Por Diana Jank
Precisamos também os diferentes para alimentar a alma. As visões do agro em outros países e a evolução da imagem do agronegócio no Brasil conectando o campo e a cidade.
Passei todo o mês de setembro e metade de outubro de 2025 fazendo uma viagem para conhecer profundamente o agronegócio e os sistemas de produção de comida ao redor do mundo. Foram quatro continentes, seis países, muitas cidades diferentes e mais de 50 visitas entre fazendas, indústrias, conferências e reuniões com pessoas do setor.
Essa viagem faz parte do Programa Nuffield, do qual eu sou uma 2025 Scholar. Um dos grandes objetivos da Nuffield é a formação de jovens lideranças no agronegócio por meio de experiências internacionais através do programa de bolsas. A proposta é entrar em contato com outras realidades ao redor do mundo, compartilhar vivências e trazer soluções para seu próprio país.
Minha pesquisa é sobre comunicação. Como podemos melhorar a imagem do agronegócio no Brasil conectando o campo e a cidade? As pessoas perderam a conexão entre o que consomem e a respectiva origem.
Sendo assim, eu acredito que essa revolução passa pela capacidade de contar as boas e verdadeiras histórias que existem dentro das porteiras, por uma grande demanda do público urbano em busca de experiências reais na área rural e pela necessidade da indústria assumir um protagonismo no elo entre produtor e consumidor.
Realidades distintas no agro mundial
Visitar países com realidades tão distintas é um verdadeiro desprendimento das nossas próprias crenças. Meu maior objetivo era entender sistemas sem julgar se estava certo ou errado. Resposta, aliás, é o que me faltou diversas vezes. Seja me deparando com o estrago de um governo corrupto nas Filipinas, a crise hídrica e política na Califórnia e o plano ousado de produzir 30% de comida localmente até 2030 em Singapura mesmo sem terras e acessos a recursos naturais.
Foi depois de visitar o gigantesco frigorífico da Thomas Foods na Austrália, a criação de patos nos fundos de casas sem saneamento básico nas Filipinas, porcos orgânicos criados nos campos verdejantes do interior da Dinamarca, a maior fazenda de leite que visitei na vida há algumas horas de São Francisco, na Califórnia, nos Estados Unidos, e a única produção de caviar no Chile que eu endossei o que venho pensando há algum tempo. Precisamos dos grandes para alimentar o mundo e dos diferentes para alimentar a alma!
Os grandes e os diferentes na alimentação
A grande verdade é que não existe uma única solução, especialmente quando falamos de tópicos sensíveis para o novo consumidor como sustentabilidade ou bem-estar animal.
A resposta errada é fácil de ser identificada, mas é impossível definir o que é certo sem considerarmos inúmeras camadas relacionadas a clima, acesso a recursos naturais, política, subsídios, poder de compra, hábitos de consumo, mão de obra, segurança alimentar e acesso à educação.
Os grandes têm poder de barganha, vantagem de escala econômica, acesso a conhecimento, novas tecnologias, contratos bem amarrados, suporte de parceiros, capacidade de investimento constante e, dessa forma, conseguem otimizar o uso de recursos entregando grandes produções de forma eficiente.
Enquanto os diferentes prometem e entregam um produto que vai além do valor nutricional, muitas vezes com um custo de produção mais alto e não necessariamente com a maior produtividade por hectare. Já se sabe que o consumidor está disposto a pagar mais por um alimento com propósito, rastreabilidade total, valores claros e que garanta uma sustentabilidade ambiental e social no processo produtivo.
Sabemos também que em um planeta com uma população crescente e recursos finitos, precisamos dos grandes para suprir a necessidade da alimentação em massa. A responsabilidade sobre o uso eficiente de recursos naturais nunca foi tão necessária.
Por outro lado, sabemos o quão fundamental é o papel de produtores rurais na preservação e impactos no sistema. A produção orgânica, isolada e baseada apenas no certificado, já não serve e não convence o consumidor.
Na busca do caminho do meio
Acredito que estamos vivendo o momento que entendemos que é importante encontrar um meio de caminho. Se faz necessário fazer o melhor uso possível de terra e água para garantir a maior e mais segura produção por hectare possível. Além disso, o futuro é sobre dados. Não basta informar no rótulo que a carne é carbono zero, é preciso provar e comprovar.
