O agro precisa dominar a Lei Rouanet e liderar a reconstrução cultural

Por Camilo Calandreli

Eu escrevo este texto para quem vive o agro no dia a dia — produtor, empresário, cooperativa, sindicato, associação, liderança regional, gestor público ligado ao campo. Escrevo para quem entende de custo, risco, previsibilidade, clima, safra, mercado e longo prazo.

E eu vou começar com um ponto que quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta:

O Brasil não está em disputa apenas econômica. Está em disputa cultural.

E numa disputa cultural, quem não constrói narrativa vira alvo dela. Quem não financia sua própria memória, seus símbolos e seus valores, financia — indiretamente — a memória, os símbolos e os valores de outros grupos.

O agronegócio brasileiro é potência econômica, motor do PIB, guardião da segurança alimentar, sustentáculo do interior do país.

Mas existe um elo estratégico ainda subaproveitado — e decisivo para o futuro do Brasil:

O investimento do agro em cultura, educação e identidade por meio da Lei Rouanet e do Terceiro Setor.

Eu sei do que estou falando. Fui Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura (2019/2020), estrutura responsável pela gestão da Lei Rouanet. Sou gestor cultural desde 2012. Hoje, além de atuar como assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), sou Gestor Cultural em consultorias para entidades do terceiro setor desenvolverem projetos culturais.

Eu defendo uma tese simples, mas poderosa:

O agro não é “setor”. O agro é a base material da civilização.


Sem agro, não há cidade, não há indústria, não há escola, não há Estado.

E eu acrescento, com a mesma seriedade:

Sem cultura, a civilização vira só engrenagem. Sem alma.

O agro sustenta o país com produtividade. Agora precisa sustentar o país também com identidade, formação, memória e legado. E existe uma ferramenta de política pública pronta para isso: a Lei Rouanet.

1)   Comecemos pelo essencial: Cultura não é evento. Cultura é infraestrutura nacional

A cultura não é só “show”. Não é “agenda urbana”. Não é “pauta de artista”. Cultura é aquilo que organiza uma sociedade por dentro:

  • o que a juventude respeita;
  • o que o povo admira;
  • o que vira referência moral;
  • o que vira símbolo;
  • o que vira vergonha;
  • o que vira futuro.

Em Um Breve Ensaio sobre a Cultura no Brasil, eu argumento que a crise cultural brasileira não é periférica: ela é estrutural. Quando a cultura é corroída, o país perde:

  • coesão social,
  • repertório simbólico,
  • respeito às tradições,
  • qualidade educacional,
  • senso de pertencimento,
  • e, no limite, a própria capacidade de se manter unido.

E o campo tem um papel central nisso, porque no campo está o Brasil profundo: tradição, família, fé, trabalho, comunidade, cooperação, identidade regional. O campo é uma das últimas reservas de realidade num país que muitas vezes vive de abstrações.

Se você quer um Brasil forte, você precisa de um agro forte.


Mas se você quer um Brasil coeso e civilizado, você precisa de um agro forte culturalmente.

2)   O dado de 2025 que mudou o debate: a Lei Rouanet é dominada por instituições — não por artistas

Existe uma mentira repetida há anos: “a Lei Rouanet só financia artista rico e artista da Globo”.

Isso é não é verdade absoluta e os números de 2025 escancaram a realidade: o dinheiro grande da Rouanet vai para instituições estruturadas, principalmente do Terceiro Setor.

Segundo o levantamento divulgado pelo Poder360 com base no SALIC, os projetos que mais receberam recursos via Rouanet em 2025 foram, em sua maioria, planos anuais de atividades e manutenção de grandes instituições culturais.

Valores captados (em R$ milhões):

  • MASP — plano de atividades e manutenção: 49,2
  • OSESP — plano de atividades: 42,9
  • Instituto Inhotim — plano de atividades e manutenção: 41,5
  • Orquestra Petrobras Sinfônica — plano de atividades: 32,9
  • Fundação Bienal de São Paulo — plano de atividades: 30,5
  • Museu do Amanhã — plano de atividades: 25,7
  • (entre outros)

O padrão é inequívoco:

  • quem mais capta não é indivíduo
    quem mais capta é instituição com política estruturada
  • quem mais capta é Terceiro Setor com governança e estratégia de longo prazo

Agora eu pergunto, de forma objetiva:

onde está o equivalente disso no agronegócio?

