- Lula faz propaganda em proveito próprio da exploração na Foz do Amazonas, que não passa de expectativa
- Em 2008, a produção era 1,82 milhão de barris por dia, e, no primeiro semestre de 2026, de 4,23 milhões; valor exportado mais que dobrou
- Editorial Folha
“Isso aqui pode se chamar passaporte para o futuro deste país”, disse Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na semana passada. Posou com as mãos besuntadas de petróleo, dias depois de a Petrobras confirmar a descoberta no primeiro poço exploratório da Foz do Amazonas —que, na melhor das hipóteses, começará a produzir em cinco anos.
Lula também mencionara o “passaporte para o futuro” durante a euforia de 2008, quando se confirmava a capacidade de produção na camada do pré-sal. Agora, o petista precipita-se em torno de uma nova expectativa de extração, como fez na encenação eleitoreira forjada durante a visita ao Amapá.
Ainda que se confirme o potencial da Foz do Amazonas e de outras bacias da Margem Equatorial, a história e as perspectivas do setor de energia suscitam questões que deveriam ser consideradas em planos de desenvolvimento para o país. O impacto ambiental é a mais imediata delas, mas nem de longe a única.
Em 2008, a produção brasileira de petróleo era de 1,82 milhão de barris por dia; no primeiro semestre deste 2026, de 4,23 milhões de barris. Também em 2008, a exportação de óleos brutos e combustíveis equivalia a 9,4% do valor total vendido ao exterior; nos últimos 12 meses, a proporção foi de 17,3%.
O valor exportado mais que dobrou, em termos reais, para US$ 63,8 bilhões em 12 meses. De 2000 a 2009, a receita federal com petróleo representou 2% da arrecadação bruta. Desde 2022, fica em torno de 7%, com anos de pico, a depender dos preços.
Nem por isso se resolveram as carências orçamentárias do Estado. O Fundo Social do Pré-Sal se tornou item da confusão contábil —nem faz sentido tal fundo com gigantescos déficits fiscais financiados a juros exorbitantes.
A euforia com o pré-sal levou governos petistas a alterar o marco regulatório do setor, o que atrasou a produção. O incentivo estatal a produtores nacionais de equipamentos para a indústria petrolífera terminou em falências, ineficiências e corrupção. Um estado de gestão desastrosa e criminosa como o Rio de Janeiro desperdiça a bonança.
Em suma, o ganho da União com o petróleo é usado para pagar despesas correntes, não para financiar o futuro.
Caso a prospecção confirme expectativas otimistas, a Margem Equatorial produzirá o bastante para mais do que evitar o declínio da produção nacional a partir de 2030, previsto pela Empresa de Pesquisa Energética. Por volta desse ano, porém, haveria o pico da demanda mundial de petróleo, segundo a Agência Internacional de Energia.
Apesar de essas estimativas estarem sujeitas a erro, o mapa de riscos e oportunidades está dado. O país precisa de metas e de plano para converter recursos do petróleo em pesquisa e desenvolvimento, em especial para a transição energética e para a contenção da destruição ambiental. Nisso estamos muito atrasados (Folha)





