- Frango ganha participação em mercados maduros e emergentes, impulsionado por preço e eficiência
- Brasil se consolida como maior exportador mundial enquanto produção doméstica cresce em outros países
Ele é servido em baldes de papel nos subúrbios americanos, em tigelas de arroz nos shoppings chineses, em lojas de shawarma no Golfo, restaurantes de frango peri-peri no Reino Unido, biryanis na Índia e sanduíches de supermercado pelo mundo. Pode ser frito, assado, grelhado, desfiado, cozido, moído, transformado em nuggets ou reconstituído em algo que só remotamente se parece com uma ave.
Poucos alimentos circulam tão facilmente pela economia moderna quanto o frango.
Uma carne que durante boa parte do século 20 era cara e consumida por uma minoria tornou-se, no século 21, a proteína preferida do mundo —e sua ascensão está acelerando. O crescimento global da produção se intensificou nos últimos três a quatro anos, afirma Nan-Dirk Mulder, especialista global em avicultura do Rabobank. O número de frangos produzidos no mundo passou de 48,3 bilhões em 2006 para 76,2 bilhões em 2023.
Esse aumento transformou paisagens rurais e ruas comerciais. Mais frango significa mais galpões, incubatórios, fábricas de ração, linhas de abate e caminhões refrigerados, mas também maior acesso a uma proteína barata. De Londres a Lagos e de Riad a Manila, lojas de frango frito e cardápios de fast-food com forte presença de aves se tornaram parte da economia alimentar cotidiana.
No que diz respeito à demanda, a ascensão do frango ainda tem muito espaço para avançar, dizem especialistas. “Estamos muito longe do pico do frango”, afirma Glynn Tonsor, economista agrícola da Universidade Estadual do Kansas.
Ao mesmo tempo, as mesmas fazendas industriais que atendem ao apetite por frango ganham reputação como centros de poluição e doenças. A gripe aviária interrompeu produção e comércio, enquanto disputas sobre licenciamento e oposição das comunidades dificultam a construção das fazendas e unidades de processamento necessárias à expansão.
“Existe uma incompatibilidade entre aquilo que as pessoas dizem e rejeitam como cidadãos e aquilo que querem comer como consumidores”, afirma Jean-Yves Guérot, criador de aves de Mayenne, na França. “Vivemos com essa contradição todos os dias.”
DE COADJUVANTE A PROTAGONISTA
Durante boa parte do século passado, o frango não era o candidato óbvio a se tornar a carne preferida do mundo. A carne bovina tinha status e a suína tinha escala, principalmente na China e na Europa. Antes de se tornar a carne mais consumida, o frango sequer era propriamente um negócio de carne: produtores mantinham aves principalmente para ovos. “Não há dúvida de que, no setor de alimentos, o ovo veio primeiro”, afirma Roger Horowitz, historiador da indústria alimentícia dos Estados Unidos.
As aves destinadas à carne eram galinhas que já haviam encerrado o ciclo de produção de ovos ou machos jovens vendidos na primavera —origem da expressão “spring chicken” (conhecido no Brasil como galeto). Nos EUA do século 19, afirma Horowitz, o frango podia ser mais caro que a carne bovina.
Com o século 20, começou sua transformação, impulsionada pela refrigeração, ferrovias e demanda urbana. Consumidores judeus de cidades como Nova York, que chegaram em grande número do leste europeu e da Rússia a partir do fim do século 19, sustentaram um comércio de aves vivas porque as regras religiosas exigiam o abate kosher perto de onde viviam.
A partir de cerca de 1930, os supermercados transformaram o negócio em mercado de massa, atendendo à necessidade de um produto padronizado, refrigerado, porcionado e barato. Empresas avícolas construíram frigoríficos e unidades de processamento próximas às regiões produtoras.
Na década de 1950, empresas de Delaware e Arkansas já abatiam, processavam e vendiam aves para um novo mercado nacional.
Isso também foi possível graças a mudanças na própria ave. O setor passou a desenvolver aves adequadas à produção de carne. Concursos “Frango para amanhã”, realizados no pós-guerra, estimularam produtores a criar aves com mais carne, crescimento rápido e melhor eficiência alimentar —um frango projetado para o varejo de massa.
O melhoramento genético aumentou as taxas de crescimento e alterou o formato dos animais. A conversão alimentar melhorou. Antibióticos passaram a ser adicionados à ração para controlar doenças e aumentar a eficiência. Os ciclos ficaram mais curtos. O preço do frango caiu.
Entre as décadas de 1930 e 1960, o frango saiu das margens da dieta americana e passou a ocupar um lugar central. Hoje, Richard Griffiths, presidente do International Poultry Council, descreve a avicultura como “uma indústria verdadeiramente global”, com métodos semelhantes de criação, engorda e processamento do Brasil à Alemanha e à Austrália.