  • Onde está o “MASP do Agro”?
  • Onde está a “OSESP do Sertão”?
  • Onde está o “Inhotim do Interior”?

O agro tem dinheiro, capilaridade, reputação e presença territorial. O que falta é instituição cultural própria, profissional e permanente.

3)   Lei Rouanet sem fantasia: o mecanismo completo e por que ele é genial

A Lei Rouanet é genial por um motivo: ela criou um sistema de política pública que se sustenta num tripé.

O tripé da Lei Rouanet

  1. Estado — regula, analisa, aprova, fiscaliza, presta contas à sociedade
  2. Iniciativa privada — direciona parte do imposto devido para investimento público cultural
  3. Terceiro Setor / Proponentes — executam projetos com metas, entregas e impacto

Isso não é improviso. Isso é arquitetura institucional.

E dentro desse sistema, há três pilares que o agro precisa conhecer e usar:

(A) Mecenato (incentivo fiscal)

É o mecanismo mais usado. E é onde circula a maior parte dos recursos.

Fluxo simples:

  1. projeto aprovado;
  2. captação autorizada;
  3. empresa patrocina com incentivo fiscal;
  4. execução + contrapartida social + prestação de contas.

Tradução direta para o agro:

Você transforma parte do imposto devido em investimento público que fortalece seu território, sua comunidade e sua identidade.

(B) Fundo Nacional de Cultura (FNC)

É o braço do financiamento direto do Estado, via editais.
Deveria ser mais forte e mais capilar. É fundamental para descentralização.

Para o interior, o FNC é estratégico porque pode financiar:

  • ações patrimoniais,
  • mapeamentos,
  • projetos educativos,
  • iniciativas em municípios pequenos,
  • segmentos sem apelo de marketing imediato.

(C) Endowments (fundos patrimoniais)

Aqui está a revolução.

Endowment é fundo de longo prazo: você cria um patrimônio, investe, e usa apenas o rendimento.

É assim que se financiam instituições de forma contínua no mundo desenvolvido. É blindagem contra:

  • ciclos políticos,
  • crises econômicas,
  • modismos ideológicos,
  • dependência de patrocínios pontuais.

Se o agro quer legado, endowment é o caminho.

4)   O que trava a Rouanet não é o mecanismo. É a politização e a falta de formação

Eu vou falar com clareza: o mecanismo é maravilhoso.

O que atrapalha é:

  1. a politização do debate cultural;
  2. a ausência de formação de gestores e instituições no interior.

Quando o debate vira gritaria ideológica, o país perde técnica e planejamento. E quando faltam gestores qualificados, o interior não capta, não executa e não se estrutura.

Só que existe uma ironia aqui:

O agro tem exatamente o perfil que a Rouanet exige.

O agro entende:

  • governança,
  • compliance,
  • planejamento,
  • indicadores,
  • eficiência,
  • rede de parceiros,
  • visão de longo prazo.

Ou seja: se o agro entrar com método, ele se torna um dos maiores players do sistema.

5)   O que o agro pode fazer na prática com a Lei Rouanet: projetos estruturantes, replicáveis e de alto impacto

Chegamos ao ponto decisivo deste debate. Até aqui, eu demonstrei por que o agro precisa entrar na agenda cultural. Agora, eu vou explicar como isso pode ser feito — de forma concreta, técnica, legal, escalável e com legado.

A Lei Rouanet não foi criada para ações improvisadas. Ela funciona melhor quando aplicada a projetos estruturantes, pensados para durar anos, com governança, planejamento e impacto territorial.

E é exatamente aqui que o agronegócio leva vantagem sobre outros setores.

(1)  Museus e Centros de Memória do Agro: a base institucional da identidade rural

Museus não são “prédios antigos com coisas velhas”. Museus são centros de narrativa, educação, turismo e reputação.

O agro pode — e deve — criar uma rede nacional de museus e centros de memória, ligados a cadeias produtivas específicas ou a territórios agrícolas.

Exemplos práticos de projetos viáveis via Lei Rouanet:

  • Museu do Café Brasileiro
  • Museu Nacional da Cana-de-Açúcar e do Etanol
  • Museu da Pecuária Brasileira
  • Museu da Soja e do Agronegócio Tropical
  • Centros de memória de cooperativas (história, tecnologia, pessoas, impacto social)

Esses projetos podem incluir:

  • exposições permanentes e itinerantes;
  • acervos documentais e audiovisuais;
  • história oral de produtores, trabalhadores e famílias rurais;
  • tecnologia interativa para educação de jovens;
  • programas educativos vinculados a escolas públicas e técnicas.

