Altas temperaturas, sucessão de lavouras soja/milho e presença de plantas voluntárias de milho, criam ambiente ideal para a explosão da cigarrinha-do-milho, capaz de reduzir a produtividade em mais de 70%
O sistema soja–milho segue como a principal base produtiva do cereal no Brasil. De acordo com a Conab, cerca de 75% da produção nacional de milho é proveniente da segunda safra, cultivada majoritariamente em sucessão à soja, especialmente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Esse modelo garante escala e eficiência produtiva, mas também amplia o período de permanência da cultura no campo. Do ponto de vista fitossanitário, essa sucessão contínua de lavouras, somada às condições climáticas do verão, cria um ambiente altamente favorável ao aumento da pressão de pragas no milho safrinha.
“O milho safrinha começa sob um cenário de risco elevado, porque a população da cigarrinha já vem crescendo desde o início do verão, impulsionada pelo clima quente e pela presença contínua de plantas hospedeiras. Quando o produtor entra atrasado no campo, a pressão inicial tende a ser ainda maior”, explica Alziro Pozzi Neto, engenheiro agrônomo e especialista em Desenvolvimento de Mercado da Ourofino Agrociência.
Ele ressalta que, durante o verão, a cigarrinha encontra condições ideais para se multiplicar: “Temperaturas elevadas, entre 26 °C e 32 °C, reduzem significativamente seu ciclo biológico, permitindo que complete uma geração em cerca de 24 dias. O desenvolvimento acelerado de ovos e ninfas resulta em explosões populacionais, principalmente entre outubro e março”.
Além disso, períodos de calor intercalados com estiagens, comuns em diversas regiões produtoras, favorecem a sobrevivência e a dispersão da praga. Outro fator decisivo é a chamada “ponte verde”: a sucessão de lavouras de milho safra e safrinha garante alimento e locais de oviposição contínuos, impedindo a queda natural da população.
A presença de plantas voluntárias de milho, conhecidas como tiguera, em áreas de soja ou entre safras completa o cenário de risco. Essas plantas funcionam como reservatório tanto da cigarrinha quanto dos agentes causadores dos enfezamentos, mantendo o problema ativo mesmo fora do período principal de cultivo.
Impacto direto na produtividade
Considerada hoje o principal inimigo fitossanitário do milho no Brasil, a cigarrinha-do-milho causa prejuízos não apenas pela sucção de seiva, mas principalmente pela transmissão de molicutes e vírus responsáveis pelos enfezamentos pálido e vermelho. Essas doenças comprometem o floema da planta, provocando encurtamento de entrenós, espigas malformadas, amarelecimento ou avermelhamento das folhas e, em casos mais severos, acamamento.
Estudos da Embrapa indicam que as perdas de produtividade podem ultrapassar 70% em áreas sem manejo adequado. Dados do Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal) reforçam a gravidade do cenário: a incidência da cigarrinha aumentou 177% nos últimos dois anos, evidenciando a necessidade de estratégias mais rigorosas de prevenção.
Segundo Alziro, o aumento populacional no fim do ciclo da safra de verão gera uma pressão imediata sobre as plantas recém-emergidas, tornando o monitoramento antecipado indispensável. A recomendação é iniciar o acompanhamento desde a emergência, com o uso de armadilhas adesivas amarelas, e concentrar os esforços de controle do estágio inicial até V6.
É essencial associar ferramentas biológicas e químicas. O uso estratégico dessas ferramentas é fundamental para aumentar a eficiência do manejo e evitar a seleção de populações resistentes.
“Não existe solução isolada. O sucesso no controle da cigarrinha passa pelo manejo integrado, eliminado a ponte verde (milho tiguera), escolha de híbridos de milho com tolerância aos enfezamentos, pelo monitoramento contínuo, pelas pulverizações de produtos químicos e biológicos, rotacionado ativos e pela tomada de decisão técnica no momento certo”, afirma Alziro.




