Camilo Calandreli
O Agro no Pós-Maduro. Quem tem comida tem poder.
Quando a história acelera, ela não avisa com sutileza — ela grita. E hoje a América do Sul está diante de um grito geopolítico: ou o continente volta a produzir com liberdade e segurança jurídica, ou será empurrado para a dependência alimentar e energética.
Nos últimos 10 anos, Brasil e Venezuela viraram o retrato mais didático dessa escolha. De um lado, o Brasil — com seu agro gigante, sua cana que vira energia, sua soja e milho que alimentam o mundo, e suas carnes que sustentam balanças comerciais. Do outro, a Venezuela — um país com terra, água e petróleo, mas que foi conduzido ao colapso produtivo pelo intervencionismo estatal e pela captura ideológica do campo.
E aqui está o ponto central deste artigo: o “pós-Maduro” pode reabrir a Venezuela para o mundo produtivo — e isso pode criar uma janela histórica para uma nova aliança regional, alinhada à agenda da direita continental e à estratégia dos EUA sob a liderança de Donald Trump.
Brasil: O agro como civilização em movimento
O Brasil não “virou potência” por decreto. Virou potência porque existe uma coisa que o campo entende melhor que qualquer gabinete: sem previsibilidade, ninguém investe; sem propriedade, ninguém planta; sem lucro, ninguém produz.
Mesmo em meio a crises, o agro brasileiro cresceu por tecnologia, escala e empreendedorismo — e entrou nos anos recentes com indicadores robustos, como a produção de cana projetada em 660 milhões de toneladas na safra 2025/26, segundo o USDA/FAS.
Na carne, o Brasil manteve o motor aquecido: entidades e análises setoriais apontam exportação recorde de 2,29 milhões de toneladas de carne bovina em 2023.
E em 2025, a própria Reuters reportou que o país superou os EUA em produção de carne bovina, reforçando a posição brasileira como fornecedor-chave para o mercado global.
Tradução simples: quando o Brasil protege o produtor, a produtividade responde. Quando o Brasil trata o campo como inimigo, o país perde competitividade.
Venezuela: O campo como refém do Estado
A Venezuela é a prova viva de um princípio que a esquerda tenta esconder com slogans: o Estado pode prometer comida; mas só o produtor entrega alimento.
A queda venezuelana é documentada até em levantamentos públicos consolidados: em 2019, a Venezuela produziu cerca de 4,3 milhões de toneladas de cana e 1,9 milhão de toneladas de milho — números pequenos para um país com potencial agrícola e histórico produtivo, e que refletem uma economia agrária quebrada por anos de política estatizante.
No petróleo, o drama é ainda mais simbólico. Enquanto o Brasil expandiu energia com tecnologia e investimento, a Venezuela viu a indústria afundar — e fontes recentes situam a produção venezuelana na casa de ~800 mil barris/dia, muito abaixo do auge histórico.
O que destrói o campo?
Quando você soma expropriação, controle, medo e fuga de capital, a colheita vira escassez. A propriedade vira disputa. E a terra vira palco de propaganda.
Bolsonaro e Trump: a linguagem do produtor (e do investidor)
Há uma razão concreta para o agro ter se aproximado de Jair Bolsonaro: não é apenas identidade cultural; é alinhamento de agenda. A Reuters mostrou que doações individuais ligadas ao agro representaram quase 80% dos recursos da campanha de Bolsonaro em 2022 e que grande parte dos maiores doadores tinha vínculos com o setor.
Isso não é “curiosidade eleitoral”. É diagnóstico: o agro se financia politicamente quando percebe que está defendendo seu direito de produzir.
E no tabuleiro geopolítico, Trump representou — para boa parte da direita continental — o retorno à leitura clássica do poder: América forte, hemisfério estável, comércio com músculo e inimigos nomeados.
Liberalismo americano x socialismo chinês: duas lógicas em choque
Aqui precisamos falar sem eufemismo. Existem duas maneiras de se relacionar com a América do Sul:
- A lógica liberal ocidental (EUA): capital, contratos, investimento, produtividade, mercado, competição.
- A lógica do socialismo de Estado (China): dependência, assimetria, financiamento atrelado, captura de infraestrutura, influência política e tolerância com regimes autoritários — desde que garantam ativos e alinhamento.
No caso venezuelano, essa segunda lógica apareceu em forma de petróleo escoando para a Ásia e acordos que driblam sanções. Um levantamento recente de pesquisa energética aponta que mais da metade das exportações de petróleo venezuelano (cerca de 768 mil bpd em 2025) foi para a China, segundo dados citados via Kpler.
Ao mesmo tempo, a Venezuela de Maduro se aproximou de eixos autoritários e parcerias militares/industriais com atores como o Irã — inclusive com acordos de cooperação de longo prazo e cooperação de defesa relatados por fontes especializadas e imprensa.