Esses museus funcionam exatamente como MASP, Inhotim ou Museu do Amanhã:
plano anual de atividades, aprovado pela Lei Rouanet, com:

  • manutenção,
  • exposições,
  • ações educativas,
  • programação contínua.

Isso gera:

  • turismo cultural regional;
  • economia local aquecida;
  • valorização do território;
  • reputação institucional para patrocinadores;
  • educação patrimonial para crianças e jovens.

(2)  Patrimônio histórico rural: preservar é desenvolver

O Brasil rural está repleto de patrimônios históricos abandonados:

  • fazendas centenárias,
  • armazéns,
  • antigas estações ferroviárias,
  • casas de colonização,
  • capelas e igrejas rurais,
  • conjuntos arquitetônicos ligados à produção agrícola.

Tudo isso é patrimônio cultural — e tudo isso pode ser restaurado, ativado e mantido com recursos da Lei Rouanet.

Exemplos de projetos possíveis:

  • restauração de fazendas históricas com uso educativo e cultural;
  • requalificação de estações ferroviárias como centros culturais;
  • criação de rotas culturais do agro (café, cana, tropeirismo, imigração);
  • inventários e dossiês de patrimônio rural material e imaterial.

Preservar patrimônio não é travar desenvolvimento. É o oposto.

Território com patrimônio preservado:

  • atrai turismo qualificado;
  • valoriza imóveis e regiões;
  • gera identidade local;
  • fortalece vínculos comunitários;
  • amplia acesso a políticas públicas.
  •  

(3)  Escolas de Música Caipira, Arte Sertaneja e Cultura do Campo

Aqui está um dos campos mais negligenciados — e mais poderosos.

O Brasil perdeu, nas últimas décadas, a transmissão técnica e estética da música de raiz, substituindo tradição por caricatura.

O agro pode liderar um resgate qualificado da arte popular brasileira, criando escolas permanentes de formação cultural rural.

Projetos possíveis:

  • escolas de viola caipira e música regional;
  • formação de professores de música do campo;
  • corais, bandas e orquestras sertanejas;
  • festivais de música de raiz com curadoria técnica;
  • residências artísticas e intercâmbios regionais.

Aqui eu faço questão de sublinhar um ponto:

não se trata de entretenimento raso

Trata-se de recuperar a grande arte popular brasileira, aquela que une:

  • erudição,
  • técnica,
  • tradição,
  • espiritualidade,
  • identidade.

A mesma visão defendida por Ariano Suassuna, pelo Movimento Armorial, e presente na obra de Elomar Figueira Mello.

(4)  Cultura folclórica e circuitos permanentes: transformar tradição em política pública

Festas tradicionais, saberes, culinária, ofícios e rituais não sobrevivem apenas com “boa vontade”. Eles precisam de estrutura permanente.

O agro pode criar circuitos culturais estáveis, financiados via Lei Rouanet, com:

  • festas tradicionais organizadas com qualidade técnica;
  • contação de histórias e memória oral;
  • culinária típica e saberes do campo;
  • documentação audiovisual profissional;
  • registro e salvaguarda do patrimônio imaterial.

Quando um saber não é documentado, ele morre.
Quando não vira política pública, ele desaparece.

(5)  Formação de gestores culturais do interior: o projeto mais estratégico de todos

Agora eu chego ao ponto mais importante de todo o artigo.

Sem gestor formado, não existe política cultural sustentável.

O maior gargalo da Lei Rouanet no interior do Brasil não é falta de dinheiro.
É falta de gente capacitada para estruturar, aprovar, captar e executar projetos.

E aqui o agro pode liderar uma transformação nacional.

Projetos possíveis:

  • programas de formação de gestores culturais rurais;
  • cursos técnicos e pós-graduações em gestão cultural no interior;
  • incubadoras de projetos culturais do agro;
  • núcleos regionais de apoio à captação via Rouanet;
  • redes de gestores culturais ligados a cooperativas e associações.

Por que isso interessa ao agro?

Porque:

  • forma lideranças locais,
  • reduz dependência de intermediários,
  • descentraliza recursos,
  • profissionaliza o interior,
  • cria política pública de verdade.

