elevada ocorre quando partículas de solo exposto são carreadas pela chuva para os cursos d’água. Sistemas agrícolas sustentáveis reduzem essa perda e melhoram a qualidade da água disponível para a população”, explica.
AgroflorestaOutro exemplo vem do produtor rural Leonardo Sena, também da região de Luciane, na bacia do Rio Miringuava. Ele adotou o sistema agroflorestal — modelo que integra árvores, cultivos agrícolas e biodiversidade na mesma área produtiva. Após enfrentar uma forte seca em 2019, decidiu implantar o sistema acima da mata ciliar da propriedade, buscando recuperar o equilíbrio hídrico local sem abrir mão da produção agrícola.
“A árvore é uma fábrica de muitas coisas. Além de abrigar fauna e flora, uma árvore adulta pode bombear dezenas de litros de água por dia. Quando a gente planta uma floresta, está ajudando a produzir chuva”, afirma. Segundo o produtor, o aumento da cobertura vegetal ultrapassa os limites da fazenda, contribuindo para a conservação da água e beneficiando propriedades vizinhas e toda a região.
Educação ambientalTambém na mesma bacia hidrográfica, a produtora Alexandra Leschnhak ampliou o uso das SBN ao integrar produção rural, turismo e educação ambiental. No Rancho Caminho das Águas, estudantes participam de vivências que incluem trilhas ecológicas, plantio de mudas, compostagem, atividades em biofábrica, manejo do solo, visita ao pomar com abelhas sem ferrão, educação sobre fontes de energia renovável, alimentação saudável e contato direto com rios e ecossistemas naturais.
Segundo Alexandra, a própria estrutura do rancho foi pensada como uma aplicação prática das soluções baseadas na natureza. “A biofábrica, o pomar com abelhas nativas e o manejo do solo são ferramentas educativas naturais. Elas preservam os recursos da propriedade enquanto ensinam educação ambiental”, explica. Além do impacto pedagógico, as práticas fortalecem a sustentabilidade econômica do empreendimento. “Essas práticas reduzem custos de produção e reforçam nosso propósito de uma produção orgânica e sustentável”, afirma. Nas atividades com os estudantes, a proposta é aproximar ciência, natureza e cotidiano rural. “Mostramos aos alunos que muitas respostas para os desafios humanos já existem na natureza”, completa.
AgroecologiaEm Estreito, bairro rural do município de Cachoeiras de Macacu (RJ), o agricultor orgânico José Ataídbambiental aplica práticas agroecológicas há décadas — mesmo antes de conhecer o conceito formal de SBN. Ao longo dos anos, ele estruturou a produção com foco na regeneração ambiental e na estabilidade produtiva da propriedade.
Entre as práticas adotadas estão a manutenção do solo permanentemente coberto com adubação verde, o plantio direto, a diversificação de culturas, a criação de corredores agroecológicos, a recuperação de áreas de preservação permanente e o uso de bioinsumos produzidos na própria fazenda. “O foco principal é recuperar o solo, que foi muito explorado no passado”, explica.
Os resultados aparecem tanto na qualidade ambiental quanto na produção agrícola. O solo apresentou melhorias químicas e biológicas, a biodiversidade aumentou e a propriedade passou a cultivar alimentos pouco comuns na região, como soja, edamame e pepino japonês, ampliando oportunidades de mercado.
A resiliência climática também foi um ganho para a propriedade. Durante uma chuva extrema registrada em outubro de 2023 — quando caíram 161 milímetros em apenas quatro horas —, áreas vizinhas enfrentaram deslizamentos e alagamentos, enquanto o sítio permaneceu preservado. “As práticas tornam a produção mais previsível e menos vulnerável ao clima”, relata o agricultor.
Movimento Viva ÁguaAs propriedades localizadas no Paraná e no Rio de Janeiro integram o Movimento Viva Água, iniciativa idealizada pela Fundação Grupo Boticário que articula proprietários rurais, poder público e setor privado em ações voltadas à segurança hídrica, à conservação de bacias hidrográficas estratégicas e à adaptação climática. Criado em 2019, o movimento atua na Bacia do Rio Miringuava (PR), na Região Hidrográfica da Baía de Guanabara (RJ), nas bacias dos rios Joanes e Jacuípe (BA) e no Sistema Cantareira (divisa de SP e MG).

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