BRASIL GANHA ESPAÇO
Os EUA foram pioneiros no modelo industrial de produção de frango, mas já não o dominam. O Brasil, maior exportador mundial, embarcou cerca de 4,9 milhões de toneladas de carne de frango em 2024, segundo dados da FAO analisados pelo FT —contra cerca de 910 mil toneladas em 2000. As exportações americanas, por outro lado, recuaram nos últimos anos.
Em 2022, segundo a FAO, o frango superou a carne suína como a carne mais produzida no mundo.
O frango se adapta bem ao modelo global porque pode ser dividido e vendido onde cada parte tiver maior valor. Os pés, por exemplo, tornam-se exportações valiosas para a China, onde são consumidos em dim sum, pratos de restaurantes e lanches.
A demanda cresce em países ricos e mercados emergentes, impulsionada pelos preços elevados da carne bovina, dietas ricas em proteínas, expansão do fast-food e capacidade da ave de se adaptar a praticamente qualquer culinária, religião ou faixa de preço. O frango ganha participação até mesmo no Japão, apesar da população em declínio e do fraco crescimento econômico.
As vantagens do frango no longo prazo são estruturais: a ave é barata, eficiente na conversão de ração, rápida de produzir e sujeita a menos restrições culturais ou religiosas que a carne suína ou bovina. Em mercados maduros, como Japão, Canadá e partes da Europa, ganha espaço frente a outras carnes, enquanto em grandes áreas da Ásia, África, Oriente Médio e América Latina já é a proteína preferida.
Globalmente, a produção cresceu cerca de 2% a 2,5% ao ano nas últimas duas décadas, mas nos últimos três a quatro anos acelerou para mais de 3%, afirma Mulder.
O McDonald’s afirmou em seu relatório anual mais recente que o frango era uma categoria global aproximadamente duas vezes maior que a carne bovina e que crescia mais rapidamente. A empresa expandiu o McCrispy, seu sanduíche de frango frito, para quase todos os seus principais mercados.
Mas a próxima fase não será simplesmente transportar mais frango congelado dos maiores exportadores para o restante do mundo. Mulder afirma que as cadeias de abastecimento locais crescem mais rapidamente que o comércio internacional, em uma mudança “do global para o local”.
A lógica é em parte política. “A segurança alimentar, a segurança de recursos se tornou uma prioridade máxima” em muitos mercados em crescimento. Governos querem produção local “por razões de segurança alimentar, mas também por razões de emprego”.
Isso leva países do Oriente Médio, Ásia e África a investir em fazendas, fábricas de ração, incubatórios e unidades de processamento. A Arábia Saudita aumentou fortemente a produção doméstica de aves apesar do desafio de produzir no deserto.
“Vemos a China, neste momento, realmente aumentando sua produção doméstica. Ela quer se tornar uma exportadora”, afirma Griffiths. Ao mesmo tempo, a demanda interna continua impulsionada pela expansão dos restaurantes. A Yum China abriu 457 novas unidades líquidas da KFC no primeiro trimestre de 2026, elevando o total para 13.454 lojas na China ao fim de março.
LIMITES AMBIENTAIS
Mas a busca por segurança alimentar na avicultura colide com riscos ambientais e políticos. Em comparação com a carne bovina, a produção de aves é eficiente e gera menos emissões. Mas, à medida que a produção aumenta, também crescem as emissões totais, o volume de esterco e resíduos e a pressão sobre os sistemas de produção de ração. Ativistas dos direitos dos animais ganharam espaço com imagens de “frankenchickens” e fazendas intensivas superlotadas.
No Reino Unido, essas preocupações chegaram ao planejamento urbano e aos tribunais. O River Action obteve em 2025 uma decisão da Alta Corte segundo a qual o esterco de galinhas de fazendas avícolas industriais poderia ser classificado como resíduo —e não como subproduto agrícola— e posteriormente ajudou a derrubar a autorização para uma grande unidade avícola intensiva na bacia do rio Severn.
O obstáculo para a próxima fase de expansão do frango pode, portanto, ter menos relação com a demanda e mais com a autorização para crescer.
Na Europa, afirma Mulder, empresas avícolas enfrentam dificuldades para obter aprovação para novas fazendas e capacidade de processamento. Um megaprojeto do grupo ucraniano MHP foi abandonado na Croácia neste ano após protestos, e um governo local em Maiorca negou no ano passado a autorização para uma unidade de criação e processamento de frangos após objeções.
No fim, essa oposição pode se tornar o fator que limitará a expansão do frango: populações ávidas por carne barata estão menos dispostas a aceitar a forma como ela é produzida.
“Se levamos a sério nossa segurança alimentar e a produção doméstica, precisamos de mais espaço para fazendas e infraestrutura… A questão é que não estamos conseguindo isso”, afirma Griffiths (Financial Times)