6)   O mundo já fez isso — e o Brasil acertou o instrumento, falta liderança

Quando falamos em cultura, entretenimento, economia criativa e identidade nacional, não estamos tratando de uma invenção brasileira nem de uma pauta ideológica. Estamos falando de modelos consolidados de desenvolvimento adotados por países centrais da economia mundial.

O que muda entre eles não é a importância da cultura, mas o arranjo institucional escolhido para financiá-la, protegê-la e transformá-la em ativo econômico e simbólico.

O ponto-chave que o leitor precisa entender

Nenhum país forte deixa sua cultura entregue ao acaso.

Todos estruturam políticas públicas permanentes para memória, entretenimento e formação cultural.

Vamos aos modelos:

Estados Unidos: entretenimento, filantropia e endowments como indústria nacional

Os Estados Unidos são o maior exemplo de como entretenimento e cultura podem ser motores econômicos, sem depender de orçamento público direto.

Como funciona

  • O Estado não produz cultura, mas cria incentivos legais;
  • Empresas e cidadãos doam para instituições culturais;
  • Essas doações são dedutíveis do imposto de renda;
  • Os recursos formam endowments (fundos patrimoniais);
  • Apenas os rendimentos desses fundos financiam atividades culturais.

Exemplos práticos

  • Universidades como Harvard e Stanford financiam museus, orquestras e centros culturais com seus endowments;
  • Museus como o Metropolitan Museum of Art funcionam com doações privadas e fundos patrimoniais;
  • A indústria do entretenimento (Hollywood, música country, Broadway) é tratada como setor estratégico nacional.

O que isso ensina ao Brasil

Cultura pode ser autossustentável

Entretenimento é indústria, não gasto

Endowment garante estabilidade e independência política

O sertanejo brasileiro ocupa, culturalmente, o mesmo espaço que o country music ocupa nos EUA.


A diferença é que lá isso virou política estruturada. Aqui, ainda não.

França: patrimônio, identidade e cultura como política de Estado

A França trata cultura como soberania nacional.

Como funciona

  • O Estado mantém museus, teatros e patrimônios;
  • Empresas privadas podem doar com altíssimo incentivo fiscal;
  • Fundos patrimoniais culturais são estimulados;
  • O entretenimento convive com a preservação histórica.
  •  

Exemplos práticos

  • O Louvre possui fundo patrimonial próprio;
  • Festivais regionais recebem apoio público contínuo;
  • Gastronomia, moda, música e cinema são tratados como ativos estratégicos da nação.

Lição para o Brasil

Cultura fortalece marca país

Patrimônio gera turismo, emprego e identidade

Tradição e modernidade não se excluem

O agro brasileiro pode fazer o mesmo com a cultura sertaneja, rural e regional, valorizando memória e gerando desenvolvimento territorial.

Alemanha: cultura como serviço público essencial

Na Alemanha, a lógica é direta: cultura é tão essencial quanto saúde e educação.

Como funciona

  • Orquestras, teatros e museus são financiados pelo Estado;
  • Municípios mantêm equipamentos culturais locais;
  • Existe forte descentralização territorial;
  • O cidadão entende cultura como parte da vida cotidiana.

Exemplos práticos

  • Pequenas cidades possuem teatros públicos;
  • Orquestras regionais são mantidas pelo poder público;
  • Museus agrícolas e históricos fazem parte do sistema educacional.

O que o Brasil pode aprender

Interior também merece cultura estruturada;

Cultura reduz desigualdade regional;

Educação e cultura caminham juntas.

Imagine cada região agrícola brasileira com museus rurais, centros culturais e programação permanente.

Isso não é utopia. É política pública aplicada.

Reino Unido: modelo híbrido e inteligente

O Reino Unido criou um modelo híbrido, combinando Estado, mercado e sociedade civil.

Como funciona

  • Fundo público (Arts Council);
  • Recursos da loteria nacional;
  • Incentivos à criação de endowments;
  • Parcerias público-privadas constantes.

Exemplos práticos

  • Museus gratuitos com financiamento misto;
  • Programas de “matching funds” (o Estado complementa doações privadas);
  • Forte investimento em cultura regional.

Lição direta para o Brasil

Não existe modelo único;

Misturar fontes gera escala;

Governança é mais importante que ideologia.