Na Dinamarca, um país pequeno que produz uma quantidade de alimentos capaz de alimentar três vezes os dinamarqueses, já se fala sobre a tendência de mais sistemas intensivos justamente pela combinação de eficiência, tecnologia e medição de dados, mas, desde que sejam sistemas intensivos totalmente alinhados às demandas do novo mundo.
Aliás, o formato intensivo é justamente para comprovar por meio de informação que existe sustentabilidade ou bem-estar na prática em questão.
A Holanda possui um dos sistemas agroalimentares mais eficientes e intensivos do mundo, com uma quantidade de animais por hectare muito maior que a grande maioria de países europeus.
Enfrentam a crise do nitrogênio com seu grande impacto no solo, nas águas e na biodiversidade do país devido ao excesso de amônia proveniente do esterco animal, além de fertilizantes e máquinas.
O país se viu diante de pressões sociais provocadas por uma população extremamente esclarecida que vive sob um elevado PIB per capta e com um IDH que coloca a Holanda entre os top 10 do mundo versus a tradicional importância da agricultura para o país.
Nova agenda para produção agroalimentar
Da crise e dos protestos, surgiram novas medidas e leis. Hoje, gaiolas em bateria foram banidas nos sistemas de produção de ovos, da mesma forma que existem regras para suínos gestantes, limitação de projetos, bloqueio de licenças, aumento de taxas, custos e a obrigatoriedade de reduzir drasticamente o número de animais para consequentemente reduzir o nitrogênio.
Algo parecido está acontecendo na Dinamarca com o plano de implementar a Green Agenda. Ainda sobre esse país nórdico, visitei uma produção de carne orgânica e a própria produtora afirmou que poderia implementar práticas ainda mais sustentáveis em seu sistema, mas o consumidor não está preparado financeiramente para tal.
É a costura entre demanda de consumo, produtividade, eficiência, pressão social, segurança alimentar e políticas públicas para adaptar os sistemas de produção de comida exigidos nos novos tempos.
O novo farming não é “apenas” sobre produzir comida, mas é sobre ser eficiente, regenerativo, sustentável e sempre com bem-estar animal.
Por outro lado, como falar sobre redução de emissões territoriais de gases de efeito estufa e uso de Bovaer na dieta das vacas (prática adotada em larga escala ano passado na Dinamarca) em um país como as Filipinas que produz cerca de 1% da demanda nacional de leite e onde quase 1/3 da população enfrentou algum tipo de insegurança alimentar moderada ou grave em 2023?
Aprendizados pelo caminho
Um dos maiores aprendizados, independente da realidade, é o erro da falta de apoio dentro do próprio setor. É quando a própria cadeia se volta contra outros produtores para autovalorização de produto.
O boato é que o leite orgânico passa por esse momento na Califórnia. Um discurso constante sobre ser a melhor e única prática possível hoje já não convence mais o consumidor esclarecido. As gôndolas confirmam essa realidade: leite cru engarrafado (o novo queridinho do californiano pela proposta de valor natural, saudável e regenerativa) sendo vendido pelo dobro do leite orgânico.
Tive a sorte de aprender, ainda muito nova, uma lição valiosa sobre ouvir diferentes perspectivas com meu pai. Esse exemplo foi arrastado quando estávamos em uma palestra sobre a importância do leite e o evento foi invadido por um grupo de veganos que interrompia a palestra e levantava cartazes contra a prática.
No final do evento, enquanto o grupo que protestava aguardava a polícia, meu pai foi participar da roda para entender qual era o ponto de vista.
Durante um dos 17 voos dessa volta ao mundo, estava assistindo a série Yellowstone e me lembrei dele. No episódio 5 da temporada 4, John Dutton convida uma ativista para conhecer o seu rancho com a frase: “gostaria que você entendesse o meu mundo”.
A necessidade de adaptação para um mundo mais sustentável é indiscutível. Felizmente, temos diversas formas e respostas para chegarmos lá, basta estarmos abertos para elas e entendermos que essa luta não acontece no mesmo tempo e espaço nos diferentes cantos do mundo. Da mesma forma que para criar uma criança precisamos de uma aldeia inteira, essa revolução não será feita sozinha (Diana Jank é uma publicitária da terceira geração de produtores de leite em Descalvado (SP), na fazenda Agrindus. Ela é a diretora de marketing da marca Letti A²; Forbes)




