Por Pedro Cortês
Guerra no Golfo eleva preços nos EUA e expõe dilema brasileiro: Petrobras pode amortecer choque do barril, mas parte relevante do abastecimento depende de importadores que operam a preços internacionais.
A escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã e as tensões no Estreito de Ormuz voltaram a pressionar o mercado internacional de petróleo.
Nos Estados Unidos, a consequência apareceu rapidamente: o preço médio da gasolina atingiu o nível mais alto em 11 meses, refletindo a elevação do custo do barril e o aumento do prêmio de risco associado ao transporte de petróleo no Golfo Pérsico. E não há previsão de arrefecimento das tensões.
A transmissão desse tipo de choque é relativamente direta em economias fortemente integradas ao mercado global de combustíveis. Quando o petróleo sobe, o custo de reposição das refinarias aumenta e os derivados tendem a acompanhar o movimento.
Em mercados como o norte-americano, onde gasolina e diesel respondem rapidamente às oscilações das cotações internacionais, o impacto costuma chegar às bombas em poucos dias.
No Brasil, o processo é mais complexo. O país é produtor relevante de petróleo e possui custos de extração relativamente baixos em campos do pré-sal, frequentemente estimados abaixo de US$ 10 por barril antes de impostos e participações governamentais. Isso significa que, quando o petróleo internacional se valoriza, empresas produtoras conseguem ampliar sua margem no upstream.
Esse diferencial cria margem para que parte do ganho obtido na produção seja compensada com preços domésticos menos sensíveis às oscilações internacionais no curto prazo. Na prática, isso permite amortecer temporariamente a transmissão de choques externos aos consumidores.
No entanto, a estrutura do mercado brasileiro de combustíveis impõe limites claros a essa estratégia.
A Petrobras responde por cerca de três quartos do abastecimento nacional de gasolina e diesel. O restante do mercado é suprido por importadores privados e por refinarias independentes que adquirem petróleo ou derivados a preços internacionais e operam com margens significativamente menores.
Esses agentes não dispõem da mesma estrutura de custos ou da mesma capacidade de absorção de choques de preços. Como resultado, sua atividade depende da manutenção de condições econômicas mínimas para a importação de combustíveis.
Se os preços domésticos permanecem por um período prolongado abaixo da paridade de importação, o incentivo econômico para trazer cargas do exterior diminui.
Em um sistema que depende de importações para complementar a oferta interna, isso pode reduzir a disponibilidade de produto e aumentar a sensibilidade do mercado a oscilações futuras.
Existe, contudo, um elemento adicional que diferencia o caso brasileiro de outras economias importadoras de combustíveis: o papel do etanol.
A gasolina comercializada no país contém uma mistura obrigatória de etanol anidro e parte relevante da frota nacional é composta por veículos flex, capazes de operar também com etanol hidratado.
Esse arranjo cria um mecanismo adicional de ajuste, pois aumentos no preço da gasolina tendem a deslocar parte da demanda para o biocombustível.
Mesmo assim, a pressão pelo reajuste existe. Repasses integrais das cotações internacionais podem pressionar a inflação e o custo do transporte. Por outro lado, repasses muito limitados podem comprometer o equilíbrio econômico dos agentes responsáveis por parte relevante do abastecimento.
O resultado é que a política de preços de combustíveis precisa equilibrar dois objetivos distintos: preservar a estabilidade de preços no curto prazo e garantir que o mercado continue economicamente viável para todos os participantes que contribuem para o suprimento nacional.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que choques internacionais de petróleo nem sempre são transmitidos de forma imediata ou integral ao consumidor brasileiro. Ainda assim, a economia nacional permanece vinculada ao mercado global de energia.
Caso as tensões no Golfo persistam e o petróleo permaneça em patamar elevado por período prolongado, a pressão sobre os combustíveis tende a aumentar, com potenciais efeitos sobre inflação, custos de transporte e atividade econômica (Pedro Cortês é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país; CNN Brasil)