A Lei Rouanet já é um modelo híbrido semelhante — falta ampliar e descentralizar.

7)   O ponto mais ambicioso: por que a Rouanet é modelo de política pública para outras áreas — inclusive Agricultura

Eu defendo uma tese que vai além da cultura:

A Lei Rouanet é um dos melhores desenhos de política pública já criados no Brasil, porque:

  • combina Estado + sociedade + mercado;
  • exige projeto com início, meio e fim;
  • cria prestação de contas e transparência;
  • alavanca recurso privado em interesse público;
  • permite escala e capilaridade.

Por isso, eu afirmo: esse modelo pode e deve inspirar políticas públicas em outras áreas — especialmente no agro, com adaptações.

Imagine um “Rouanet do Agro” para:

  • escolas técnicas rurais,
  • centros de inovação e extensão,
  • formação de novos agricultores,
  • pesquisa aplicada,
  • preservação produtiva e patrimonial,
  • sustentabilidade com métrica real,
  • e educação estratégica do campo.

O agro já vive de planejamento. Falta transformar essa cultura de planejamento em política pública estruturada.

8)   Empreendedorismo cultural, entretenimento sertanejo e agro: quando cultura vira indústria criativa de identidade

Há um erro recorrente no debate cultural brasileiro: tratar arte de entretenimento como algo menor, descartável ou meramente comercial. Isso é falso — e perigoso.

O entretenimento é a maior força formadora de imaginário coletivo do nosso tempo. Quem domina o entretenimento, domina símbolos, linguagem, estética, valores e aspirações. E se existe um campo artístico genuinamente brasileiro, popular, capilar, economicamente forte e ainda pouco estruturado como política cultural estratégica, esse campo é a música sertaneja.

Eu afirmo sem hesitação: a arte sertaneja é a maior ponte cultural entre o agronegócio e o Brasil urbano.

Ela fala a língua do povo, nasce do campo, migra para a cidade, movimenta bilhões, forma ídolos, cria referências e constrói identidade. O problema não é o sertanejo. O problema é a ausência de estrutura cultural, institucional e patrimonial ao redor dele.

É aqui que entra o empreendedorismo cultural alinhado ao agro.

9)   Casas de Shows Sertanejas como equipamentos culturais permanentes

Casas de show não precisam ser apenas espaços comerciais. Elas podem — e devem — ser equipamentos culturais permanentes, estruturados como:

  • polos de difusão da música sertaneja,
  • centros de formação de público,
  • espaços de memória viva,
  • vitrines da economia criativa rural.

Modelo prático

Uma Casa de Cultura Sertaneja pode operar com:

  • programação regular de música de raiz, moderna e de transição;
  • ações educativas (oficinas, masterclasses, rodas de conversa);
  • residências artísticas;
  • gravações de áudio e vídeo;
  • parcerias com escolas e universidades.

A Casa pode apresentar um plano anual de atividades via Lei Rouanet, exatamente como fazem orquestras e museus.


O incentivo fiscal financia:

  • programação cultural,
  • ações formativas,
  • memória e documentação,
  • acessibilidade,
  • difusão cultural.

O agro deixa de ser apenas patrocinador pontual de shows e passa a ser mantenedor institucional da cultura sertaneja, com governança, reputação e impacto territorial.

10)               Museu da Música Sertaneja: preservar a memória para não perder a alma

O Brasil possui museus do futebol, do cinema, da língua portuguesa — mas ainda trata a música sertaneja como algo sem memória institucional.

Isso é um erro histórico.

A música sertaneja:

  • acompanhou a urbanização do país,
  • narrou o êxodo rural,
  • preservou a oralidade do campo,
  • construiu a ponte simbólica entre tradição e modernidade.

Museu da Música Sertaneja

  • acervo de artistas, compositores, duplas, produtores;
  • instrumentos, figurinos, letras, partituras;
  • história das gravadoras, rádios e programas de TV;
  • evolução estética do sertanejo raiz ao contemporâneo;
  • exposições imersivas e itinerantes;
  • programas educativos para escolas.

Museu é projeto de futuro, porque quem controla a memória controla a narrativa.

O agro passa a ser guardião oficial da memória da música sertaneja, com reconhecimento nacional e internacional.

11)               Academias de Música Sertaneja: formar talentos é mais importante que revelar ídolos

O entretenimento brasileiro sofre de um vício: apostar apenas no talento espontâneo e no sucesso imediato. Isso gera carreiras curtas e descaracterização estética.