O recado do “pós-Maduro” é este: reconstruir a Venezuela é também disputar a orientação estratégica do continente.
O pós-Maduro e a nova janela para o agro sul-americano
Um cenário de transição em Caracas abre, pela primeira vez em anos, uma possibilidade real de “reset” produtivo:
- Segurança jurídica para terra e contratos
- Reprivatizações e PPPs no agro e na energia
- Retorno do crédito e do investimento internacional
- Reintegração comercial regional (inclusive energia e alimentos)
E isso beneficia diretamente o Brasil, porque a Venezuela pode voltar a ser:
- mercado importador relevante (alimentos, carnes, grãos, açúcar, óleo)
- fornecedor estratégico de energia e derivados (reduzindo custo Brasil)
- parceiro de integração logística e energética
Para o agro, isso significa uma coisa: menos risco e mais escala.
Foro de São Paulo e Lula: A ideologia que não alimenta ninguém
O Foro de São Paulo nasceu em 1990, em São Paulo, reunindo partidos de esquerda para articular uma agenda continental.
O problema não é “debater ideias”. O problema é quando a ideia vira método: usar o Estado para controlar o produtor, relativizar propriedade, aparelhar instituições e blindar aliados autoritários.
E aqui entra a crítica política — firme e transparente — que este artigo assume: o alinhamento do lulismo com o eixo bolivariano sempre foi uma âncora contra a vocação produtiva do continente. Quando o governo relativiza democracia de aliados ou normaliza regimes que quebraram o campo, ele envia um sinal ao investidor: a regra pode mudar por ideologia.
E investimento foge de lugar onde a regra é variável.
Por isso, para o público do agro (e para qualquer cidadão que entenda que comida é soberania), a conclusão é objetiva: o Brasil não deve reconduzir ao poder projetos políticos que se alinhem, por discurso ou prática, ao modelo bolivariano. Isso não é “ódio”; é cálculo de risco. É defesa da produção.
E quando alguém diz que “a esquerda precisa ser extinta”, a leitura responsável — e democrática — é clara: derrotada politicamente, nas urnas e no debate público, para que o continente volte a respirar liberdade econômica e segurança jurídica.
O que fazer: Um plano simples, duro e eficaz
Se o objetivo é crescimento real (não propaganda), o roteiro é conhecido:
- Segurança jurídica plena no campo (propriedade, reintegração, punição a invasões)
- Crédito e seguro rural fortes (menos canetada, mais previsibilidade)
- Infraestrutura e energia baratas (logística, armazenagem, fertilizantes, diesel)
- Regras ambientais técnicas e executáveis (sem aparelhamento ideológico)
- Integração regional pró-mercado no pós-Maduro (alimentos + energia + tecnologia)
Conclusão: O agro é a última muralha
O agro não é “setor”. É a base material da civilização.
Sem agro, não há cidade, não há indústria, não há escola, não há Estado.
O Brasil tem a chance de liderar uma reconstrução histórica: uma Venezuela pós-Maduro que volte a produzir, conectada a uma América do Sul mais livre e alinhada ao eixo de investimento e produtividade — com os EUA como parceiro estratégico e não como bode expiatório ideológico.
E o recado final, para todos os públicos, é simples o bastante para ser republicado:
Quem ataca o produtor, ataca o prato do povo.
Quem destrói a propriedade, destrói a produção.
E quem transforma o campo em guerra ideológica, colhe escassez.
Sobre o autor
Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em pestão Pública, ex-secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no Brasil, Um Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil e Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.
Graduado pela USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove.
Referências bibliográficas e fontes (seleção)
- USDA/FAS. Brazil: Sugar Semi-annual / Sugar Annual (projeção de cana 2025/26). FAS USDA+3USDA Apps+3FAS USDA+3
- Beef Report (exportações brasileiras de carne bovina em 2023). ABIEC
- Doações do agro na campanha de Bolsonaro (2022). Reuters+1
- Brasil supera EUA em produção de carne bovina (2025, publicado em 2026). Reuters
- Queda estrutural da produção de petróleo venezuelano e fatores (nacionalização, sanções, colapso operacional). Investopedia
- Produção venezuelana em torno de 800 mil bpd e contexto pós-Maduro (2026). Axios
- Columbia University – Center on Global Energy Policy. Destino das exportações de petróleo venezuelano e participação da China (dados citados via Kpler). CGEP
- “Donroe Doctrine” e disputa EUA–China na Venezuela (2026). Reuters
- Le Monde / Reuters / Task & Purpose. Relações Venezuela–Irã e cooperação (energia/defesa). Le Monde.fr+2Reuters+2
- Wikipedia (consulta rápida de contexto e séries históricas; confirmar em bases oficiais quando necessário): produção agrícola venezuelana 2019 (cana, milho). Wikipédia+1
- Foro de São Paulo (histórico do encontro de 1990). Wikipédia