O agro pode liderar algo inédito: academias de música sertaneja, com formação técnica, artística e humana.

O que essas academias podem oferecer

  • técnica vocal e instrumental (viola, violão, sanfona);
  • composição e poesia popular;
  • história da música sertaneja e da cultura rural;
  • ética artística e profissional;
  • gestão de carreira e direitos autorais;
  • conexão com o campo, com a terra e com a tradição.


Essas academias podem operar como:

  • escolas culturais,
  • programas de formação continuada,
  • polos regionais de talentos,
  • projetos permanentes com plano anual aprovado.

Em vez de depender de modismos, o Brasil volta a formar artistas, não apenas produtos.

12)               Conteúdo audiovisual, TV, redes sociais e a nova disputa de narrativa

Hoje, quem educa simbolicamente o Brasil não é a escola.
É a tela.

O agro precisa entender isso sem preconceito: televisão, streaming e redes sociais são ferramentas de política cultural.

Projetos estratégicos possíveis

  • programas de TV sobre música sertaneja, história rural e cultura do campo;
  • documentários sobre artistas, territórios e tradições;
  • séries musicais e dramatúrgicas ambientadas no interior;
  • festivais transmitidos em multiplataforma;
  • canais digitais dedicados à cultura sertaneja.

O entretenimento sertanejo já movimenta grandes marcas. Falta organizar esse vínculo com:

  • governança cultural,
  • contrapartida social,
  • formação de público,
  • preservação de memória.

O agro deixa de ser apenas anunciante e vira coprodutor de conteúdo cultural nacional, com impacto simbólico profundo.

13)               Feiras literárias, artísticas, gastronômicas e economia criativa rural

Cultura também é:

  • livro,
  • teatro,
  • cinema,
  • gastronomia,
  • artesanato,
  • encontro comunitário.

O agro pode liderar feiras culturais completas, integrando:

Exemplos de eventos estruturantes

  • feiras literárias sertanejas (livros, cordel, poesia rural);
  • festivais de teatro e cinema do interior;
  • feiras de gastronomia típica regional;
  • exposições de artesanato rural;
  • saraus, debates e lançamentos de livros.

Essas feiras não devem ser eventos isolados, mas circuitos permanentes, com calendário, identidade visual, curadoria e avaliação de impacto.

Economia criativa rural fortalecida, renda local, turismo cultural e pertencimento comunitário.

14)               Sindicatos rurais, cooperativas e fundações culturais do agro

Nada disso se sustenta sem institucionalidade.

O agro já possui:

  • sindicatos,
  • federações,
  • cooperativas,
  • associações fortes.
  •  

O próximo passo é criar:

  • fundações culturais do agro,
  • institutos de preservação da cultura rural,
  • entidades do Terceiro Setor com foco cultural e educativo.

Essas entidades podem:

  • apresentar projetos via Lei Rouanet;
  • captar recursos com governança;
  • criar fundos patrimoniais (endowments);
  • manter programação contínua;
  • articular políticas públicas locais.

O agro deixa de agir de forma dispersa e passa a operar como sistema cultural organizado.

15)               Teatro, cinema, livros e dramaturgia do campo

O Brasil urbano conhece pouco o Brasil real.

O agro pode financiar:

  • grupos de teatro do interior;
  • dramaturgia baseada na vida rural;
  • filmes e séries ambientadas no campo;
  • livros, romances, ensaios e biografias;
  • projetos editoriais ligados à cultura sertaneja.

Conclusão: o agro precisa entender que o Brasil se ganha no território — e no imaginário

O Brasil é uma potência agrícola.

Mas potência agrícola sem identidade vira apenas fornecedor de commodities.

O salto que o agro precisa dar agora é civilizacional.

  • Produzir é necessário.
  • Formar é indispensável.
  • Preservar é estratégico.
  • Financiar cultura é soberania.

A Lei Rouanet é ferramenta.

O Terceiro Setor é método.

E o agronegócio é a maior vitrine possível para expandir esse modelo para o Brasil inteiro.

Eu encerro com uma frase que eu gostaria de ver repetida, sem vergonha, em cooperativas, feiras e diretorias do agro:

Quem semeia cultura colhe nação.

Sobre o Autor:

Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no BrasilUm Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil e Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.

Graduado pela USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove.

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